Como mesclar plataformas pode ajudar a formar leitores

Pedagoga e jornalista Carolina Sanches aposta no conceito de leituras elásticas para despertar o interesse em livros, tirá-los de pedestal e torná-los tão pop quanto seriados

 

Em 2008, o escritor americano Nicholas Carr, conhecido por analisar os efeitos da internet no cérebro, escreveu um artigo para a revista The Atlantic em que descreve a dificuldade que passou a ter para se concentrar num livro após ler duas ou três páginas. Em vez de continuar uma leitura extensa, ele começou a se perder em meio ao encadeamento das ideias e a procurar outra coisa para fazer.

“Antigamente eu era um mergulhador num mar de palavras. Agora eu ando rapidamente pela superfície como um cara num jet ski”, escreveu, ressaltando que sua capacidade de concentração e de contemplação estavam sendo arruinadas pela internet. Quanto mais navegava na rede, maior era sua luta para manter o foco em um texto longo.

Desde então, outros pesquisadores se dedicaram ao assunto. Em 2009, um estudo da Universidade Stanford, nos Estados Unidos, mostrou que a possibilidade de fazer diversas tarefas na internet afeta a capacidade de manter a atenção em algo e torna os usuários mais vulneráveis a distrações. Em 2013, outro estudo, desta vez da Universidade de Aix-Marselha, na França, apontou que navegar pela web cria o “efeito da primazia”: os primeiros pedaços de informação com os quais a pessoa teve contato terão mais peso no que ela retém do que o resto.

Preocupada em formar novos leitores que, mesmo imersos num universo saturado de informações, consigam se aprofundar nos livros, a escritora, pedagoga e jornalista Carolina Sanches tem defendido que é possível fazer crianças e jovens nascidos num mundo tecnológico gostarem de ler sem que o hábito seja um castigo.

“A gente precisa ajudar as pessoas a mergulhar. O que a gente está fazendo, como diz o Nicholas Carr, é andar de jet ski. A gente vai longe, mas sempre na superfície. O que a gente quer? Que os alunos sejam mergulhadores, que possam ir fundo, mas que consigam também ir longe. É preciso fazer esse movimento o tempo todo”, disse ao Nexo.

Uma das fundadoras do Ler Conecta, uma agência que trabalha na formação de professores, ela tem defendido o conceito de leituras elásticas como estratégia para isso.

Como esticar as leituras

A proposta de Sanches é esticar os livros até outras plataformas, digitais ou não. Pode-se começar a experiência no próprio livro e levar a leitura até as outras plataformas, ou começar nessas plataformas e passar pelos livros ou terminar neles. Para explicar o conceito de leituras elásticas, ela usa como exemplo o personagem de ficção Sherlock Holmes, criado pelo escocês Arthur Conan Doyle, ainda no século 19. 

Para trabalhar o personagem-detetive, a pedagoga sugere, por exemplo, recorrer ao jogo de tabuleiro Scotland Yard - A Máquina do Tempo, fabricado pela Grow. “Nesse jogo, o Sherlock Holmes encontra uma máquina do tempo, entra nela e vai resolver casos que não foram solucionados. Há várias camadas de leitura aí”, conta.

Primeiro, há o jogo em si. Depois, os livros de Sherlock Holmes e o romance de ficção científica “A Máquina do Tempo”, publicado em 1895 pelo escritor britânico H. G. Wells. “Eu estico ainda para os filmes com o Sherlock Holmes, para as séries, para os jogos, para [outros] livros do Conan Doyle, para os livros do Wells. Quando eu consigo esticar para outras plataformas, eu estou fazendo leituras elásticas”, diz a pedagoga.

A ideia é trabalhar a “formação de um leitor contemporâneo”. “A gente quer que a criança tenha fluência lendo tanto um livro físico quanto gravando um vídeo para o YouTube. A gente quer que ela entre e saia dessas plataformas com muita competência. Essa é uma habilidade de leitura do nosso tempo”, diz.

Abordar os “novos letramentos digitais” em sala de aula é, por sinal, recomendado pela Base Nacional Comum Curricular homologada pelo governo federal em 2017. O texto defende que compreender uma palestra é tão importante como “ser capaz de atribuir diferentes sentidos a um gif ou meme”.

Os 3 eixos das leituras elásticas

Segundo a pedagoga, o conceito de leituras elásticas é trabalhado por meio de três eixos. Ao Nexo, ela explica cada um deles:

A curiosidade

“É a nossa capacidade de fazer perguntas, de problematizar. É preciso ser curioso para poder saber mais. Fazer perguntas é o que move o mundo, não as respostas. A gente está no mundo do Google, em que as pessoas querem respostas. Na verdade, a gente precisa focar mais nas perguntas. A leitura elástica ajuda nisso.”

A criatividade

“É a nossa capacidade de resolver problemas. Quando você está lendo um livro e esticando essa leitura, você está fazendo resolução de problemas, está sendo empático. São valores que estão na Base Nacional Comum Curricular, por exemplo.”

A conectividade

“Não é a tecnologia. A gente precisa pensar que livro é só mais uma plataforma. A conectividade é a nossa capacidade de conectar pontos. A gente precisa saber que a nossa história vivida aqui tem a ver com um fato passado, com um outro momento. O aluno precisa conectar pontos.”

O lado lúdico da leitura

Na opinião de Sanches, os projetos de leitura precisam ser repensados para as novas gerações. Ela defende que se explore o lado lúdico da aprendizagem, utilizando jogos analógicos, relacionando livros com quadrinhos, fotografias e até parques temáticos. “A gente precisa fazer esse remix. A gente está na época do mashup [mistura]”, afirma.

Como no exemplo do Scotland Yard, jogos de tabuleiro podem esticar a leitura para outras plataformas por causa de suas narrativas, segundo Sanches. “Jogos clássicos de detetive, por exemplo, ajudam a entender personagens, a montar histórias. Se a gente junta leitura e jogo, a gente ganha muito”, conta.

As escolas já estão repensando suas perspectivas, segundo ela, por meio de projetos em que escolhem um tema e a partir dele elaboram uma narrativa em que alinham e esticam a leitura para tudo o que se encaixa na temática proposta.

As máquinas de distração

Mas como competir com máquinas de distração como o celular? “Temos muitas coisas que distraem a nossa atenção. Tem pesquisa que mostra que nossa capacidade de concentração está chegando, no máximo, a 18 minutos. Como é que a gente consegue ler um livro assim? Quantas pessoas não conseguem passar da página cinco?”, questiona Sanches.

Para ela, declarar o celular como inimigo, porém, é um erro. Também não se deve colocar o livro em oposição às novas plataformas. “Ler é muito legal. Temos que desconstruir essa ideia de ‘chega de celular e vá ler um livro’. Ler livro virou castigo para tirar do celular. Que criança vai gostar de ler livro assim? Na verdade, o celular é apenas uma plataforma. Hoje, nós temos visual novels, em que você lê no celular histórias, narrativas interativas, literatura”, diz.

Ela também defende que os livros não devem ser colocados num pedestal, mas aproximados do dia a dia. “A pessoa se senta no bar e pergunta: ‘A qual seriado você está assistindo?’. Todo mundo tem seriado para falar. E quando pergunta ‘qual livro você está lendo?’, a pessoa engasga. A gente precisa fazer com que o livro faça parte dos nossos diálogos cotidianos, que seja pop”, defende Sanches.

“Eu não vou dizer que o livro é a mais importante das plataformas, mas que é uma plataforma fundamental, porque a experiência que o livro traz nenhuma outra plataforma traz. A experiência que tem o leitor de um livro físico com certeza é diferente da experiência de um leitor digital. Não precisa ser um ou o outro, mas um com o outro”, diz.

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