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As medidas do Banco Central dos EUA e os impactos no Brasil

Sem unanimidade, Federal Reserve corta juros e injeta dinheiro no mercado. Decisões afetam cotação do dólar em relação ao real

 

Na quarta-feira (18), o Banco Central dos EUA – o Federal Reserve, conhecido também como Fed – anunciou o corte da meta da taxa básica de juros americana em 0,25 ponto percentual. A nova faixa a ser atingida vai de 1,75% a 2% ao ano.

Além da redução dos juros, o Fed também tomou iniciativas de recompra de títulos do Tesouro americano, injetando dinheiro no mercado.

Na prática, as duas medidas mostraram que o Banco Central dos EUA está disposto a manter uma política monetária expansionista, aumentando a quantidade de dinheiro que circula e reduzindo o custo do crédito.

A reação dos mercados, entretanto, não foi de muito entusiasmo. Na quarta-feira, o Índice Industrial Dow Jones, um dos principais indicadores da bolsa americana, teve alta de 0,13%. Já o S&P 500, outro importante índice do mercado financeiro dos EUA, teve variação positiva de apenas 0,03%.

O presidente dos EUA Donald Trump foi ao Twitter e se pronunciou, descontente, a respeito das medidas do Banco Central dos EUA. Ele questionou a “coragem” e criticou a falta de “visão” do presidente do Fed, Jay Powell.

O presidente americano esperava um corte mais agressivo dos juros, para gerar um estímulo mais forte à economia americana, que dá sinais de desaceleração após quase uma década de crescimento sustentado.

QUEDA RECENTE

 

Após mais de uma década sem alta, o Fed optou, em agosto de 2019, por abaixar os juros de curto prazo. A decisão de um novo corte, divulgada na quarta-feira (18), não foi unânime e mostra um Fed dividido perante os sinais da economia americana e mundial.

As divisões dentro do Fed

A opção por cortar os juros americanos em 0,25 ponto percentual revelou que nem todos os membros do conselho do Federal Reserve estão na mesma página.

As decisões de política monetária são tomadas pelo Fomc (Federal Open Market Committee, ou Comitê Federal de Mercado Aberto, em português), composto por 12 membros com poder de voto.

Dos 12 votos submetidos na reunião de quarta-feira (18), três discordaram da decisão de um corte de 0,25 ponto percentual. Desses três, dois eram favoráveis à manutenção da taxa de juros na faixa de 2% a 2,25%, enquanto o outro defendia um corte mais agressivo, da ordem de 0,5 ponto percentual.

As dissidências foram vistas no mercado como um sinal de que o Federal Reserve – assim como o restante dos agentes – está com dificuldades de interpretar a atual situação da economia americana e mundial. O próprio presidente do Fed, Jay Powell, admitiu isso.

“Quando a direção é relativamente clara, é relativamente fácil alcançar uma unanimidade. Este é um momento de avaliações difíceis e, como podem ver, perspectivas discrepantes”

Jay Powell

presidente do Federal Reserve, após a reunião da quarta-feira, 18 de setembro de 2019

As avaliações difíceis a que se referiu Powell decorrem das incertezas que atingem a economia mundial. Por um lado, a guerra comercial travada entre EUA e China afeta o comércio de todos os países do planeta. Além disso, as principais economias do mundo dão sinais de desaceleração, gerando temor de uma nova recessão global.

Diante desse cenário, o Banco Central dos EUA optou pelo caminho visto como mais seguro, enquanto observa o desenrolar dos acontecimentos.

Para além dos juros

A decisão de cortar os juros em 0,25 ponto percentual já era esperada pelo mercado. Mas a injeção de dinheiro por meio de operações de recompra não estava no radar dos agentes. A medida é apelidada no mercado financeiro dos EUA de “repo”, em referência à palavra “repurchase” (recompra).

Na terça-feira (17), o Fed iniciou tais operações, colocando dinheiro no mercado de curto prazo pela primeira vez desde 2008. A decisão foi motivada pela alta inesperada das taxas de juros overnight (aplicada sobre empréstimos de curto prazo), que ultrapassaram a faixa da meta definida pela autoridade monetária.

As metas de juros definidas pelo Banco Central servem apenas como uma referência que o órgão trabalha para atingir. Isso significa que ele se compromete a interferir no mercado caso os juros se movimentem em direções diferentes daquelas desejadas.

Na terça-feira (17), foi exatamente isso que aconteceu. No mercado, havia uma alta demanda por dinheiro, enquanto a oferta estava em baixa. Consequentemente, os juros – que podem ser vistos, nesse sentido, como o preço do empréstimo – subiram significativamente.

Os relatos dão conta de que, na terça-feira, os juros de operações overnight chegaram até a casa dos 10% ao ano – valor considerado bastante alto.

O descompasso entre oferta e demanda por dinheiro no curto prazo tem por trás dois principais movimentos.

O primeiro é o fim do trimestre contábil de empresas americanas. As firmas precisavam pagar seus impostos e tiraram dinheiro do mercado financeiro para cumprir com suas obrigações tributárias.

Ao mesmo tempo, um movimento mais amplo do Fed também ajudou a oferta de dinheiro a cair. Desde 2018, o Banco Central americano vem deixando vencer os títulos que foram emitidos pelo governo dos EUA durante os momentos mais críticos da crise de 2008, sem comprar o equivalente ao que vendeu em mercado. Esses títulos são ativos financeiros de liquidez alta, ou seja, que podem ser trocados por dinheiro com bastante facilidade e agilidade (em contraposição a ativos de liquidez baixa, como um apartamento ou um carro).

MENOS TÍTULOS

 

Com menos títulos em posse do Fed, diminui o balanço da instituição, o que faz com que circule menos dinheiro na economia. Esse movimento é chamado de aperto quantitativo (quantitative tightening, em inglês).

A combinação do fator pontual do fim do trimestre contábil com a redução de títulos em posse do Fed levou à queda da oferta de dinheiro e subsequente alta inesperada dos juros de curto prazo. Isso deixou o mercado em apreensão e acendeu o alerta para o Federal Reserve. O medo era de que o Banco Central dos EUA tivesse perdido controle sobre a política monetária.

Durante o restante da semana, o Banco Central dos EUA decidiu manter as operações de recompra, buscando evitar que as taxas de juros fossem afetadas novamente por problemas de falta de liquidez.

O impacto sentido no Brasil

Enquanto o Federal Reserve cortava os juros e fazia operações de recompra para colocar mais dinheiro no mercado, o Banco Central do Brasil reduziu a taxa Selic em 0,5 ponto percentual. Com a alteração, a taxa básica de juros da economia brasileira caiu de 6% para 5,5% ao ano.

Após a ação do Banco Central brasileiro sobre a Selic e a queda dentro do esperado nos juros dos EUA, a cotação do dólar subiu no Brasil. Na quinta-feira (19), a primeira sessão após o anúncio do corte pelo Copom (Comitê de Política Monetária), o dólar subiu 1,4%.

DÓLAR EM ALTA

 

O impacto sentido no câmbio teve como motivação a perda de atratividade das aplicações em juros no Brasil. Isso porque, com os juros mais baixos, os rendimentos são menores para quem vai investir no país. Ao mesmo tempo, como os juros dos EUA caíram menos do que os do Brasil, eles ganharam em atratividade comparativa.

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