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As crises em torno dos aliados externos de Bolsonaro

Na Argentina, na Itália e em Israel, líderes admirados pelo presidente brasileiro perdem votos e vivem período de baixa

 

Aliados internacionais do presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, sofreram, entre agosto e setembro de 2019, derrotas eleitorais importantes em seus respectivos países.

A mudança no cenário traz desafios à política externa de um presidente brasileiro que manifestou abertamente predileção e afinidade ideológica, chegando até mesmo a pedir votos por esses aliados que agora estão em baixa.

A eventual mudança no poder — normal e esperada em países democráticos — pode obrigar o governo brasileiro a reconstruir relações. Em alguns casos, as relações terão de se dar com líderes de esquerda por quem Bolsonaro já manifestou antipatia abertamente.

Se, por um lado, as relações exteriores ocorrem entre Estados, e não exatamente entre indivíduos, por outro, é certo o peso da personalidade de cada presidente na construção dessas relações, que não estão imunes a afinidades ideológicas, como as que o presidente do Brasil professa de maneira assertiva.

“Se nós olharmos a mudança que houve do socialismo para uma economia de mercado, mais liberal, e para os valores mais conservadores, nós temos aí: Jair Bolsonaro no Brasil, [Donald] Trump nos EUA, o grande Binyamin Netanyahu, que venceu agora [em abril] em Israel, e, aqui na Europa, tem Viktor Orbán [Hungria] e Matteo Salvini”

Eduardo Bolsonaro

deputado federal (PSL-SP) e filho do presidente do Brasil, em transmissão ao vivo pela internet, ao lado do italiano Matteo Salvini, em abril de 2019

A fala acima, de Eduardo Bolsonaro, é um exemplo da maneira como os membros da família do presidente e do atual governo enxergam a política. Os aliados são apresentados como líderes de uma reconstrução conservadora. Os adversários são genericamente classificados como “socialistas”, “esquerdistas” ou mesmo “comunistas”, ainda quando não o são.

“Bolsonaro polarizou demais em questões que são caríssimas para as oposições que podem em breve chegar ao poder, incluindo a questão ambiental, a questão dos direitos humanos, e essas preocupações excessivas com assuntos religiosos. É um movimento que traz consigo certo risco”

Guilherme Casarões

professor de relações internacionais na Fundação Getúlio Vargas, em entrevista ao Nexo

Estas são as principais mudanças ocorridas recentemente com líderes pelos quais Bolsonaro manifestou abertamente predileção:

Macri na Argentina

Na Argentina, o atual presidente, Mauricio Macri, saiu derrotado das Paso (Primárias Abertas Simultâneas e Obrigatórias) realizadas em 11 de agosto. Essas primárias são o primeiro passo — e também o maior termômetro — para a eleição presidencial de 24 de novembro.

A chapa de Macri, de direita, teve 32% dos votos. A chapa de esquerda, formada por Alberto Fernández (candidato a presidente) e Cristina Kirchner (candidata a vice), teve 47,6%. Se essa diferença for mantida, Macri será derrotado no primeiro turno.

Bolsonaro fez campanha aberta por Macri. Em julho, o presidente brasileiro disse que “a Argentina tem tudo para decolar com a reeleição de Macri”. Já com uma eventual vitória da chapa de Kirchner, o país “terá seríssimos problemas”.

Na sequência, Fernández referiu-se a Bolsonaro como “racista, misógino e violento, que é favor da tortura”. Porém, o candidato argentino disse mais tarde ter se arrependido das declarações e afirmou que “ter uma boa relação com o Brasil é mais importante do que qualquer presidente”.

Salvini na Itália

Na Itália, Matteo Salvini e o partido Liga, de extrema direita, com qual Bolsonaro manifestava afinidade, deixou o governo no dia 29 de agosto. Salvini e seu partido foram substituídos por uma aliança entre o 5 Estrelas, fenômeno populista da política local, e o tradicional Partido Democrático, de centro-esquerda.

Foto: Yara Nardi/Reuters - 20.08.2019
Matteo_Salvini
Matteo Salvini, líder da Liga
 

Enquanto durou no poder, Salvini impulsionou uma forte agenda nacionalista, marcada por críticas à União Europeia, à esquerda e sobretudo à imigração estrangeira.

Seu maior adversário no campo internacional foi o presidente da França, Emmanuel Macron, com o qual o presidente brasileiro também protagonizou um entrevero por meio de declarações públicas e mensagens no Twitter, tendo a preservação da Amazônia como eixo.

O discurso contra a esquerda uniu Bolsonaro e Salvini, após a prisão e deportação do italiano Cesare Battisti para a Itália, em janeiro. Battisti, que estava no Brasil desde 2004, foi membro do grupo guerrilheiro Proletários Armados pelo Comunismo e confessou participação no assassinato de quatro pessoas em seu país de origem, nos anos 1970.

Bolsonaro afirmou que Battisti era um “herói da esquerda” e que ele “vivia numa colônia de férias no Brasil proporcionada e apoiada pelo governo do PT e suas linhas auxiliares (Psol, PCdoB, MST)”, numa referência ao fato de Battisti ter vivido no Brasil por 14 anos, parte deles na condição de refugiado político a partir de decisão do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Battisti foi preso ao cruzar a fronteira, já em território boliviano, mas a participação brasileira foi importante na operação. Salvini agradeceu a Bolsonaro. Três meses depois, em abril, um dos filhos do presidente brasileiro, o deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), participou de uma transmissão ao vivo pelas redes sociais ao lado de Salvini, apresentando o italiano como “quem melhor representa esse movimento de direita que está ocorrendo no mundo inteiro”.

‘Bibi’ em Israel

O premiê israelense, que soma 13 anos no poder, corre o risco de ficar de fora de um novo governo. Seu partido, o Likud, terminou a eleição de terça-feira (17) sem o número de assentos suficientes para governar sozinho. Eram precisos 61, mas ele teve apenas 31.

Bibi tenta agora costurar uma aliança majoritária com os rivais do partido Azul e Branco, de centro, que terminaram a disputa em primeiro lugar, com 32 assentos. Porém, o líder do partido Azul e Branco, Benny Gantz, diz que só aceita a proposta se ele próprio, e não Bibi, assumir como primeiro-ministro.

Israel é pivô de impasses políticos intrincados no Oriente Médio. Embora os governos brasileiros sempre tenham adotado uma posição de equilíbrio e prudência em relação às partes, Bolsonaro preferiu alinhar seu governo a Israel, mesmo em causas para as quais o apoio da própria sociedade israelense não é majoritário.

O maior exemplo foi a promessa de mudar a embaixada do Brasil, hoje em Tel Aviv, para Jerusalém, seguindo o exemplo dado pelo presidente dos EUA, Donald Trump. Bolsonaro depois recuou e manteve em Jerusalém um escritório brasileiro de menor importância. O presidente brasileiro também disse que removeria a Embaixada da Palestina de Brasília.

Bibi mandou equipes e equipamentos para auxiliar nas buscas por sobreviventes da tragédia do rompimento da barragem da Vale, em Brumadinho (MG), em janeiro. Mais recentemente, Bolsonaro anunciou que aceitaria ajuda israelense para combater incêndios na Amazônia, enquanto desdenhou da oferta de recursos feita pela França para o mesmo fim.

‘Política de ter preferidos é arriscada’

O Nexo perguntou ao cientista político e professor de relações internacionais da FGV-SP, Guilherme Casarões, quais riscos o governo brasileiro corre ao identificar seus preferidos e seus preteridos com tanta ênfase nas relações exteriores.

De acordo com Casarões, essa “política de se relacionar com pessoas, e não com Estados” tem “riscos óbvios, que ficam claros diante das circunstâncias eleitorais pelas quais esses líderes estão passando”.

 

Casarões considera que “a relação que o Brasil tentou construir [com esses líderes] foi tão intensa que qualquer líder de outro governo que chegue ao poder vai tentar se afastar naturalmente”, o que se aplica por exemplo à eleição presidencial de 2020 nos EUA. Ele considera que, se Trump sair, “o Brasil se isola”.

O professor diz que “essa política de escolher preferidos tem muito a ver com a direção da política externa brasileira dada pelo grupo antiglobalista liderado pelo [chanceler brasileiro] Ernesto Araújo e pelo [assessor especial da Presidência para Assuntos Internacionais] Filipe Martins, que é a ideia de que existem líderes hoje no mundo que são nacionalistas, conservadores, populistas, que representariam uma janela de oportunidade de regeneração do que eles chamam de civilização judaico-cristão-ocidental”.

Na visão desse núcleo do governo, diz Casarões, “todos esses agentes internacionais teriam compromisso de, em nome da luta contra o globalismo, defender esses pilares de Deus, família e nação”, pois o atual governo brasileiro “vê nessas pessoas o compromisso inquebrantável com a regeneração da civilização judaico-cristã ocidental, nas palavras do próprio chanceler brasileiro”.

João Paulo Charleaux é repórter especial do Nexo e escreve de Paris.

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