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A morte de mais uma criança. E a violência policial no Rio

Menina de oito anos é vítima de tiro de fuzil no Complexo do Alemão. Letalidade das forças de segurança fluminenses bate recorde histórico em 2019

     

    Uma menina de oito anos de idade morreu na madrugada deste sábado (21) no Rio de Janeiro. Ágatha Vitória Sales Félix foi baleada na noite de sexta (20) e foi levada a uma Unidade de Pronto Atendimento, mas não resistiu.

    A criança foi atingida enquanto estava dentro de uma kombi com familiares, passando pela comunidade da Fazendinha, que faz parte do Complexo do Alemão, na zona norte do Rio. 

    Em nota oficial, segunda a polícia, o tiro que matou a menina foi disparado quando equipes da Unidade de Polícia Pacificadora que patrulhavam a região reagiram a um ataque simultâneo de “várias localidades da comunidade”. 

    A versão de moradores da Fazendinha divulgada neste sábado por meio de redes sociais é de que não houve o ataque a que a polícia se refere. Em entrevista ao jornal O Globo, Elias César, tio da vítima, também afirmou que não houve confronto. 

    “A ação da Polícia Militar se deu porque os policiais haviam mandado um motociclista parar, mas ele não atendeu à ordem. A kombi estava no Largo do Birosca (na Fazendinha) e os policiais atiraram na moto. É mentira que teve tiroteio, foi um tiro só. Nenhum PM foi atacado”

    Elias César

    em entrevista ao jornal O Globo neste sábado (21)

    O autor do disparo não foi identificado. A Coordenadoria de Polícia Pacificadora afirmou que vai iniciar apuração sobre o caso. No Twitter, a Polícia Militar lamentou a morte da criança e reproduziu a versão oficial de que agentes de segurança foram "covardemente atacados por criminosos”. 

     

    O governador do Rio de Janeiro, Wilson Witzel, responsável pela polícia do estado, costuma recorrer às redes sociais para defender as ações de sua gestão, mas não havia se manifestado ali sobre o caso até o fim da tarde de sábado. O governo fluminense emitiu nota oficial, por meio de assessoria, dizendo “lamentar profundamente a morte da menina Ágatha, assim como a de todas as vítimas inocentes durante ações policiais”. 

    Os protestos na comunidade

    Ao longo da manhã de sábado (21), houve manifestação nas ruas do Complexo do Alemão. Moradores e ativistas, a pé e também em motocicletas, saíram com cartazes pedindo o fim da violência nas comunidades do Rio. Por meio de um alto-falante, um morador afirmou: "Não queremos mais ver crianças morrendo. Chega de covardia".

     

    A presença do governador Witzel na comunidade também foi cobrada pelos manifestantes. A página Voz das Comunidades trouxe relatos e vídeos do protesto no Alemão.

     

    “Em todas as comunidades se perdem vidas inocentes por essa política montada pelo governo do Estado. O Complexo do Alemão está presente, sim! Não queremos que a Agatha venha a ser apenas mais uma foto estampada. Vamos lutar pelos nossos direitos dentro da comunidade, onde vários inocentes são atingidos por 'balas achadas' todos os dias ”

    Manifestante no Complexo do Alemão

    relato do jornal O Globo neste sábado (21)

    Wtizel e a violência da polícia

    Ágatha Félix foi a quinta criança morta por tiros no Rio de Janeiro em 2019, segundo o Instituto Fogo Cruzado. Neste ano, o estado fluminense, bate recordes nas mortes causadas por agentes públicos, de acordo com dados oficiais do Instituto de Segurança Pública. 

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    mortos pela polícia entre janeiro e agosto de 2019

    O número de mortos por ações policiais está no patamar mais alto em mais de duas décadas. O índice de demais assassinatos caiu — uma tendência registrada no Brasil como um todo desde 2018. 

    O governador Witzel, que assumiu o governo em janeiro de 2019, tem se notabilizado pela chamada linha dura na área de segurança pública. Ex-juiz federal, ele é defensor de que agentes do Estado atirem para matar e do endurecimento de leis penais, apoiando a conduta de policiais no combate ao que chama de “narcoterroristas”. 

    O governador já apareceu vestido com trajes de policial e dando tiro de sniper, fazendo flexões com um batalhão e a bordo de um helicóptero do qual um policial dispara tiros na cidade de Angra dos Reis. 

    Em agosto de 2019, logo após um atirador de elite matar o sequestrador de um ônibus na ponte Rio-Niterói, Witzel chegou ao local de helicóptero e desembarcou comemorando, com sorriso e gestos de satisfação.

    No mesmo mês, o governador afirmou que os assassinatos de inocentes no Rio de Janeiro são responsabilidade de defensores de direitos humanos, pelo fato de estes questionarem a política de policiais atirarem para matar. A fala foi duramente criticada por várias entidades, inclusive a OAB (Ordem dos Advogados do Brasil).

    O caso do Alemão

    O Complexo do Alemão fica na zona norte do Rio e reúne uma série de favelas em sua área, que foi se tornando palco recorrente de assassinatos  e violência ao longo da história. A região começou a se formar ainda na década de 1920 e hoje é uma das mais populosas do estado fluminense e tem um dos piores Índices de Desenvolvimento Humano do Rio.

    Em 2010, o Alemão foi ocupado por forças policiais em meio à operação das Unidades de Polícia Pacificadora. Na época, o governo do Rio, comandado por Sergio Cabral (atualmente preso condenado em diversos casos de corrupção), expulsou facções criminosas da região usando milhares de homens – em ação transmitida ao vivo pela TV. O governador na época disse que a UPP representava “uma página virada na história”.

    Algumas obras de infraestrutura, feitas em parceria com o governo federal, foram inauguradas no Alemão. Mas anos depois da instalação da UPP a violência continuou em alta no bairro. 

    Em 2019, houve aumento das mortes violentas na comparação com 2018. Segundo o Instituto de Segurança Pública, foram 62 mortes entre janeiro a agosto de 2019 – número igual ao total de 2018. As mortes por agentes do Estado no Alemão, de janeiro a agosto de 2019, chegam a 31. Em 2018, foram no total 23.

    Na quarta-feira (18), uma operação realizada pela polícia no Alemão resultou em cinco pessoas mortas. Um policial ficou gravemente ferido. Uma operação semelhante ocorreu no mesmo dia no Complexo da Maré. Escolas tiveram aulas prejudicadas e houve relatos de pânico por parte dos estudantes.

    ESTAVA ERRADO: A primeira versão deste texto afirmava que Ágatha Felix é a quinta criança morta por tiros da polícia em 2019 no Rio. Na verdade, ela é a quinta morta por tiros, segundo o Instituto Fogo Cruzado. A correção foi feita às 19h15 de 21 de setembro de 2019.

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