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O alcance e o impacto da greve global pelo clima

Movimento levou centenas de milhares de jovens às ruas ao redor do mundo para pedir ações concretas a governos. No Brasil, protestos foram tímidos

     

    Centenas de milhares de jovens foram às ruas das principais cidades do mundo na sexta-feira (20) para pressionar a classe política e empresarial por ações concretas contra as mudanças climáticas. Ao todo, foram programados atos em mais de 150 países.

    A greve global pelo clima, como é chamada, ocorre às vésperas da Cúpula do Clima da ONU (Organizações das Nações Unidas), marcada para segunda-feira (23), em Nova York, nos Estados Unidos. No dia seguinte, ocorrerá na mesma cidade a 74ª Assembleia Geral das Nações Unidas, cujo discurso de abertura será feito pelo presidente Jair Bolsonaro, que teve sua viagem autorizada pelos médicos.

    Os protestos convocados pelos estudantes devem continuar em todo o mundo por mais uma semana, até a sexta-feira (27), quando haverá a participação também de entidades da sociedade civil.

    Às vésperas do protesto, na quarta-feira (18), o secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, afirmou ao El País, que existe falta de vontade política para as mudanças. Para ele, a opinião pública seria capaz de alterar esse quadro.

    “Antes ou depois, os governos sempre seguem a opinião pública, em todos os lugares do mundo. Devemos seguir contando a verdade e confiar que os sistemas políticos, especialmente as democracias, vão acabar por cumprir o que as pessoas creem que seja necessário”, disse.

    O secretário-geral da Anistia Internacional, Kumi Naidoo, afirmou ao jornal americano The New York Times que o movimento é “único”. “Eu certamente espero que esse seja um momento de virada”, disse.

    Ao jornal espanhol El País, a professora de sociologia ambiental da Universidade Autônoma de Barcelona, Amaranta Herrero, classificou os protestos como  “incríveis, esperançosos e necessários”.

    As Sextas pelo Futuro

    O movimento foi organizado pelo Fridays For Future (Sextas-feiras Pelo Futuro), que teve origem em agosto de 2018, quando a estudante sueca Greta Thunberg, então com 15 anos, começou um protesto de três semanas em frente ao parlamento de seu país contra a falta de medidas contra a crise climática. As imagens do protesto publicadas por ela nas redes sociais viralizaram, tornando-a famosa.

    Em setembro de 2018, ela decidiu continuar com os atos todas as sextas-feiras até que o país adotasse ações em sintonia com o Acordo do Clima de Paris. Estudantes em outros países, como a Bélgica, passaram a se inspirar na jovem para organizar seus próprios protestos.

    Greta se tornou o principal rosto do movimento de jovens contra as mudanças climáticas. Indicada ao Prêmio Nobel da Paz, ela já discursou em eventos como a Conferência do Clima da ONU, em dezembro de 2018, e no Fórum Econômico Mundial, em Davos, na Suíça, em janeiro de 2019.

    No final de agosto de 2019, ela desembarcou em Nova York para participar da Conferência do Clima da ONU, num veleiro que usou para cruzar o Atlântico. A embarcação foi escolhida por não emitir gás carbônico. Ela não viaja de avião, por causa dos gases poluentes gerados.

    A crise climática

    Os atos acontecem em meio a previsões catastróficas sobre o clima. Em 2018, o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC, na sigla em inglês), organização científico-política criada em 1988 pelas Nações Unidas, apontou que, caso a emissão de gases do efeito estufa continuasse nos níveis atuais, as temperaturas aumentariam em 1,5º C até 2040, causando inundações costeiras e intensificando as secas e a pobreza em determinadas regiões do planeta. Para alguns cientistas, a alteração pode chegar a 2º C.

    Para que o quadro traçado seja evitado, a emissão de gases deve ser reduzida em 45% até 2030, considerando os níveis de 2010. A temperatura do planeta, segundo o órgão, já subiu cerca de 1° C em relação à era pré-industrial. A cada década, a taxa tem aumentado a cerca de 0,2° C.

    A greve global pelo clima

    Na sexta-feira (20) foram organizados mais de 5.000 atos em mais de 150 países, inclusive no Brasil, onde os protestos foram tímidos.

    Estados Unidos

    Em Nova York, o prefeito Bill de Blasio liberou os alunos das aulas. Fontes oficiais estimaram a presença de mais de 60 mil pessoas no protesto, que teve participação de Greta Thunberg. Atos foram organizados em todos os 50 estados do país.

    Austrália

    Mais de 100 mil manifestantes se reuniram em Melbourne, num protesto que os organizadores disseram ser o maior da história do país. Ele fechou as principais ruas da cidade. Já em Sydney, milhares de pessoas foram para o parque Domain, próximo ao distrito comercial da cidade.

    Alemanha

    Cerca de 100 mil pessoas, segundo estimativa da polícia, também saíram às ruas de Berlim, para protestar em frente ao portão de Brandemburgo.

    Reino Unido

    Os protestos ocorreram de Brighton, no sul da ilha, a Edimburgo, ao Norte, na Escócia. Organizadores calcularam mais de 100 mil pessoas em Londres, a capital inglesa.

    Brasil

    A UNE (União Nacional dos Estudantes) divulgou uma lista com mais de 30 cidades que confirmaram manifestações. Foram realizados atos em São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília. Até o início da noite de sexta-feira (20), o site G1 registrava protestos em oito capitais e no Distrito Federal. Eles foram menores do que os de outros países.

    3 visões sobre a greve global

    Ambientalistas, professores e políticos se manifestaram na sexta-feira (20) sobre os atos dos jovens contra a crise climática.

    Um futuro ‘descolonizado’

    Em artigo de opinião publicado no jornal The New York Times na sexta-feira (20), a estudante americana filha de imigrante colombiana Jamie Margolin, de 17 anos, fundadora da Zero Hour, uma organização de militância climática juvenil, explicou que sua luta é pelo processo que chama de “descolonização”.

    “Um mundo descolonizado é aquele em que as nações mais ricas e as indústrias não continuem a explorar comunidades no hemisfério sul e em vez disso as apoiem ao lidar com os efeitos da crise climática, como secas, furacões e enchentes”, escreveu. Ela defende que comunidades pobres e indígenas sejam ouvidas e tenham “assento na mesa onde são tomadas as decisões”.

    Para Margolin, a crise climática não começa com a Revolução Industrial e a queima de combustíveis fósseis, mas com o processo de colonização da América e da África pelos europeus, o que levou à destruição de hábitats naturais e de espécies de animais e à invasão de plantas que indígenas e povos africanos foram obrigados a cultivar.

    “Com o colonialismo surgiu a ideia de que tudo na Terra é feito para nossa extração e que tudo pode ser comprado e vendido. Vemos isso na chegada dos colonizadores europeus às Américas, onde a terra, a água e outros recursos naturais foram roubados e agredidos”, escreve.

    Margolin defende que, se a raiz da mudança climática está na colonização, então a solução é “descolonizar nossa sociedade, do modo como obtemos nossa comida e energia ao modo como nos relacionamos entre nós”. Para isso, seria necessária a mobilização dos políticos.

    “Se os adultos querem que a juventude seja dedicada aos estudos e preste atenção nas aulas para preparar nosso futuro, então eles precisam fazer seu trabalho para garantir que um futuro exista para nós. Estou protestando porque é inútil estudar para um futuro que não existe. Estou protestando por uma mudança completa do sistema”, conclui.

    Uma questão moral

    Em artigo de opinião publicado no jornal britânico The Guardian na sexta-feira (20), o professor da Universidade de Oxford Eric Beinhocker defende que o aquecimento global seja tratado como uma questão moral e que o movimento contra a crise climática se inspire nos abolicionistas que levaram ao fim a escravidão no mundo.

    O aquecimento global é imoral, na opinião de Beinhocker, por envolver um grupo de pessoas prejudicando outras, gerações lesando os mais jovens e países desenvolvidos causando danos aos em desenvolvimento.

    Para ele, a questão tem sido atacada de forma ineficaz até aqui, porque o aquecimento global foi considerado apenas um problema tecnocrático e de custo-benefício, com debates que abordam taxas, empregos, crescimento e tecnologia.

    “Enquanto tais debates são importantes, seu efeito tem sido décadas de inação, negação e atraso. Quando algo é moralmente errado, particularmente de forma profunda e sistemática, não esperamos enquanto debatemos os caminhos e as políticas ideais: nós paramos com ele”, escreve. Ele defende tornar a poluição por gás carbônico ilegal em todos os países do mundo.

    O professor vê nos protestos como o de sexta-feira (20) o resultado do surgimento de uma “voz moral” do movimento climático. Mas, para ele, é preciso que os manifestantes abandonem slogans vagos como “Parem a mudança climática” e adotem uma campanha simples, como: “Tornem a emissão de carbono ilegal”.

    Uma mudança política

    Em artigo publicado na sexta-feira (20) no jornal The New York Times, o ex-vice-presidente dos Estados Unidos na gestão de Bill Clinton (1993-2001), Al Gore, questiona se as populações continuarão ignorando os efeitos da destruição causadas pelas mudanças climáticas e agindo como “covardes morais”.

    Também elogiou os jovens, como Greta Thunberg, por assumir a causa com paixão, como sempre ocorre em “revoluções políticas de sucesso”.

    Al Gore lembra que, embora 72% dos americanos concordem que as condições climáticas estão ficando cada vez mais extremas, 140 milhões de toneladas de gases poluentes são lançadas por dia na atmosfera, de acordo com o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas.

    Ele compara a crise climática com momentos como o atentado de 11 de setembro de 2001 nos Estados Unidos e pede para que os países se mobilizem. Defende, por exemplo, a produção de energia solar e eólica, muito mais baratas.

    “As evidências indicam que nós estamos agora nos estágios iniciais de uma revolução sustentável que irá alcançar a magnitude de uma Revolução Industrial e a velocidade de uma Revolução Digital, tornada possível por novas ferramentas digitais”, escreve.

    O ex-vice-presidente, responsável pelo documentário “Uma verdade inconveniente”, que abordou o problema do aquecimento global em 2006, também defende o reflorestamento como a única maneira de remover o gás carbônico da atmosfera, citando exemplos como a Etiópia, que recentemente plantou 353 milhões de árvores em 12 horas.

    Mas ele aponta que nenhum esforço será suficiente enquanto a mudança política não vier. “Neste momento, não temos as políticas corretas porque os políticos errados estão no poder”, escreve, alertando para a importância das próximas eleições nos Estados Unidos.

    Para ele, os governo devem interromper subsídios que encorajam o uso de combustíveis fósseis, incentivar a adoção de alternativas sustentáveis e criar novas leis e regulamentações a favor da inovação e que forcem rapidamente a redução na emissão de gases do efeito estufa.

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