Quais as suspeitas contra o líder de Bolsonaro no Senado

Fernando Bezerra Coelho foi ministro de Dilma, líder de Temer e atualmente é articulador de pautas prioritárias do governo, da reforma da Previdência à indicação de Eduardo Bolsonaro à embaixada brasileira nos EUA

    O líder do governo no Senado, Fernando Bezerra Coelho (MDB-PE), e seu filho, o deputado Fernando Coelho Filho (DEM-PE), foram alvo de uma operação da Polícia Federal na quinta-feira (19).

    Com autorização do ministro do Supremo Luís Roberto Barroso, a polícia cumpriu mandados de busca e apreensão nos gabinetes dos políticos dentro do Congresso. Também foram vasculhados endereços ligados aos dois em Pernambuco, seu estado natal.

    Bezerra Coelho é suspeito de ter recebido propina de empreiteiras em obras do governo federal no Nordeste, entre elas a transposição do Rio São Francisco e o Canal do Sertão de Alagoas, no período em que atuou como ministro da Integração Nacional, entre 2011 e 2013, no governo da então presidente Dilma Rousseff.

    O presidente do Senado, Davi Alcolumbre (DEM-AP), disse que vai contestar a operação no Supremo pelos fatos investigados não terem relação com o mandato do parlamentar.

     

    “Houve determinação de um ministro do Supremo de entrar no gabinete da liderança do governo no Senado. A liderança é um espaço do governo federal”

    Davi Alcolumbre

    Presidente do Senado

     

    Não é a primeira vez que a Polícia Federal faz buscas dentro do Congresso, seja no âmbito da Lava Jato, deflagrada em março de 2014, seja em outras operações anticorrupção correlatas:

    • Em abril de 2018, agentes vasculharam os gabinetes do senador Ciro Nogueira (PP-PI) e do deputado Eduardo da Fonte (PP-PE).
    • Em maio de 2017, a polícia fez buscas nos gabinetes dos então senadores Aécio Neves (PSDB-MG) e Zezé Perrela (MDB-MG).
    • Em outubro de 2016, quatro integrantes da polícia legislativa do Senado foram presos pela PF suspeitos de atrapalhar a Lava Jato.
    • Em novembro de 2015, os policiais fizeram buscas no gabinete do então líder do governo Dilma no Senado, Delcídio do Amaral (ex-PT-MS). Ele foi preso, fato inédito pós-redemocratização.

    O que pesa contra Fernando Bezerra Coelho

    Segundo a Polícia Federal, o senador de Pernambuco teria recebido R$ 5,5 milhões e o filho, R$ 1,7 milhão, dinheiro que segundo os investigadores havia sido desviado de obras públicas. Ambos são suspeitos dos crimes de corrupção, lavagem de dinheiro e falsidade ideológica eleitoral.

    A operação foi batizada de Desintegração. Ela ocorreu a partir dos depoimentos de delação premiada dos empresários João Lyra, Eduardo Freire Bezerra Leite e Arthur Roberto Lapa Rosal. Eles tinham sido alvo de uma operação anterior, de 2016, chamada Turbulência. Segundo a polícia, trata-se de um grupo especializado em lavagem de dinheiro em Pernambuco e Goiás.

    A investigação começou com base em movimentações financeiras de empresas envolvidas na compra da aeronave que transportava o ex-governador de Pernambuco e então candidato à Presidência de 2014, Eduardo Campos, quando ele sofreu o acidente fatal em agosto daquele ano.

    Apontado como operador de propina de Campos, João Lyra, assim como Bezerra Leite, fecharam acordo de colaboração com o Ministério Público Federal em 2017. O senador é citado por eles como beneficiário de um esquema que desviou R$ 600 milhões de trechos do projeto do Rio São Francisco.

    Ao determinar 52 mandados de busca e apreensão na operação de quinta-feira (19), em sete estados e no Distrito Federal, Barroso, do Supremo, afirmou que os delatores confirmaram a participação do senador num esquema de pagamentos que envolvia as empresas OAS, Barbosa Mello, Paulista e Constremac Construções.

    Segundo o jornal O Globo, Lyra fazia a lavagem do dinheiro das empreiteiras por meio da emissão de notas fiscais superfaturadas de suas empresas. Parte dos pagamentos era feita a concessionárias de veículos de pessoas ligadas a Bezerra Coelho. Outra parte voltava para a OAS, que fazia os repasses a um operador do parlamentar.

    O senador é alvo de investigações anteriores, conforme levantamento feito pelo jornal O Estado de S. Paulo. Em um deles, o parlamentar chegou a ser denunciado formalmente, mas o Supremo rejeitou a acusação.

    O que diz a defesa do senador

    O advogado de Bezerra Coelho, André Callegari, disse ao jornal Folha de S.Paulo que a operação está relacionada a fatos do passado que não têm “qualquer razão de contemporaneidade com o objeto da investigação”. 

    Segundo o advogado, Bezerra Coelho atua de forma combativa em relação ao pacote anticorrupção do ministro da Justiça, Sergio Moro. Por isso, a Polícia Federal, subordinada a Moro, estaria sendo usada para retaliá-lo.

    “O senador tem apregoado uma posição de respeito às garantias de direitos fundamentais e parece que isso tem descontentado alguns setores”, disse Callegari.

    Ao jornal O Estado de S.Paulo o senador também destacou o fato de as suspeitas serem antigas. Afirmou ainda que a investigação será arquivada, assim como ocorreu em situações anteriores envolvendo seu nome.

    A atuação política de Bezerra Coelho

    Fernando Bezerra Coelho ocupa lugar de destaque na cena política desde a década de 1980. Sobrinho do ex-governador da Bahia Nilo Coelho, ele começou a carreira política como deputado estadual em Pernambuco, em 1983, e foi secretário da Casa Civil no estado entre 1985 e 1986, nos governos de Miguel Arraes.

    Chegou ao Congresso Nacional em 1987 como deputado federal, atuando na Assembleia Constituinte, e deixou o segundo mandato no cargo para assumir, em 1993, a prefeitura de Petrolina, sua cidade natal e reduto político. Em 1998, foi convidado por Arraes para assumir a secretaria de agricultura do governo pernambucano. Depois disso, voltou a ser eleito prefeito de Petrolina em 2000 e 2004.

    Do executivo municipal, Bezerra retornou ao governo do estado, desta vez na gestão do neto de Arraes, Eduardo Campos. Entre 2007 e 2010, acumulou os cargos de secretário de Desenvolvimento Econômico de Pernambuco e presidente do Complexo Industrial Portuário de Suape.

    Em 2011, foi nomeado ministro da Integração Nacional do governo Dilma, cargo que ocupou até setembro de 2013, momento em que o PSB, seu partido na época, entregou os cargos no governo federal de olho na campanha presidencial de Eduardo Campos, em 2014.

    Em agosto de 2016, defendeu o impeachment de Dilma. Em discurso, Bezerra disse que o PSB havia se afastado do governo da petista por prever a crise econômica e política encabeçada pela presidente.

    Na gestão de Michel Temer, assumiu a liderança do governo no Senado ao final de agosto de 2018, após o senador Romero Jucá (MDB-RR) deixar o posto por discordar das políticas migratórias do governo. Também investigado na operação desta quinta, o filho de Bezerra atuou como ministro de Minas e Energia de Temer.

    Bezerra tinha planos de se candidatar ao governo de Pernambuco em 2018, mas foi derrotado por Jarbas Vasconcelos numa disputa interna pelo comando estadual do MDB, partido ao qual havia se filiado.

    Formado em administração pela FGV com uma pós-graduação em comércio internacional pela George Washington University, ao longo da carreira política Bezerra passou pelos partidos PDS, partido herdeiro da Arena, apoiadora do governo militar, PFL (atual DEM, criado após uma divisão do PDS), PMDB, PPS e PSB. Em 2017, voltou ao MDB (antigo PMDB).

    A aproximação com Bolsonaro e a liderança no Senado

    O nome de Bezerra Coelho para o posto de líder do governo de Jair Bolsonaro no Senado foi levado ao Planalto pelo presidente do MDB, Jucá, e o presidente da casa, Davi Alcolumbre (DEM-AP) ao ministro da Casa Civil, Onyx Lorenzoni (DEM-RS), segundo o jornal Folha de S.Paulo.

    A experiência no posto e o peso do MDB como maior bancada do Senado, com 13 parlamentares, pesaram na escolha, oficializada em fevereiro de 2019. Entretanto, houve resistência do ministro da Justiça, Sergio Moro, e de senadores do PSL, partido de Bolsonaro, pelo fato de o senador ser investigado pela Lava Jato.

    Nas casas legislativas, Bezerra tem atuado nas articulações de votações que envolvem deputados e senadores, em conjunto com a deputada líder do governo no Congresso, Joice Hasselmann (PSL-SP). Atualmente, ele tem papel importante na tentativa de aprovação da reforma da Previdência. E também na tentativa do presidente de emplacar o nome do filho Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), deputado, como embaixador do Brasil nos EUA - a indicação precisa ser aprovada pelo Senado.

    No Palácio do Planalto, Bezerra Coelho bancou a nomeação do irmão de Eduardo Campos, o advogado Antônio Campos, para a presidência da Fundação Joaquim Nabuco, entidade ligada ao Ministério da Educação que fica em Pernambuco. Além disso, foi Bezerra quem articulou a primeira viagem de Bolsonaro ao Nordeste, para Recife, onde se reuniu com o superintendente da Sudene, e Petrolina, reduto do parlamentar, onde participou da inauguração de unidades habitacionais. 

    O senador colocou o cargo de liderança à disposição após a operação desta quinta-feira (19). Bezerra afirmou que a decisão sobre sua saída do posto será tomada pelo próprio Bolsonaro e pelos ministros Onyx Lorenzoni (Casa Civil) e Luiz Eduardo Ramos (Secretaria de Governo). Segundo o jornal O Estado de S.Paulo, o presidente, que se recupera de uma cirurgia, ainda não decidiu se o parlamentar será substituído

     

     

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