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A foto de Justin Trudeau. E o debate sobre o blackface

Imagem antiga em que o primeiro-ministro canadense aparece com maquiagem para escurecer a pele leva político a pedir desculpa. Prática surgiu nos EUA e tem longo histórico racista

     

    A publicação de fotos e vídeos em que o primeiro-ministro do Canadá, Justin Trudeau, aparece com maquiagem para escurecer a pele abalaram a imagem do político em meio à campanha eleitoral nacional.

    Publicada pela revista Time na quarta-feira (18), a primeira foto mostra Trudeau com um turbante e o rosto e corpo cobertos por tinta marrom, como parte de uma fantasia de Aladdin. A foto foi tirada em 2001, durante a festa de professores de uma escola particular onde o hoje primeiro-ministro deu aulas.

    Trudeau pediu desculpas, e admitiu que também havia usado maquiagem para escurecer o rosto em outra ocasião quando era estudante do ensino médio. “É algo que eu não reconhecia como racista na época, mas reconheço como tal agora e me desculpo profundamente”, disse. O político é filho do ex-primeiro-ministro canadense Pierre Trudeau.

    A imagem foi criticada por outros políticos canadenses. Líder do partido democrata, Jagmeet Singh, da religião Sikh, cujos devotos costumam usar turbante, chamou a imagem de “perturbadora” e “insultante”. “Sempre que vemos exemplos de blackface ou brownface, é zombar alguém pelo que eles vivem”, disse. 

    Na quinta-feira (19), um vídeo divulgado pelo canal de notícias Global News mostrou Trudeau com maquiagem preta e uma peruca afro, em imagens que datam do início dos anos 1990. A revelação marcou a terceira ocasião em que ele admitiu fazer uso do chamado blackface. 

    Os casos abalam a imagem do político liberal, que vem propagandeando as políticas pró-imigração do Canadá e seu gabinete de ministros diverso. Primeiro-ministro no Canadá desde 2015, Trudeau lançou sua campanha pela reeleição há uma semana e já teve sua imagem abalada desde que uma ex-ministra o acusou de tê-la pressionado para aliviar a punição a uma empreiteira. A eleição canadense está marcada para 21 de outubro.

    Recentemente, políticos americanos também se viram envolvidos em escândalos após a revelação de que usaram blackface no passado. Hoje tabu, a prática remete a um histórico racista e segregacionista dos Estados Unidos.

    O que é o blackface e porque ele é ofensivo

    O termo blackface surgiu no século 19, nos EUA. É uma referência à prática teatral de atores brancos que se pintavam para representar, de forma exagerada e estereotipada, a população negra. O público, formado por escravocratas brancos, ria e aplaudia.

    O blackface era muito comum nos shows de menestréis entre 1830 e 1890. Os atores normalmente passavam carvão no rosto, tinta vermelha na boca (para fazer lábios enormes) e usavam roupas espalhafatosas. Eles falavam um “dialeto” próprio, diferente dos personagens brancos, que falavam inglês.

    Com o tempo a prática se desgastou, junto aos menestréis, e perdeu força. No entanto deixou resquícios fortes, perpetuados em desenhos animados e filmes.

    O debate sobre a ofensa da pintura

    Há diferentes pontos de vista sobre o fato de a pintura, em si, ser racista - independentemente da intenção ou do contexto. O historiador Thaddeus Russell, por exemplo, diz que o blackface nem sempre é ofensivo. Ele argumenta que o recurso também é usado de forma ingênua ou até mesmo como repúdio a valores puritanos dos brancos nos EUA.

    A autora Jenée Desmond-Harris rebate esse ponto de vista. “O seu pensamento não muda o impacto que o blackface tem em pessoas de todas as raças perto de você, ou da forma como reforça estereótipos de que ser negro não passa de uma piada.”

    Para David Leonard, que estuda questões raciais, o ato é sempre ofensivo. “Não há uma razão aceitável para usar blackface. Não é uma piada; não é divertido. Nenhuma alegação sobre o humor ou liberdade criativa tornará a prática ok. Blackface é parte da história da desumanização, negação de cidadania e esforços para defender e justificar um estado de violência.”

    É por isso que mesmo casos que soam ingênuos ou que não tenham uma intenção negativa são acusados de racistas.

    “Homenagear pessoas negras é tratá-las com respeito, dignidade, visibilidade e igualdade, o que é diferente de pintar a cara de preto. É necessário escutar quando se denunciam casos de racismo e trabalhar constantemente para se despir dos privilégios e atitudes que reforçam o racismo”, diz o sociólogo Túlio Custódio.

    Outros casos polêmicos de blackface

    Em fevereiro de 2019, o governador do estado americano da Virginia, Ralph Northam, e o procurador do estado, Mark Herring, admitiram ter usado blackface no passado. Northam recebeu pressão para renunciar ao cargo.

    No fim de 2017, um funcionário branco da empresa de tecnologia Salesforce se vestiu de “Negão do Whatsapp” em uma festa de fim de ano, usando uma fantasia para escurecer a pele. Tanto ele quanto um diretor e o presidente da empresa no Brasil acabaram demitidos após a matriz, americana, ter considerado a fantasia racista.

    Em fevereiro de 2017, um grupo de maracatu de Fortaleza teve a apresentação interrompida por membros do movimento negro, por incluir uma rainha com rosto pintado de preto.

    Em janeiro de 2017, o grupo teatral Trem de Minas foi criticado por recorrer à pintura corporal para fazer um ator representar uma babá negra.

    Em 2016, o programa “Mais Você”, da TV Globo, também foi acusado de racismo quando um participante se fantasiou de “nega maluca”.

    Em 2015, o cantor sertanejo Michel Teló queria espalhar uma mensagem contra o racismo. Não se deu conta de que, ao pintar o rosto de preto, estava repetindo uma prática considerada racista.

    Foto: Reprodução
    Após a polêmcia sobre a foto, o cantor pediu desculpas e disse não saber o que era "Blackface"
     

    Não foi o único caso em 2015. Em maio daquele ano, após pressão de ativistas, uma companhia de teatro paulista cancelou um espetáculo no qual os atores recorriam a esse tipo de maquiagem.

    Em agosto daquele mesmo ano, o programa “Pânico”, da TV Bandeirantes, foi acusado de racismo graças a um de seus personagens, o “Africano”, que também pintava o rosto. A produção do programa retirou o quadro do ar.

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