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O que a eleição em Israel resolve e deixa por resolver

No sistema eleitoral do país, vencedores nem sempre assumem o governo. Após resultado, tem início um intenso período de negociação

     

    Eleitores israelenses foram às urnas na terça-feira (17) para eleger os 120 membros do Parlamento nacional, o Knesset. O resultado não aponta um vencedor claro.

    Os dois partidos mais votados foram o Kahol Lavan (Azul e Branco, na tradução para o português), liderado pelo opositor Benny Gantz, com 32 assentos, e o Likud (em português, Consolidação), encabeçado pelo atual primeiro ministro, Binyamin “Bibi” Netanyahu, com 31, com 91% das urnas apuradas, nesta quarta-feira (18).

     

    Para poder assumir o governo em Israel, um partido precisa conquistar pelo menos 61 assentos, o que corresponde à metade mais um do Knesset.

     

    Como nenhuma legenda foi capaz de atingir esse número sozinha, será preciso agora entrar em negociações para tentar formar um governo de coalizão, no qual diferentes partidos somam seus assentos em torno de uma proposta comum de governo.

     

    A situação é semelhante à da última eleição nacional, realizada no dia 9 de abril. Há cinco meses, nenhum partido conseguiu compor uma aliança majoritária. Por isso, a eleição foi repetida agora. Se isso se repetir mais uma vez, não está descartada a hipótese de uma terceira eleição seguida, no início de 2020.

     

    Formalmente, cabe agora ao presidente de Israel, Reuven Rivlin, chamar os líderes dos partidos mais votados e dar a eles a chance de tentar formar uma aliança majoritária. Esse processo pode levar dias ou meses, e não há garantia de que a negociação chegue a bom termo. Enquanto a situação não se define, Bibi segue no cargo.

     

    Definições e possibilidades desta eleição

     

    Desde a fundação do Estado de Israel, em 1948, todos os governos do país foram formados a partir de coalizões. A questão é que já foi mais fácil construir esses consensos. 

     

    Bibi, de direita, foi capaz de manter-se dessa forma no poder por 13 anos, divididos em dois períodos não consecutivos: de 1996 a 1999 e de 2009 a 2019. O atual premiê busca agora seu quinto mandato como primeiro-ministro, o quarto consecutivo.

     

    A eleição de abril está sendo refeita agora por que Bibi não conseguiu à época o apoio de seu ex-chanceler e ex-ministro da Defesa, Avigdor Lieberman, do partido Yisrael Beitenu (em português, Israel Nossa Casa) para formar uma coalizão governista. Nesta eleição, o partido de Lieberman continua sendo uma força importante. Ele aparece com nove assentos.

     

    Embora não sejam suficientes para garantir a coalizão governista, esses nove assentos são importantes para Bibi, que busca ainda angariar apoio de partidos menores ultraortodoxos.

     

    A questão urgente para o premiê é como ganhar votos do partido de Lieberman de um lado sem perder votos dos ultraortodoxos de outro. Os dois campos divergem, por exemplo, sobre o alistamento militar obrigatório dos judeus ultraortodoxos. Lieberman é a favor do alistamento. Os ultraortodoxos são contrários. Esse é o tipo de dilema a administrar nas negociações que virão pela frente.

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    Do outro lado, o desafiante Benny Gantz, de centro-direita, tenta ocupar um lugar de oposição que, no passado, foi ocupado pelos trabalhistas (centro-esquerda) - agora em baixa, com apenas seis assentos.

     

    Gantz quer concentrar em si o apoio de todos os descontentes que não estejam à direita ou à extrema direita de Bibi. O problema, para ele, é que a soma de assentos possíveis para sua coligação nesse setor não passa de 43, enquanto as melhores projeções para Bibi chegam a 55. Como ambos precisam somar 61 para levar, nada se resolve.

     

    A saída para ambos seria, teoricamente, somar os votos que pertencem ao bloco dos partidos árabes israelenses, mas esse setor, que emergiu desta eleição como a terceira força, com 13 assentos, já declarou que ficará na oposição, seja qual for o governo.

     

    Quem é quem

    Binyamin ‘Bibi’ Netanyahu

    Bibi é o premiê mais longevo de Israel, tendo ocupado o cargo de 1996 a 1999 e de 2009 a 2019. Antes de ingressar na carreira política, teve uma carreira condecorada como capitão das forças especiais israelenses. Na vida civil, foi consultor de empresas privadas para assuntos econômicos e de segurança, até ingressar na vida política, em 1984, como representante de Israel na ONU. No espectro político local, está à direita direita.

    Benny Gantz

    Gantz é um general veterano, condecorado por participação em operações no Líbano e na Etiópia. Comandou as forças israelenses de 2011 a 2015, antes de ir para a reserva, quando começou a trabalhar com uma empresa privada de tecnologia militar. É formado em ciência política e ingressou na carreira política em 2018. É considerado um ator de centro-direita no espectro político israelense.

     

     

    A possibilidade de uma saída negociada

     

    Temendo que a incerteza se prolongue indefinidamente e que uma terceira eleição venha a ser convocada, Lieberman já fala na possibilidade de formar, com Bibi e Gantz, um governo de união nacional.

     

    Nesse modelo, os partidos acordariam desde o início se revezar na chefia de governo, garantindo uma maioria parlamentar estável em torno de projetos de consenso no Knesset. 

     

    Lieberman disse que estaria disposto a tomar parte de “um governo de unidade liberal abrangente” com Gantz e Bibi. A proposta pode ser conveniente para todos a esta altura, começando pelo atual premiê.

    Bibi tem imunidade, mas corre o risco de ser preso ao sair do governo. O procurador-geral de Israel, Avichai Mandelblit, disse em fevereiro que pretende indiciá-lo em três casos diferentes, envolvendo corrupção e fraudes fiscais.

    João Paulo Charleaux é repórter especial do Nexo e escreve de Paris.

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