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Como o muro de Donald Trump ameaça sítios arqueológicos

Construção na fronteira entre EUA e México, em andamento no estado do Arizona, preocupa profissionais da área e povos nativos

 

A construção de um muro na fronteira entre os Estados Unidos e o México foi uma das principais propostas da campanha eleitoral do presidente americano Donald Trump.

O político republicano defende a construção afirmando que o muro diminuiria a entrada de imigrantes ilegais ao país. Desde que assumiu a presidência, em 2017, a proposta é alvo de contestações dos opositores do partido Democrata, e gera debates e controvérsia não só nos Estados Unidos como no mundo.

Em agosto de 2019, uma parte do muro começou a ser construída, no estado do Arizona. Desde então, um outro aspecto foi adicionado à lista de questionamentos que a construção desperta. Especialistas alertam que as obras podem danificar ou destruir sítios arqueológicos importantes da região.

Os sítios ameaçados

Um relatório preparado pelo Serviço Nacional de Parques dos EUA e obtido pelo jornal The Washington Post levantou a possibilidade de que a construção do muro danifique ou destrua 22 sítios arqueológicos presentes no Monumento Nacional Organ Pipe Cactus, no sul do Arizona, na divisa com o estado mexicano de Sonora.

O monumento é o único local nos Estados Unidos onde o cacto tubo-de-órgão cresce de forma selvagem, e reúne sítios arqueológicos com reminiscências dos povos que ocuparam o deserto de Sonora por mais de 10 mil anos, desde a pré-história - 22 deles ainda não foram escavados, e são ameaçados pelas obras.

A região tem sido ponto de alto fluxo de imigrantes que saem do México em busca de auxílio humanitário nos EUA. Segundo o Washington Post, alguns sítios arqueológicos já foram danificados por conta das incursões das patrulhas da fronteira, que vasculham o parque com veículos pesados em busca de pessoas que cruzaram a cerca já existente no local.

As termas de Quitobaquito, ao sul do parque, são as mais ameaçadas pela construção do muro de Trump. A região era parte de uma rota usada por mais de 10 mil anos, por diferentes povos e com diferentes propósitos, da busca por água ao comércio de sal e pedras preciosas pelos espanhóis. Isso gerou uma abundância de vestígios arqueológicos.

Rick Martynec, arqueólogo que está organizando escavações voluntárias no parque, disse ao Washington Post que os danos a Quitobaquito são irreversíveis. Segundo Martynec, os sítios arqueológicos presentes no monumento incluem fazendas, moradias, cemitérios históricos e ferramentas usadas para caça.

Membros do povo nativo americano Tohono O’odham também se opõem à construção do muro na região. “Nós historicamente habitamos essa área, desde tempos imemoriais”, disse, ao Washington Post, Ned Norris Jr., porta-voz da tribo. “Nós sentimos que esse muro em particular vai macular essa área para sempre. Imagine construir um muro em cima dos túmulos dos seus pais. É a mesma coisa”, acrescentou.

Além dos sítios arqueológicos, as termas de Quitobaquito contam com uma grande biodiversidade, sendo o único local no mundo onde espécies como o peixe de Sonoyta e a tartaruga da lama de Sonoyta vivem na natureza.

Consultada pelo Washington Post, a patrulha da fronteira afirmou que, dos sítios arqueológicos presentes no monumento, apenas cinco se encontram em território americano e somente um deles contém vestígios de povos passados. Segundo os oficiais, não houve nenhum tipo de mudança nos planos de construção do muro por conta desses fatos.

A preocupação acerca do impacto da construção do muro nos sítios arqueológicos dos EUA não é nova. Em março de 2016, quando Trump ainda não tinha sido oficializado como o candidato republicano, Kristina Killgrove, doutora em antropologia pela Universidade da Carolina do Norte, publicou um artigo na revista Forbes apontando que, se concretizados em sua plenitude, os planos do muro poderiam danificar ou destruir pelo menos 126 sítios arqueológicos dos EUA.

A preocupação de arqueólogos sobre outras medidas

Em 22 de novembro de 2016, 14  dias após a eleição de Trump, o arqueólogo e antropólogo Bob Muckle, da Universidade Capilano, de Vancouver, no Canadá, publicou um artigo na revista da Associação Americana de Antropologia  em que afirmou temer que o governo do republicano enfraquecesse leis de proteção arqueológica, além de expressar a ideia de que a construção do muro danificaria ou destruiria sítios arqueológicos de todo o país.

Um ano depois, Trump anunciou que a área tombada do Monumento Nacional Bears Ears, no estado de Utah, diminuiria de 547 mil hectares para 82 mil hectares.

A área foi tombada em 2016, durante o último ano do governo de Barack Obama. De acordo com a revista Nature, a expectativa dos arqueólogos era de que a proteção ajudasse a entender os povos que viviam na região em tempos passados. Segundo a Nature, a decisão de Trump foi vista por pesquisadores como “o pior cenário possível”.

No ano seguinte, em 2018, o governo Trump colocou a leilão para empresas de gás e petróleo uma área de cerca de 165 mil km², também no estado de Utah, em uma região com centenas de sítios arqueológicos. A medida também foi criticada por profissionais de arqueologia.

“Eu não conheço outro lugar no mundo em que você pode sair e encontrar, em cinco km² de terra, 100 sítios arqueológicos”, disse ao site Reveal Jim Allison, professor de arqueologia na Universidade de Brigham. “Temos sítios demais, você poderia levar um batalhão de arqueólogos e ainda sim levaria décadas para mapear todos eles”, acrescentou.

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