Como é ter um algoritmo como chefe, segundo este estudo

Para pesquisadores, sistemas automáticos de plataformas como o Uber fazem as vezes de gestor. E geram resistência dos trabalhadores

 

O termo “gestão por algoritmos” vem sendo utilizado para se referir aos sistemas automáticos que empresas usam para administrar a força de trabalho ligada a elas.

Os maiores exemplos dessa tendência são companhias que têm como base plataformas tecnológicas, como o aplicativo de transporte Uber. Nele, o sistema movido por algoritmos diz aos motoristas, por exemplo, onde e quando pegar passageiros, qual rota tomar, e define automaticamente qual será sua remuneração.

O sistema do Uber é determinante para a rotina de trabalho de cerca de 3 milhões de motoristas que fazem uso da plataforma no mundo. Eles não são classificados como funcionários pela empresa, que se refere aos motoristas como empreendedores autônomos, que recebem um serviço prestado pelo Uber. O arranjo, que vem sendo contestado, poupa ao Uber gastos empregatícios.

A gestão por algoritmo no Uber

Um artigo publicado em agosto de 2019 na revista de divulgação científica Harvard Business Review aborda os pontos que os motoristas veem como positivos e negativos na gestão por algoritmos.

O texto é assinado pelos pesquisadores Mareike Möhlmann, da Universidade de Warwick, no Reino Unido, e por Lior Zalmanson, da Universidade de Nova York, e se baseia em uma pesquisa da dupla apresentada em 2017 na 30ª Conferência Internacional sobre Sistemas de Informações, na Coreia do Sul.

O trabalho se chama "Mãos no volante: Navegando a gestão por algoritmos e a autonomia dos motoristas do Uber" . Nele, a dupla escreve que novas técnicas têm contribuído para o desenvolvimento de algoritmos mais avançados, que assumem responsabilidades de gestão “realizando tarefas complexas que antes eram responsabilidades de média, ou mesmo alta, gerência”.

O trabalho avalia que é importante estudar as relações dos trabalhadores com algoritmos, porque “as práticas de gestão por algoritmo são frequentemente aplicadas no contexto do trabalho freelancer ou do ‘quase-emprego’ em plataformas digitais”.

Nesse contexto, os pesquisadores tentam responder à pergunta: “Quais tensões surgem entre trabalhadores autônomos e sistemas de gestão por algoritmos, e como os profissionais reagem a elas?”.

As informações foram obtidas com base em transcrições de entrevistas feitas com motoristas do Uber em Nova York e Londres e na análise de mais de mil conversas entre motoristas em fóruns online, além de postagens em blogs e da cobertura midiática da empresa.

A tensão entre motorista e plataforma

Um dos principais traços valorizados por motoristas que recorrem ao Uber é a autonomia que eles têm ao trabalhar na plataforma. Autonomia é definida pela pesquisa como “a habilidade de exercer controle ou liberdade sobre aspectos do trabalho, incluindo seu conteúdo e limites, localização, horários e padrões de performance”.

Mas os pesquisadores identificaram que há uma tensão gerada pela assimetria de poder entre a empresa e os motoristas. Isso porque, apesar de não serem exatamente funcionários, os motoristas acabam ligados às companhias em uma situação chamada pelo estudo de “quase emprego”, e as técnicas de gestão por algoritmos empregadas acabam reduzindo a sua autonomia.

Os algoritmos “aumentam a assimetria de poder em favor da plataforma, e criam um trabalhador que se sente controlado e microgerenciado”, escrevem os pesquisadores. Eles destacaram alguns problemas relatados pelos motoristas.

Vigilância constante

Segundo o artigo, se por um lado trabalhadores podem determinar quando e por quanto tempo querem trabalhar, por outro a gestão por algoritmos registra cada passo seu enquanto trabalham.

Ao logar no aplicativo do Uber, motoristas têm sua localização por GPS, velocidade, e o tempo que demoram para responder aos chamados de clientes registrados. Com base nisso, o algoritmo diz onde e como pegar os passageiros, e quais rotas tomar.

O desempenho do motorista e recompensas a que tem direito são decisões tomadas automaticamente. “Se os motoristas divergem das instruções dos aplicativos, eles podem ser penalizados ou mesmo banidos da plataforma”, escrevem Möhlmann e Henfridsson na Harvard Business Review. Por sua capacidade de determinar o comportamento dos indivíduos, algoritmos vêm sendo frequentemente descritos em pesquisas como mecanismos disciplinadores.

Möhlman e Zalmanson ressaltam que pesquisas anteriores apontam que excesso de vigilância, seja por pessoas ou por algoritmos, pode levar à queda da produtividade.

Outro aspecto da gestão por algoritmos é o fato de que motoristas do Uber não têm colegas, uma equipe ou uma comunidade de trabalhadores da qual participam. Eles frequentemente relataram se sentir solitários, isolados e desumanizados.

Esse sentimento é exacerbado quando os motoristas passam por problemas e tentam interagir com a empresa por meio do suporte por e-mail. “Os motoristas esperavam que o Uber fosse ajudá-los em tempos de necessidade, mas ficaram decepcionados quando isso tomava tempo e resultava em respostas automáticas por e-mail.”

Falta de transparência

Assim como acontece com os algoritmos de outras plataformas, como Facebook, Instagram ou Google, há relativamente pouca informação disponível sobre como os sistemas do Uber funcionam e qual lógica eles seguem. Os motoristas reportaram se sentir manipulados e frustrados com a falta de transparência.

Um exemplo é o sistema de compensação da empresa, que funciona de maneira opaca e complexa. Em 2017, a comissão recebida pelo Uber para cada corrida variava, no geral, de 20% a 25%. Os motoristas podem também receber pagamentos adicionais caso se desloquem a áreas com pico de demanda ou atinjam certas metas. Segundo o estudo, no entanto, esses benefícios são baseados em “acordos especiais individualizados”, estão sujeitos a mudanças semanais e nem sempre são oferecidos a todos os motoristas.

O Uber argumenta, por outro lado, que não pode revelar como seus algoritmos funcionam porque essa é uma informação comercial valiosa. Além disso, grande parte do desenvolvimento de algoritmos se dá de maneira relativamente autônoma, executada pelas próprias máquinas.

“Algoritmos baseados em big data [grandes conjuntos de dados] e estatísticas são, frequentemente, complexos demais para compreender e, como são de natureza adaptativa, também mudam com frequência”, diz o estudo.

A reação dos motoristas à gestão por algoritmos

Uma forma de “resistência” à gestão das plataformas identificada pela pesquisa é a participação em fóruns online. Nesses espaços, motoristas compartilham informações e teorias sobre como os sistemas funcionam e desenvolvem formas de “burlar” os algoritmos.

Na época do estudo, os motoristas se mostravam particularmente incomodados com o sistema do Uber Pool, em que diferentes clientes compartilham uma mesma corrida, porque avaliavam que o pagamento tendia a ser mais imprevisível.  Uma das práticas defendidas nos fóruns para fugir dessas corridas era aceitar um primeiro passageiro, e então deslogar do aplicativo.

Eles também buscavam formas de enganar o sistema. Uma teoria muito propagada é a de que os algoritmos remuneram melhor motoristas que passam algum tempo afastados da plataforma, uma forma de incentivá-los a voltar ao trabalho. Por isso, os motoristas frequentemente alternavam entre vários aplicativos, semanalmente.

Para os pesquisadores, as empresas poderiam se beneficiar de oferecer mais transparência aos usuários das plataformas.

“As empresas deveriam considerar formas de equilibrar suas necessidades com maior transparência para oferecer aos trabalhadores um maior senso de justiça e parceria. Empresas podem considerar apresentar um sistema de feedback detalhado e ilustrativo aos trabalhadores”

Pesquisa: ‘Mãos no volante: Navegando a gestão por algoritmos e a autonomia dos motoristas do Uber’

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