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Quem são os outsiders que podem governar a Tunísia

Oito anos após a Primavera Árabe, dois candidatos críticos do sistema político local tomam a dianteira na segunda eleição livre da história do país

     

    A Tunísia realizou neste domingo (16) o primeiro turno da eleição nacional que definirá quem será o próximo presidente do país pelos próximos cinco anos.

    O resultado do primeiro turno surpreendeu. Dois candidatos considerados “outsiders”, fora do sistema político tradicional, devem passar de maneira inesperada para o segundo turno, que será disputado em 12 de dezembro.

    Com dois terços das urnas apuradas, nesta terça-feira (17), o primeiro colocado, com 19% dos votos, era o advogado constitucionalista conservador  Kais Saied. O segundo, com 15,5%, o magnata das comunicações Nabil Kaorui - atualmente preso. Ambos deixaram para trás outros 24 candidatos, alguns deles ex-ministros ligados a partidos fortes, que eram dados até então como favoritos.

    A ascensão de Saied e de Kaouri é significativa numa democracia que ainda dá seus primeiros passos. A Tunísia foi o epicentro da Primavera Árabe, em 2011. A partir dali, o movimento espalhou-se por outros países do Norte da África e do Oriente Médio, em protestos que pediam democracia.

    O primeiro presidente eleito da Tunísia após a Primavera Árabe foi Beji Caid Essebsi - um político influente e membro do mainstream desde a independência do país, em 1956. Ele tomou posse em dezembro de 2014, mas morreu no dia 25 de julho de 2019, aos 92 anos, a quatro meses de terminar o mandato. A morte de Essebsi levou o país a antecipar a eleição, realizada neste domingo (16).

     

    Todo esse processo é um teste de estresse para a sociedade tunisiana e para suas jovens instituições. Quando o presidente Essebsi morreu, o país ainda não havia formado inteiramente sua Suprema Corte, e havia dúvida sobre se a primeira transição democrática de sua história seria exitosa.

     

    Com o triunfo de dois candidatos inesperados, será possível ver nos três longos meses de campanha até o segundo turno como os setores políticos e religiosos tradicionais responderão à emergência de novas forças.

     

    O líder conservador: Saied ‘Robocop’

     

    O campeão de votos, Kais Saied é um constitucionalista de 61 anos que, por seu jeito sério e rígido, foi apelidado pelos jovens tunisianos de “Robocop”.

     

    O que o define como um “outsider” é o fato de ele não pertencer às elites políticas que ascenderam ao poder logo após a Primavera Árabe. Há oito anos, Saied fez-se conhecido por sua participação em programas de televisão no qual analisava, à convite da imprensa local, aspectos da grande reforma política e constitucional que o país então vivia.

     

    Nesta eleição, ele concorreu como candidato independente. A taxa obrigatória para realizar sua inscrição na disputa foi paga por familiares próximos, e ele preferiu comandar a própria campanha de casa, em vez de estabelecer um escritório eleitoral.

     

    Sobre suas ideias, Saied é um conservador convicto, que encerra em si muitos paradoxos. Embora não defenda a paridade salarial entre homens e mulheres, ele tem mais apoio no setor feminino que seu adversário direto - 22% delas dizem apoiar Saied, enquanto 20% dizem apoiar Karoui.

     

    O sexagenário também entusiasma os jovens, sobretudo ex-alunos, que se empenharam em angariar votos para um professor aposentado que vê a homossexualidade como um atentado ao pudor, defende a pena de morte (suspensa em 1991 na Tunísia) e prega o fim da eleição direta para membros do parlamento nacional. Saied propõe que os membros do Congresso sejam indicados pelos ocupantes de cadeiras nos parlamentos locais (eles, sim, eleitos pelo voto direto), num modelo descentralizado de democracia representativa indireta.

     

    Descrito na imprensa como um “idealista”, um “populista” e como um “cometa político” que “ignora as receitas clássicas da campanha eleitoral”, Saied encarnou um tipo por vezes excêntrico, que fala árabe clássico em vez de árabe tunisiano, e que recusou o fundo público de campanha ao qual tinha direito.

     

    O desafiante Kaorui, na cadeia

     

    O fato mais inusitado sobre o segundo colocado, Nabil Kaorui, é que ele está preso desde o fim de agosto e conduziu a reta final de sua campanha sem dar as caras, representado em muitos eventos por sua mulher, Salwa Smaoui, e por assessores próximos.

     

    Karoui, de 56 anos, nasceu numa família de classe média, mas tornou-se um dos homens mais ricos da Tunísia, fazendo negócios com marketing e canais de televisão. Em 23 de agosto, foi preso provisoriamente por evasão de divisas e lavagem de dinheiro, e há dúvidas sobre se poderá ou não participar do segundo turno. Ele diz ser um “prisioneiro político”.

     

    Embora seja membro da elite econômica tunisiana, o candidato construiu sua carreira como candidato oscilando entre alianças de interesse e confrontos abertos com o establishment político do país.

     

    O partido pelo qual ele concorre, chamado Ao Coração da Tunísia, não tem contornos ideológicos claros, e faz da promessa da “paz social” sua maior bandeira, apelando para o perfil de filantropo que seu líder construiu por meio de ações de caridade.  

     

    O sucesso Kaorui não seria possível sem as concessões feitas ao regime do general Zine El Abdine Ben Al, que governou a Tunísia por 24 anos até a Primavera Árabe. Foi graças a Ali que Karoui conseguiu uma concessão de TV em 2007, antes da volta à democracia.

     

    Foi através desse mesmo canal, a Nessma TV, que Karoui enfrentou os radicais religiosos ao exibir, em 2011, o desenho Persepolis, adaptação de uma história em quadrinhos da iraniana Marjane Satrapi, no qual Alá aparece representado como figura humana. A veiculação do programa levou militantes islâmicos a ameaçarem os executivos do canal de morte.

     

    A ousadia deu ao empresário Karoui a aura de defensor da liberdade de expressão numa Tunísia que recém começava a se abrir após mais de duas décadas de ditadura, da qual ele mesmo havia recebido benefícios no passado.

     

    Cenário incerto até dezembro

     

    A eleição presidencial na Tunísia é apresentada pelo governo como mais um passo importante na consolidação de uma democracia ainda jovem. Entretanto, há dúvidas sobre o êxito desse processo.

     

    O índice de comparecimento nesta eleição presidencial foi de 45%, de acordo com dados da apuração parcial, disponíveis nesta terça-feira (17). Na eleição anterior, realizada em 2014, o comparecimento havia sido muito maior, de 64%. O voto não é obrigatório no país.

    Além disso, os avanços nos direitos políticos não vieram acompanhados de avanços econômicos, e muitos tunisianos mostram insatisfação com uma transição cujos frutos são incompletos.

    João Paulo Charleaux é repórter especial do Nexo e escreve de Paris

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