Quem é o desenvolvedor de games comparado a David Lynch

Hideo Kojima é conhecido por seus jogos autorais, com elementos do cinema e tramas que podem ser complexas, confusas e até mesmo estranhas

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    Em 8 de novembro de 2019, o estúdio Kojima Productions lança, exclusivamente para o PlayStation 4, o jogo “Death stranding”. O game traz rostos conhecidos de Hollywood, como os dos atores Norman Reedus (de “The walking dead”) e Mads Mikkelsen (de “Hannibal”) e do diretor Guillermo del Toro (de “A forma da água”). E promete ser diferente de tudo que já foi feito na indústria até aqui.

     

    “Death stranding” é assinado pelo desenvolvedor japonês Hideo Kojima. No Twitter, Kojima disse que não é possível rotular o jogo em nenhum dos gêneros já existentes nos games, e que ele inaugura um caminho totalmente novo.

    “Death stranding não é um jogo stealth [gênero no qual os jogadores devem cumprir seus objetivos de maneira furtiva e estratégica]. Apesar disso depender da subjetividade, também não é um jogo de tiro”, disse Kojima. “Ao incorporar a ação à ideia de uma teia, temos um gênero totalmente novo, chamado jogo de ação/jogo de teia (sistema de teia social)”, acrescentou.

    Apesar de não dar detalhes do que seria a tal teia presente no game, Kojima, em entrevista à revista americana The Hollywood Reporter, disse que ela, e o game em si, têm como objetivo “conectar o mundo”. O conceito é apresentado no próprio trailer de “Death stranding”, quando uma das personagens diz que o mundo vai acabar se as pessoas não se unirem.

    O game se passa nos Estados Unidos de um futuro apocalíptico, no qual boa parte da civilização foi dizimada pelos “BTs”, monstros invisíveis que vieram “do outro lado”. Cabe ao protagonista Sam (Reedus) encontrar uma forma de restabelecer o mundo como era antes dos ataques.

    A trajetória de Hideo Kojima

    Kojima nasceu na cidade de Tóquio em 1963. Em entrevista ao jornal britânico The Guardian em 2012, o desenvolvedor revelou que seu sonho de criança era ser cineasta ou escritor.  Porém, ele acabou estudando economia, visando conseguir um emprego que garantisse estabilidade para sua família.

    Durante o curso, Kojima teve seu primeiro contato mais intenso com os games. No quarto ano de curso, decidiu que entraria para a indústria, o que aconteceu em 1986, quando ele conseguiu um emprego na divisão de jogos de computador da desenvolvedora Konami.

    Naquele mesmo ano, Kojima começou a trabalhar em “Metal gear”. O desejo da Konami era de que o título fosse um jogo de ação, mas o desenvolvedor tinha outros planos: ele queria fazer um game furtivo, fazendo com que o jogador traçasse estratégias para chegar aos objetivos sem ser percebido, algo inédito à época.

    O jogo foi lançado em 1987, e inaugurou uma franquia que teve nove títulos na série principal e 11 derivados, que ampliam o universo criado pelo desenvolvedor.

    A trama de “Metal gear” gira em torno de Solid Snake, um agente da unidade de forças especiais Foxhound, que precisa se infiltrar na base inimiga para destruir um robô que pode atirar mísseis nucleares em qualquer lugar do mundo.  Em “Metal gear solid”, Kojima passa a criar uma trama cada vez mais complexa e até mesmo estranha, em jogos completamente autorais e com elementos estéticos vindos diretamente do cinema.

    Essas características fizeram com que todos os games do desenvolvedor japonês viessem acompanhados da frase “Um jogo de Hideo Kojima” em suas embalagens e créditos iniciais.

    A parceria entre o desenvolvedor e a Konami durou até 2015. Naquele ano, Kojima estava trabalhando em “Metal gear solid 5: The phantom pain” e em uma parceria com o cineasta Guillermo del Toro para o desenvolvimento do game de terror “Silent hills”.

    Por conta de uma série de tensões envolvendo os projetos, Kojima decidiu sair da Konami. Após o término, o desenvolvedor anunciou a criação de seu próprio estúdio, o Kojima Productions. O primeiro jogo da empresa, “Death stranding”, foi anunciado em 2016.

    Hideo Kojima, o David Lynch dos games?

    David Lynch é um cineasta americano que ficou conhecido a partir do final dos anos 70. Algumas das características de Lynch são personagens e imagens carregadas de simbolismos, situações aparentemente confusas e elementos estéticos que podem ser considerados estranhos.

    Kojima é fã assumido de Lynch, ao ponto de fazer com que a equipe de desenvolvimento de “Death stranding” assistisse à terceira temporada do seriado “Twin peaks”, produzida pelo cineasta em 2017, disponível na Netflix. A visão autoral de Kojima para seus games fez com que ele fosse comparado ao diretor.

    Assim como Lynch, Kojima confunde propositalmente os jogadores. A embalagem de “Metal gear solid 2” trazia o personagem Solid Snake na capa, porém, ele não era o protagonista do game, dando lugar ao agente Raiden, subvertendo a expectativa que o público tinha em voltar a acompanhar Snake.

    “Death stranding” também teve em sua campanha de divulgação vários elementos feitos para intrigar e confundir os jogadores, como o bebê que acompanha Sam na jornada, algo que gerou diversas teorias dentro da comunidade.

    Além de apostar em mecânicas diferentes das habituais, Kojima também dá a “Death stranding” uma estética estranha. Um dos principais elementos visuais bizarros do jogo é a presença de um feto em desenvolvimento que é carregado em uma espécie de aquário para todos os lados por Sam, usado para detectar os BTs.

    Segundo o site especializado em cinema No Film School, o cinema de Lynch é caracterizado por uma realidade “fácil de se reconhecer, mas difícil de se definir”. Na divulgação de “Death stranding”, Kojima apostou nisso ao trazer um cenário familiar em uma situação críptica que só será esclarecida com o lançamento do jogo.

    De acordo com Bruna Penilhas, jornalista e editora-assistente do site especializado em games IGN Brasil, a comparação é justa, mas ainda não foi consolidada. “O Kojima ainda não teve todo seu potencial aproveitado, ele ainda não conseguiu mostrar por que ele pode ser o David Lynch dos games”, disse ao Nexo.

    “Quando ele trabalhava na Konami, ele fez muitas coisas marcantes com ‘Metal gear’, só que ele não tinha tanta liberdade criativa assim. E o Kojima é super criativo, ele sempre quer se reinventar, desde o começo ele sempre teve um pé muito forte na linguagem cinematográfica, algo que virou a assinatura dele. Ele dirige, produz, faz muita coisa. Só que ele ainda não teve a oportunidade de explorar todas essas ideias malucas que ninguém faz”, afirmou.

    Para a jornalista, as comparações com Lynch se intensificaram após o anúncio de “Death stranding”, que teve um primeiro teaser misterioso, que mostrava Sam abraçado com o bebê em uma praia, elementos que, até então não tinham um significado muito claro, levantando questões e dúvidas dentro da comunidade gamer.

    Penilhas avalia que “Death stranding” e os futuros jogos da Kojima Productions darão ao desenvolvedor a possibilidade de explorar todas as suas ideias e elementos simbólicos em sua plenitude.

    Para Bruno Silva, jornalista e editor-chefe do site especializado em games The Enemy, a comparação de Kojima com Lynch surgiu junto com o próprio reconhecimento do trabalho autoral dentro da indústria de games, algo que não acontecia até a segunda metade dos anos 90, período em que “Metal gear solid” se tornou sucesso global.

    “O período em que isso começa a mudar coincide com a ascensão de Hideo Kojima ao estrelato, no lançamento do primeiro ‘Metal gear solid’, que também se beneficiou de ter saído no console mais popular da época [o primeiro PlayStation]”, afirmou Silva ao Nexo.

    Mesmo sendo comparado a Lynch, o rótulo de gênio e vanguardista dado a Kojima muitas vezes é controverso dentro da própria comunidade gamer, com alguns jogadores dizendo que ele é apenas um egomaníaco supervalorizado. Apesar das críticas, Penilhas avalia que Kojima é sim um gênio na indústria.

    “Ele criou ‘Metal gear’, mas ele ainda não tem muitos projetos além disso. A galera fica ofendida quando chamam ele de gênio por termos vários nomes que estão desenvolvendo games há mais tempo, mas é possível ter mais de um gênio na indústria de games, e acho que o Kojima é um deles. Ele criou o gênero stealth nos games com ‘Metal gear’, não se tinha esse tipo de jogabilidade antes”, afirmou Penilhas.

    Silva também enxerga Kojima como um gênio. “Eu acredito que Kojima seja, sim, um gênio dentro de seu meio, no sentido mais básico da palavra: o de uma pessoa com talento excepcional. Ele tem, há mais de duas décadas, provado isso não somente com seus jogos, mas ao entender a cultura que os cerca”, disse.

    De acordo com Silva, Kojima se destaca entre os desenvolvedores de games por ser uma voz dissonante entre as práticas padrão da indústria. “A indústria de games age, muitas vezes, de forma rígida, do momento em que o jogo é anunciado até sua chegada às lojas. Controla-se cuidadosamente a mensagem de modo a manter a expectativa do consumidor em alta”, afirmou.

    “O fato de Kojima conseguir subverter esses métodos para passar a sua própria mensagem, agindo dentro do mainstream, é excepcionalmente notável. O primeiro ‘Metal gear solid’ era um jogo em que o objetivo principal era evitar o conflito, enquanto os demais jogos de guerra buscavam o conflito”, acrescentou o jornalista.

    “Acredito que essa habilidade em confundir e explicar através de um meio tão interativo como o videogame é o que faz seu trabalho se destacar tanto”, avaliou Silva.

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