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Por que o PSL de Bolsonaro rompeu com Wilson Witzel

Deputados estaduais do partido deixam base aliada do governador do Rio de Janeiro, que se elegeu em 2018 na onda de popularidade do atual presidente

     

    O PSL deixou oficialmente na segunda-feira (16) a base de apoio ao governador do Rio de Janeiro, Wilson Witzel, do PSC. O partido do presidente Jair Bolsonaro tem a maior bancada na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, com 12 dos 70 deputados estaduais, e vinha apoiando as medidas e projetos do governo do estado.

    Assim, os deputados estaduais do PSL deixam cargos que ocupam na gestão Witzel, incluindo duas secretarias, e o posto de vice-liderança do governo na Assembleia. A saída pode atrapalhar a aprovação de projetos encampados pelo governo estadual.

    Em comunicado oficial na segunda (16), a bancada do PSL disse que a ruptura se deu por “posicionamentos políticos” do governador, sem entrar em detalhes, e por orientação do senador Flávio Bolsonaro, presidente estadual do PSL no Rio de Janeiro.

    A principal insatisfação da bancada parte do fato de o governador ter, em várias ocasiões, declarado o desejo de se tornar presidente da República e feito críticas públicas a Jair Bolsonaro.

    Segundo informações de bastidores do jornal Extra, a decisão de ruptura partiu do próprio presidente da República, que repassou ao filho Flávio a responsabilidade de conduzir o rompimento. Bolsonaro nega ter dado uma ordem nesse sentido.

    Outros desentendimentos entre Witzel e a bancada estadual do PSL em 2019 foram discordâncias na distribuição de cargos no governo e planos distintos para as eleições municipais de 2020.

    Como Witzel se tornou governador

    Witzel estreou na política em 2018, quando se filiou a um partido e pela primeira vez disputou uma eleição. Por 17 anos ele foi juiz federal, carreira que teve que abandonar por conta dos planos eleitorais. Antes de atuar no direito, foi fuzileiro naval da Marinha.

    Pouco conhecido do eleitorado em 2018, a menos de duas semanas do primeiro turno Witzel aparecia nas pesquisas de intenção de voto com cerca de 5%, com cinco adversários numericamente à frente na disputa.

    Na reta final, Witzel se associou diretamente a Bolsonaro, declarando voto no então candidato presidencial do PSL. Conseguiu uma virada surpreendente, registrando 41% dos votos no primeiro turno. Depois, derrotou Eduardo Paes (DEM) no segundo.

    Em 2018 Witzel usou o discurso de ser novidade e vir de fora da política, com uma carreira de combate ao crime na magistratura e planos linha dura para a segurança pública e contra a corrupção. Foi uma plataforma similar à de Bolsonaro.

    Bolsonaro não indicou preferência e se disse neutro na disputa fluminense em 2018. Já Flávio, mais votado para o Senado no Rio de Janeiro, apoiou diretamente a campanha de Witzel. Agora, Flávio rompe com o governador que ajudou a eleger, o que deve dificultar o dia a dia do governo Witzel.

    As marcas do governo Witzel

    Witzel tem se notabilizado pela linha dura na área de segurança pública. Defensor de que policiais atirem para matar e do endurecimento de leis penais, ele vem apoiando a conduta de policiais no combate ao que chama de “narcoterroristas”.

    O número de mortos por ações policiais cresceu no estado do Rio de Janeiro em 2019, para o patamar mais alto em mais de duas décadas. O índice de demais assassinatos caiu — uma tendência registrada no Brasil como um todo desde 2018.

    O governador já apareceu vestido com trajes de policial e dando tiro de sniper, fazendo flexões com um batalhão e a bordo de um helicóptero do qual um policial dispara tiros na cidade de Angra dos Reis.

    Em agosto de 2019, logo após um atirador de elite matar o sequestrador de um ônibus na ponte Rio-Niterói, Witzel chegou ao local de helicóptero e desembarcou comemorando, com sorriso e gestos de satisfação.

    No mesmo mês, o governador afirmou que os assassinatos de inocentes no Rio de Janeiro são responsabilidade de defensores de direitos humanos, pelo fato de estes questionarem a política de policiais atirarem para matar. A fala foi duramente criticada por várias entidades, inclusive a OAB (Ordem dos Advogados do Brasil).

    A tentativa de se distanciar do atual presidente

    Em várias oportunidades, Witzel disse publicamente ter a vontade e o preparo para se eleger presidente em 2022.

    Com medidas e projetos semelhantes na segurança pública e apoio do eleitorado conservador de direita, Witzel tenta se diferenciar de Bolsonaro para conquistar votos dos brasileiros que apoiam ou já apoiaram o presidente.

    Witzel afirmou que Bolsonaro “anima as redes”, mas que o Brasil “não sai do lugar”. Criticou o modo como o presidente se refere à ditadura militar, dizendo que cabe aos professores decidir como ensinar o período nas escolas, sem interferência governamental, e que houve violência também de agentes estatais, não só de militantes contrários.

    Segundo o governador, o golpe de 1964 “foi o melhor para o Brasil” naquele contexto.

    Em julho de 2019, Bolsonaro se envolveu em uma polêmica ao dizer que sabia como havia morrido Fernando Santa Cruz, militante de esquerda desaparecido durante a ditadura e pai do atual presidente nacional da OAB, Felipe Santa Cruz, e insinuar, sem provas, que Santa Cruz havia sido morto por um grupo de esquerda. Witzel criticou o presidente, dizendo que a Lei da Anistia havia deixado os crimes no passado e que os mortos de ambos os lados deveriam “descansar em paz”.

    No início de setembro de 2019, o vereador do Rio de Janeiro Carlos Bolsonaro, filho do presidente, publicou no Twitter que uma transformação rápida do Brasil é inviável por vias democráticas. Carlos é do PSC, mesmo partido de Witzel.

    O governador disse então que uma declaração assim vinda de um político era “inadmissível” e que o melhor sistema é o democrático.

    Witzel no Rio, Doria em São Paulo

    O caso de Witzel tem semelhanças com o de João Doria (PSDB), governador de São Paulo. Os dois governadores já trocaram críticas entre si.

    Doria é visto no meio político como pré-candidato presidencial e também teria de disputar os votos do eleitorado à direita e conservador. Ele se colou à imagem de Bolsonaro na campanha de 2018, mas agora busca se diferenciar do presidente em algumas áreas.

    Entre agosto e setembro de 2019, Bolsonaro afirmou que Doria não tem chance de vencer em 2022 pois não tem apoio popular. O presidente também disse que o tucano “mamou” nos governos petistas ao financiar a compra de um jatinho particular a juros subsidiados do BNDES (Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social).

    Ao contrário de Witzel, porém, Doria tem evitado mencionar claramente a disputa eleitoral de 2022, afirmando que no momento atual não deve ainda falar em campanha, e sim em governar São Paulo.

     

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