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O projeto que retrata as diferentes caras do trabalho pelo mundo

Projeto artístico em vídeo investiga atividades formais e informais, remuneradas ou não, que moldam o cotidiano de diferentes cidades e países

 

Desde 2011, o projeto “Labour in a single shot” produz vídeos que investigam o tema do trabalho em diferentes partes do mundo.

Idealizado pelos artistas Antje Ehmann e Harun Farocki (1944-2014), o projeto deu origem a um “catálogo” online, no qual todos os quase 500 vídeos gerados até o momento estão disponíveis para serem vistos

Eles foram produzidos em workshops organizados pelos artistas em diversas cidades do mundo, como Bangalore (Índia), Hanói (Vietnã) e Lisboa (Portugal), e reúnem imagens de atividades formais e informais, praticadas com ou sem remuneração. Após a morte de Farocki, a artista e curadora alemã Antje Ehmann vem dando continuidade ao projeto.

Com um a dois minutos de duração e filmados em um único plano e sem cortes, os vídeos têm efeito quase hipnótico. É possível assistir ao trabalho de operários em uma fábrica de balões em Buenos Aires, na Argentina, de um escultor nas ruas de Hangzhou, na China, ou de um pedreiro no Rio de Janeiro, entre centenas de outros.

 
 
 

Uma parte desses vídeos também integra a exposição “Harun Farocki: quem é responsável?”, inaugurada pelo Instituto Moreira Salles de São Paulo nesta terça-feira (17).

Entre filmes e videoinstalações, as obras selecionadas pela curadoria de Antje Ehmann e Heloisa Espada evidenciam o olhar de Farocki sobre o mundo do trabalho. Elas refletem sobre questões como exploração, alienação, repetição e a maneira como os meios de produção e as tecnologias moldam as relações, a organização social e os modos de vida. A exposição fica em cartaz em São Paulo até 5 de janeiro de 2020.

“Em cada cidade, vemos todo tipo de trabalho sendo feito todos os dias: sapateiros, cozinheiros, garçons, limpadores de janelas, enfermeiras, tatuadores e lixeiros. Mas a maior parte das atividades profissionais acontece a portas fechadas. Frequentemente, o trabalho não só é invisível como inimaginável. É fundamental, portanto, realizar investigações (…) Onde se vê quais tipos de trabalho? O que está escondido? O que acontece no centro da cidade e o que acontece na periferia? O que é característico e o que é incomum com relação a cada cidade?”

Texto no site do projeto ‘Labour in a single shot’

Quem foi Harun Farocki

Nascido em uma cidade hoje chamada Nový Jičín, pertencente à República Tcheca, Farocki passou parte da infância na Índia e na Indonésia, até sua família se estabelecer em Hamburgo, na Alemanha, no fim da década de 1950. Entre 1966 e 1968, estudou na DFFB, a Academia alemã de cinema e televisão em Berlim. Morreu em 2014, aos 70 anos.

Artista e cineasta, Farocki tem em seu currículo mais de cem filmes e vídeos que compõem uma obra politizada e dedicada a investigar, de forma geral, a produção e circulação de imagens na contemporaneidade e o papel das formas de representação nos sistemas de poder. Segundo as curadoras da exposição do IMS, Antje Ehmann e Heloisa Espada, isso torna sua obra “espantosamente atual”.

Influenciado pelas discussões políticas do final da década de 1960, que tiveram como pano de fundo a Guerra do Vietnã e os protestos estudantis, ele se voltou à produção de um cinema ativista e, a partir da década de 1990, expandiu-a para o campo da videoinstalação, produzindo obras que estão entre o documental e o ensaístico.

As dinâmicas do mundo do trabalho e suas consequências para as sociedades estiveram entre as preocupações centrais do artista ao longo de quase meio século. Para Ehmann e Espada, suas obras sobre o tema “revelam um extremo respeito por todos os meios de sobrevivência, ao mesmo tempo que denunciam a dimensão absurda dos gestos mecanizados e da exploração”.

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