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O deputado negacionista que comanda a comissão do clima

Chefe de colegiado que lida com aquecimento global e Amazônia no Congresso, Zequinha Marinho questiona o consenso científico sobre impacto humano no aumento das emissões de gases do efeito estufa

     

     

    O senador Zequinha Marinho (PSC-PA) foi eleito presidente da Comissão Mista de Mudanças Climáticas, instalada pelo Congresso Nacional no dia 28 de agosto diante da crise internacional sobre o aumento das queimadas no país. Na mesma data, em entrevista à TV Senado, contrariando evidências científicas sobre o assunto, o parlamentar afirmou que a influência humana no clima global é muito pequena.

     

    Marinho assumiu a presidência do colegiado após uma manobra do governo de Jair Bolsonaro, segundo reportagem da BBC Brasil. Inicialmente, o posto seria ocupado pelo senador Alessandro Vieira (Cidadania-SE), que tinha o apoio do presidente da Casa, Davi Alcolumbre (DEM-AP). O nome chegou a ser divulgado na página oficial do Senado.

     

    Vieira afirmou à BBC Brasil que horas antes da instalação da comissão, houve troca de integrantes e com isso o nome de o senador do Pará saiu vitorioso em um processo de eleição que até então, segundo ele, não era esperado. Marinho negou acordo com o governo e disse que foi escolhido para o posto por ser da região amazônica. O parlamentar tem demonstrado alinhamento com o discurso bolsonarista sobre o clima.

     

    Quem é Zequinha Marinho

    Estreante no Senado, Zequinha Marinho começou a carreira política em Conceição do Araguaia, no Sul do Pará. Em 1997, foi eleito deputado estadual, cargo para o qual viria a ser reeleito. Depois, foi deputado federal. Renunciou faltando um ano para completar o terceiro mandato para assumir, em janeiro de 2015, o cargo de vice-governador na chapa de Simão Jatene (PSDB). Evangélico da Igreja Assembleia de Deus com formação em pedagogia, teologia e pós-graduação em administração pública, o parlamentar é integrante da bancada evangélica.

     

    Em 2011, na Comissão de Finanças e Tributação, Marinho emitiu parecer contrário a um projeto de lei de autoria do deputado Weliton Prado (PT-MG) que criava uma política de apoio a projetos que gerassem crédito de carbono, que é uma compensação a empresas que reduzam a produção de gases causadores do efeito estufa. O relatório de Marinho foi aprovado e o projeto acabou arquivado.

     

    No executivo do Pará, a chapa Jatene e Marinho foi cassada por decisão do Tribunal Regional Eleitoral sob a acusação de compra de votos no período da campanha, em 2014. Ambos, porém, recorreram da decisão e permaneceram no cargo.

     

    Já em 2018, Jatene desejava se candidatar ao Senado, mas afirmou que só renunciaria ao mandato se o vice fizesse o mesmo, pois o presidente da Assembleia Legislativa, Márcio Miranda (DEM), seria o único com condições de dar continuidade a seu governo.

     

    Marinho não aceitou a proposta e, em março daquele ano, ao divulgar a pré-candidatura ao Senado, disse em nota que não iria colaborar com o projeto do governador e permaneceria no posto. Jatene acabou permanecendo no cargo, sem se candidatar, e viu o vice fazer campanha para o Senado associado a seu rival político, Helder Barbalho (MDB).

     

    A comissão do clima e a posição do senador

     

    A primeira comissão para debater a questão climática no Congresso foi instalada em 2007, ainda provisória. Ela se tornou permanente a partir de uma resolução aprovada em dezembro de 2008. A finalidade dessas comissões é fazer deliberações dentro de um determinado tema. Para isso, podem realizar audiências públicas, convocar ministros de Estado, receber representações e determinar auditorias.

     

    O plano de trabalho da comissão em 2019 destaca dados do 5º Relatório do  IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas) da Organização das Nações Unidas que afirma que o aquecimento climático é “inequívoco” e que muitas das mudanças observadas desde os anos 1950 “não têm precedentes em décadas ou milênios”.

     

    As reações diante do tema manifestadas pelo presidente do colegiado não condizem com o que está no papel. Em entrevista à TV Senado, Marinho disse que há muita coisa “folclórica” sobre o aquecimento global e que a questão climática é cíclica.

     

    O senador defendeu que políticas voltadas para os habitantes da região amazônica recebam mais atenção do poder público do que a floresta, uma vez que sem o combate à desigualdade local não será possível frear o desmate. Durante a instalação da comissão, ele disse que a Amazônia não deve ser vista apenas como um “santuário”, mas como uma região com mais de 20 milhões de habitantes.

     

    Como medidas para enfrentar a questão, ele defende a regularização fundiária, ponto em comum com a política defendida pelo governo Bolsonaro, e uma linha de financiamento especial, que permita a pequenos agricultores possam comprar tratores, evitando as queimadas para preparação do solo.

     

    O senador disse ainda que tem como objetivo afastar o pavor daqueles que pensam que o microclima de uma cidade pode se transformar em uma crise global e afirmou que no Brasil as políticas sobre a questão sempre foram feitas do ponto de vista das ONGs, que levavam visão político ideológica para dentro do governo.

     

    De acordo com reportagem do jornal Folha de S.Paulo, em uma audiência pública organizada no dia 9 de setembro pelo ruralista e secretário de Assuntos Fundiários do Ministério da Agricultura, Nabhan Garcia, na cidade de Altamira, no Pará, Marinho declarou que a maioria dos fiscais do Ibama é de “esquerdistas que odeiam” Bolsonaro e disse que muitos paraenses estavam sendo “humilhados” em seu próprio estado.

     

    Entre as ações previstas pela comissão estão visitas às áreas da floresta Amazônica afetadas por queimadas, participação na COP-25 (Conferência das Nações Unidas sobre mudanças climáticas), que será realizada no Chile, e na Cúpula de Ação Climática, em Nova York, além de audiências públicas sobre o tema em Brasília.

     

    À BBC Brasil o senador Marinho afirmou que pretende convidar para uma das audiências o meteorologista e professor da Universidade Federal de Alagoas, Luiz Carlos Molion, que nega a existência de mudanças climáticas.

     

    O que diz a ciência sobre a crise climática

    CAUSAS

    A mudança climática começa com atividades como a queima de combustíveis fósseis, a agropecuária, o descarte de lixo e o desmatamento, que emitem grande quantidade de gases que acarretam no efeito estufa, fenômeno que torna o planeta mais quente. Entre as emissões de gases, destacam-se as de metano, óxido nitroso e gás carbônico (CO₂), que representa mais de 70% dos lançamentos. São poluidores os setores de energia, transportes e alimentos, entre outros.

    EFEITOS

    A emissão de gases poluentes formadores do efeito estufa pelas atividades humanas, intensificadas após a era industrial, tem causado o fenômeno que se chama de aquecimento global. Suas consequências mais visíveis têm sido o aumento das temperaturas do ar e da água, o derretimento de calotas polares e a elevação do nível de mares e oceanos. A expressão “mudança climática” é um sinônimo abrangente de aquecimento global, que engloba outras reações do clima à poluição.

    1ºC

    foi quanto a temperatura média do planeta aumentou em relação ao período pré-industrial, antes do século 19

    PREVISÕES

    Em 2018, um relatório do IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas) da Organização das Nações Unidas afirmou que a temperatura média mundial pode aumentar 0,5º C em uma década se as emissões de CO₂ não sofrerem cortes imediatos. Se isso não ocorrer, o evento pode piorar o quadro de grandes tempestades, incêndios florestais, secas e enchentes que têm se intensificado, diz o texto.

     

     

     

    Os negacionistas do governo Bolsonaro

     

    O ceticismo sobre as evidências científicas manifestado pelo presidente da Comissão é o mesmo demonstrado por ministros do governo de Jair Bolsonaro. O ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, viajará a Washington para participar na quinta-feira (19) do encontro do Competitive Enterprise Institute, uma organização não governamental com agenda anti-ambientalista presidida por Myron Ebell, que se descreve como inimigo número um da comunidade de mudanças climáticas.

     

    O encontro ocorre em meio ao desgaste da imagem do governo brasileiro no cenário internacional diante da crise gerada diante do aumento do desmatamento e das queimadas no país registrados pelo INPE, especialmente na floresta amazônica.

     

    A participação de Salles ocorrerá uma semana após o chanceler brasileiro, o ministro Ernesto Araújo fazer um discurso num evento da Heritage Foundation, também conservadora, na capital americana, em que fez críticas ao que chamou de “climatismo” as discussões sobre o tema, questionando o aquecimento global.

     

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