O que é a economia da ansiedade. E por que ela está crescendo

Livros de autoajuda, brinquedos e aplicativos feitos para melhorar o bem-estar mental do usuário ganham espaço no mundo todo

 

O número de pessoas que se consideram ansiosas no Brasil só aumenta. Em 1990, cerca de 7% da população do país se julgava ansiosa. Em 2015, esse número passou dos 9%. Nesse ínterim, uma nova forma de economia surgiu: a chamada economia da ansiedade, mercado crescente no mundo todo.

Um relatório publicado em abril de 2019 pela empresa americana de pesquisa J. Walter Thompson Intelligence define o termo como uma forma de negócio que lida com as sensações de ansiedade presentes na contemporaneidade. São aplicativos, livros, brinquedos e outros produtos feitos para que o consumidor se sinta mais calmo, menos ansioso e menos apreensivo em relação ao mundo que o cerca.

A economia da ansiedade em 5 casos

A economia da ansiedade pode se apresentar nos mais diversos setores, desde o mercado de aplicativos para smartphone até mesmo produções audiovisuais da indústria do entretenimento.

Em busca da calma e do bem-estar

Um dos principais ramos da economia da ansiedade, segundo o relatório, é o de produtos que visam ao bem-estar no ambiente de trabalho, um mercado que está avaliado em US$ 48 bilhões.

O aplicativo Your Wellspace é um dos principais nessa área. Ele permite que o usuário contabilize os passos dados diariamente, registre o seu estado de espírito e analise a qualidade de seu sono, em busca de um controle maior dos comportamentos diários, dando a possibilidade de se construírem hábitos mais saudáveis.

Há também aplicativos desenhados para que o usuário aprenda a meditar e fique mais calmo em suas tarefas diárias.

Em fevereiro de 2019, o Calm, o maior aplicativo de meditação do mundo, foi avaliado em US$ 1 bilhão. No app, o usuário pode aprender uma série de meditações ensinadas por meio de instruções em áudio. Ele também pode ouvir histórias de ninar narradas por celebridades como os atores Stephen Fry e Matthew McConaughey.

Aromaterapia: a calma alcançada por meio de óleos

A aromaterapia, uma terapia complementar que consiste no uso de óleos aromáticos para melhorar o bem-estar físico e mental do indivíduo, é outro setor grande dentro da economia da ansiedade. A técnica, que faz parte das práticas integrativas do SUS, promete ajudar no cansaço, no stress e até mesmo na depressão.

O mercado da aromaterapia está crescendo no mundo todo. Um estudo publicado em fevereiro de 2019 demonstrou que, em 2018, 226 mil toneladas de óleos aromáticos foram comercializadas ao redor do mundo, com projeções de que o número suba para 406 mil toneladas anuais até 2025.

A febre dos livros de colorir

Entre 2015 e 2016, os livros de colorir para adultos se tornaram uma febre no Brasil. O principal título do gênero foi o livro “Jardim secreto”, que vendeu cerca de 600 mil cópias nacionalmente.

Os livros eram vendidos sob a promessa de que o ato de colorir as páginas ajudaria no alívio da tensão, deixando seus usuários mais calmos.

O caso do fidget spinner

Em 2017, os fidget spinners, brinquedos desenhados especialmente para os inquietos e ansiosos, viraram uma febre mundial.

Entre janeiro e maio de 2017, no auge da moda, as vendas do fidget spinner ocupavam 17% das vendas diárias de brinquedos nos Estados Unidos. Segundo a Fox News, o mercado de fidget spinners chegou a ser avaliado em US$ 500 milhões naquele ano.

A economia da ansiedade e os cenários distópicos

Nem sempre a economia da ansiedade se manifesta com soluções para as inquietações do público, podendo também se apresentar por meio de obras que causam algum tipo de reflexão acerca do momento atual.

De acordo com a jornalista especializada em tecnologia Beatriz Guarezi, a economia da ansiedade está presente até mesmo na indústria do entretenimento. Em um texto publicado em sua página do Medium, Guarezi aponta séries como “Black mirror”, “The handmaid’s tale” e “Years and years” como manifestações da economia da ansiedade.

As três séries apresentam cenários distópicos com similaridades ao momento atual do mundo, gerando identificação nos espectadores e tornando-se ícones da cultura contemporânea.

Por que a economia da ansiedade está crescendo

De acordo com o relatório da JWT, o crescimento da economia da ansiedade está diretamente relacionado ao crescimento da própria ansiedade, que surge a partir de fatores como instabilidade financeira, problemas domésticos e a situação sociopolítica do mundo contemporâneo.

Segundo o texto, as pessoas estão buscando cada vez mais felicidade e fazem isso por meio de livros de autoajuda, aplicativos de meditação e de bem-estar e de um discurso positivo nas redes sociais.

Em entrevista ao site americano Vox, em setembro de 2018, Meredith Arthur, autora que escreve sobre saúde mental no site Beautiful Voyager, criticou o cenário da economia da ansiedade.

“Nós não estamos conseguindo lidar com a saúde mental. Em vez disso, jogamos produtos para essas pessoas. É algo muito americano”, disse Arthur.

Apesar das críticas, há benefícios em produtos da economia da ansiedade. Na mesma reportagem, a psiquiatra Anna Lembke, professora na Universidade de Stanford, apontou que brinquedos como o fidget spinner de fato podem acalmar, mesmo sem um entendimento claro de quais são os mecanismos para que isso aconteça.

“Esses brinquedos fazem com que coloquemos as nossas mãos em movimento, nos reconectando com nossos corpos, algo que possui um efeito calmante”, afirmou Lembke.

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