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O contexto e as consequência das fotos de Guaidó com criminosos

Líder opositor é questionado por posar para foto ao lado de membros de cartéis que agem na fronteira entre a Venezuela e a Colômbia

     

    O procurador-geral da Venezuela, Tarek William Saab, anunciou nesta sexta-feira (13) a abertura de uma investigação contra Juan Guaidó, principal adversário político do presidente Nicolás Maduro.

    Saab quer saber o que Guaidó fazia ao lado de dois “narcotraficantes e paramilitares” do cartel colombiano Los Rastrojos em duas fotos publicadas nas redes sociais na quinta-feira (12).

    Numa das fotos, Guaidó aparece ao lado de Jhon Jairo Durán Contreras, também conhecido pelos apelidos “El Costeño” e “El Menor”. Em outra, aparece com Albeiro Lobo Quintero, cujo apelido é “El Brother”. Os dois estão atualmente detidos na Colômbia por narcotráfico e contrabando.

    As imagens foram publicadas no Twitter por Wilfredo Cañizares, diretor de uma ONG colombiana de direitos humanos chamada Fundación Progresar (Fundação Progredir).

    Qual o contexto das fotos de Guaidó

    As duas fotos foram tiradas no dia 23 de fevereiro de 2019, de acordo com Cañizares. Nessa data, Guaidó liderou uma grande operação para tentar fazer ingressar na Venezuela toneladas de mantimentos enviados de países como EUA, Brasil, Colômbia e Chile.

    A operação foi apresentada por Guaidó como humanitária. Porém, organizações internacionais viram na iniciativa uma manobra política travestida de ajuda e se recusaram a participar.

    O 23F, como ficou conhecida a iniciativa, foi a cartada mais ousada de Guaidó até então. O líder opositor esperava que a operação levasse à deserção em massa de militares fiéis a Maduro e representasse o início da queda do atual governo venezuelano, mas nada disso aconteceu.

    De acordo com Cañizares, o primeiro a publicar as fotos, Guaidó contou com a ajuda dos membros do cartel Los Rastrojos para cruzar a fronteira entre a Venezuela e a Colômbia em segredo, passando por trilhas escondidas e desviando das forças maduristas. O líder oposicionista estava proibido de deixar o país havia um mês por ordem da Justiça local.

    Quem é quem

    Nicolás Maduro

    Assumiu a presidência pela primeira vez em 2013, após a morte de Hugo Chávez, de quem era vice. Foi eleito presidente em maio de 2018. Começou o segundo mandato em janeiro de 2019. Foi acusado pela oposição de fraude eleitoral e de perseguição a adversários políticos. Com base nessas acusações, foi declarado presidente ilegítimo pela Assembleia Nacional, órgão unicameral do Legislativo venezuelano, de maioria opositora, e cuja legitimidade Maduro não reconhece desde 2017. 

    Juan Guaidó

    Foi eleito deputado em dezembro de 2015, como membro da opositora MUD (Mesa Unitária Democrática). Tornou-se presidente da Assembleia Nacional em 5 janeiro de 2019. Dezoito dias depois, foi proclamado presidente provisório da Venezuela pelos demais deputados da assembleia, que consideraram vaga a cadeira de Maduro por supostas fraudes eleitorais. Foi reconhecido como tal por mais de 50 países, nomeou embaixadores, mas não controla o orçamento, as forças de segurança e as Forças Armadas do país.

    A ligação dos paramilitares com a direita

    O cartel Los Rastrojos teve origem em 2006 a partir da subdivisão das AUC (Autodefesas Unidas da Colômbia), grupo paramilitar de direita criado para fazer frente nas zonas rurais às guerrilhas esquerdistas ELN (Exército de Libertação Nacional) e Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia) – esta última supostamente desmobilizada por um acordo de paz em 2016, mas com focos renitentes que ainda se dizem em combate.

    Esses grupos mantêm ligações com o narcotráfico e foram suspeitos no passado de manter ligações estreitas com políticos colombianos. A mesma acusação de ligação ou leniência com os cartéis vem sendo feita agora contra o atual presidente da Colômbia, Iván Duque, que é um dos maiores aliados de Guaidó e um dos maiores críticos de Maduro.

    O senador colombiano Gustavo Pedro, de esquerda, pede que o Ministério Público de seu país investigue a ligação entre Duque e o cartel Los Rastrojos, que, segundo ele, “impuseram toque de recolher a centenas de famílias [no 23F] para que o fotografado [Guaidó] passasse pela fronteira”.

    A ligação das guerrilhas com a esquerda

    As suspeitas de ligação entre Guaidó e narcotraficantes colombianos aparece no momento em que Maduro é acusado de ser “promotor, financiador e patrocinador” do ELN e das Farc.

    O governo colombiano diz que Maduro abriga comandos guerrilheiros em seu território com a intenção de desestabilizar o governo do país vizinho e tramar contra a ida de Duque.

    Essa acusação é um dos pilares de uma iniciativa capitaneada por 12 países das Américas para evocar a aplicação do Tiar (Tratado Interamericano de Assistência Recíproca) contra Maduro. Esse tratado determina que os países da região reajam coletivamente, inclusive por meio de força militar, contra uma agressão a qualquer um dos Estados-partes no documento.

    As consequências para Guaidó

    No plano jurídico, Guaidó terá de dar explicações à Procuradoria-Geral da Venezuela sobre mais o episódio. Ele já responde por acusações de “alta traição”, “sabotagem” e “usurpação da função presidencial”, em processos que, para a oposição, têm motivação puramente política.

    No plano estratégico maior, Guaidó pode ter perdido a primazia do argumento de que seu adversário mantém conexões ilegais, mas ele, não. Só o tempo e a própria dinâmica dos fatos determinará a extensão do estrago que o episódio pode ter causado para a imagem da oposição venezuelana.

    O próprio Guaidó rechaça veementemente as suspeitas e diz que tirou foto com milhares de pessoas nesse dia. “Eu não peço antecedentes aos que me pedem uma foto”, disse ele. “Interpretar erroneamente essas fotos é jogar o jogo de Maduro.”

    João Paulo Charleaux é repórter especial do Nexo e escreve de Paris.

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