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O que é o pacote de estímulos do Banco Central Europeu

Instituição anunciou corte dos juros e compra de títulos para injetar euros no mercado. Medidas buscam aquecer a economia e elevar a inflação

     

     

    Na quinta-feira (12), o Banco Central Europeu anunciou um novo pacote de estímulos, visando aquecer o mercado do continente. As medidas apresentadas pelo órgão incluem um corte nos juros e um programa de compra de ativos financeiros que injetará dinheiro na economia local.

     

    A economia europeia passa por um momento de crescimento lento que se estende há quase uma década. Após a eclosão da crise de 2008 e da subsequente retração econômica, o cenário europeu não conseguiu sustentar uma trajetória de crescimento robusto, raramente crescendo acima de 2,5% ao ano. Em 2019, cresce o temor de uma nova desaceleração, dada possibilidade de a Alemanha, principal economia do bloco, entrar em recessão.

     

    VARIAÇÃO DO PIB NA ZONA DO EURO

     

     

    Ao mesmo tempo que o crescimento caminha a marcha lenta, a Europa também vive um período de baixa inflação. E inflação muito baixa pode ser um problema: em um cenário de aumento muito lento dos preços, as decisões de consumo e investimento podem ser adiadas.

     

    EVOLUÇÃO DOS PREÇOS NA ZONA DO EURO

     

     

    A combinação de crescimento lento e inflação baixa levantou, entre economistas, o debate sobre a possível “japonização” da economia europeia – o termo foi cunhado em referência à situação de estagnação da economia que aflige o Japão há quase três décadas. Diante desse cenário, o banco decidiu agir.

     

     

    As medidas do pacote

     

    O banco cumpriu com as expectativas do mercado ao reduzir a taxa de juros de depósitos. O corte marcou o aprofundamento da taxa em território negativo, caindo de -0,4% para -0,5%.

     

    A ideia do Banco Central Europeu é de que os juros negativos façam com que o dinheiro gire e não fique parado. Afinal, os recursos que os bancos deixarem represados vão perder valor com o tempo. Como os juros, que já eram negativos, caíram 0,1 ponto percentual, isso quer dizer que o ato de deixar dinheiro parado será ainda mais penalizado.

     

    Os mercados já esperavam o corte nos juros, mas as expectativas divergiam com relação à outra ferramenta que seria acionada. No anúncio feito pelo presidente do banco, Mario Draghi, foi revelada a natureza da ação complementar.

     

    O Banco Central optou por um programa de compra mensal de títulos e outros ativos financeiros, injetando, assim, dinheiro na economia europeia. O movimento colocará em circulação € 20 bilhões por mês, e terá duração indeterminada. Isso significa que o banco não tem previsão consolidada sobre quando ocorrerá uma reação da economia europeia, que sinalizaria ao órgão o momento de pôr fim às injeções de dinheiro.

     

    Em termos técnicos, economistas chamam a medida adotada de “quantitative easing” (QE). A compra de títulos e outros ativos financeiros tem sido traduzida como afrouxamento monetário, por expandir, como um cinto, a quantidade de moeda que circula na economia.

     

     

    A sucessão no banco

     

    O pacote de medidas marca uma das últimas ações do atual presidente do banco, Mario Draghi. O italiano será substituído em novembro pela francesa Christine Lagarde, ex-diretora do FMI (Fundo Monetário Internacional).

     

    Por mais que os mercados tenham reagido bem ao anúncio do pacote de Draghi, ficou também a frustração de quem esperava medidas mais agressivas. E mesmo que Draghi tenha feito um pedido aberto para que os países lancem mão de ferramentas fiscais, a tendência é que os estímulos através de gastos de governos e os incentivos via impostos só ganhem mais espaço no mandato de Lagarde.

     

    O Nexo conversou com dois especialistas sobre os possíveis efeitos do pacote preparado pelo banco.

     

    • Paulo José Whitaker Wolf, pós-doutorando em economia na Unicamp e pesquisador do Centro de Estudos de Relações Econômicas Internacionais (CERI)
    • Roberto Dumas, professor de economia internacional do Insper

     

    O pacote de medidas anunciado ontem pelo BCE será suficiente para estimular a economia europeia e afastar os riscos de deflação?

    Paulo José Whitaker Wolf No pacote, o BCE coloca mais dinheiro nos bancos e busca estimular esses bancos a passar esse dinheiro para a frente, sobretudo na forma de crédito, para depois estimular o consumo e o investimento.

     

    Mas essa política de estímulo não é suficiente, porque tem um efeito indireto sobre a demanda. É necessário que o aumento da liquidez e a redução das taxas de juros se convertam em um aumento do crédito, e depois do consumo e do investimento. Mas é necessário que os bancos decidam emprestar mais, que as empresas decidam investir mais e que as famílias decidam consumir mais. Isso não é garantido.

     

    É mais provável que esse dinheiro extra não seja passado para frente na forma de crédito, mas seja utilizado para investimentos em moedas e ativos de outros países.

     

    Somado a isso, é importante lembrarmos que a política fiscal – que, ao contrário da política monetária, tem um impacto direto sobre a demanda – ainda está sujeita a fortes restrições. Desde a crise da dívida entre 2010 e 2012, a Comissão Europeia, o FMI e o BCE enrijeceram as regras fiscais e portanto reduziram a capacidade dos países de utilizar o gasto público e a política tributária para estimular o consumo e o investimento.

     

    Roberto Dumas Acho difícil que o pacote seja suficiente para afastar o risco de uma eventual recessão. Já o risco de deflação, é complicado dizer. A taxa de juros já era negativa e ficou ainda mais negativa. O impacto maior está no afrouxamento monetário. É óbvio que isso é melhor do que nada, mas não há muito mais o que fazer.

     

    Existe uma enorme diferença da crise de 2008 e uma eventual crise que eu acredito que vai ocorrer em 2020. Em 2008 você tinha como instrumentos o corte de juros e a política fiscal expansionista. Hoje, a partir do momento em que a taxa de juros está negativa, não há mais como abaixar em níveis positivos. Cortar os juros de -0,4% para -0,5% dificilmente vai levar a uma perfeita reviravolta em relação ao slowdown da economia.

     

    Há países europeus com dívidas públicas muito alavancadas, como Grécia, Itália e Portugal. Eles podem aumentar o gasto do governo, mas isso seria contraproducente, porque no momento em que se aumenta o gasto do governo para impulsionar o PIB, isso faz com que cresça o risco do país. Com o risco do país mais alto, o investimento e o consumo caem. Não tem mais espaço para expansionismo fiscal. O único lugar em que há esse espaço, como Draghi deixou claro, é a Alemanha. A questão é saber se a Angela Merkel vai fazer isso.

     

    Até onde vai o alcance do Banco Central Europeu? Que outros fatores podem interferir no andamento da economia europeia?

    Paulo José Whitaker Wolf O BCE está fazendo o que pode, e isso não é de agora. Entretanto, ele não tem muito controle se os bancos vão passar para frente essa nova oferta de dinheiro, e sobretudo se eles vão passar para frente na forma de crédito.

     

    O novo pacote foi lançado diante de um contexto de elevada incerteza e de degeneração das expectativas. No âmbito internacional, há dúvidas sobre o que vai acontecer, em função da guerra comercial entre EUA e China. E no Plano Europeu, há a questão do Brexit e todas as dúvidas implicadas.

     

    É importante lembrar que o BCE foi bastante cauteloso depois da eclosão da crise em 2008. Ele foi mais cauteloso que outros bancos como o FED [o Banco Central dos EUA], o Banco do Japão e o Banco da Inglaterra, por exemplo. Quando ele percebeu que a situação estava bastante grave na União Europeia e que ele não poderia ficar parado, aí sim ele iniciou uma política bastante agressiva de relaxamento da liquidez e redução na taxa de juros. Mas a gente viu pela retomada fraca da economia europeia que essas políticas não são suficientes.

     

    Roberto Dumas Economia não é uma ciência exata, então a gente aloca probabilidades. Acho muito difícil que a guerra comercial EUA-China chegue a um acordo em até um ano. Na minha opinião, o pior ainda está por vir.

     

    A briga comercial entre EUA e China está muito longe de ser resolvida. Essa rusga ocorre entre dois gigantes, em termos de geopolítica e economia. EUA e China são duas placas tectônicas: cada vez que eles se mexem, isso afeta a economia de vários países, inclusive os da zona do euro. Por causa da queda do comércio internacional, a Alemanha teve um crescimento do PIB negativo no segundo trimestre de 2019 e o PIB da zona do euro caiu. Por isso o Draghi soltou essa medida de uma política monetária expansionista.

     

    Também há uma bolha na bolsa dos EUA. O investimento das empresas em produção só cai. A bolsa de valores reflete os fundamentos macroeconômicos da economia. Se de fato no primeiro trimestre de 2020 os EUA entrarem em recessão, como é esperado, ocorrerá um sell-off dos papéis da bolsa.

     

    Os números estão gritando. O mundo está urgindo para ativos que protegem. Se os EUA tiverem uma pancada, é óbvio que vai contagiar a Europa.

     

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