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Como o trabalho se tornou uma nova religião, segundo este autor

Para Derek Thompson, o ‘trabalhismo’ começa quando os empregos e carreiras se tornam eixos centrais da identidade dos indivíduos

 

A ideia do expediente de 8 horas diárias e 40 horas semanais surgiu no século 19 e começou a ser aplicada nos Estados Unidos em meados do século 20 como uma reação às jornadas excessivas de trabalho na época da Revolução Industrial, que muitas vezes chegavam a 16 horas diárias, seis dias por semana.

Apesar de essa carga horária ser um conceito relativamente antigo, há quem acredite que foi nas últimas décadas que o trabalho se tornou uma espécie de religião para muitas pessoas que passaram a abraçar as carreiras como parte de suas identidades.

O jornalista americano Derek Thompson publicou, em fevereiro de 2019, um texto na revista The Atlantic no qual apresenta a ideia do “trabalhismo”, uma tamanha devoção à labuta que teria se tornado uma nova religião nos Estados Unidos.

O que é o trabalhismo

O termo trabalhismo, na língua portuguesa, é usado para se referir a assuntos relacionados à classe trabalhadora, como, por exemplo, os direitos trabalhistas.

O conceito de trabalhismo apresentado por Thompson, no entanto, é diferente. Segundo essa ideia, o trabalho não é apenas uma tarefa que supre uma necessidade econômica, mas o eixo central da identidade dos indivíduos e de seus propósitos de vida. Isso se alia à crença de que todas as políticas públicas que visam a gerar mais riqueza precisam, obrigatoriamente, encorajar mais trabalho e não tornar o trabalho menos necessário para os cidadãos.

Levando em conta um estudo feito pelo Banco Mundial em 2014, que demonstrou que os americanos trabalham mais horas ao ano do que trabalhadores de outros países desenvolvidos, Thompson diz que o trabalho se tornou um novo deus. Os “trabalhistas”, adeptos dessa crença, passam mais tempo do que o necessário no escritório, borrando as linhas que dividem trabalho e lazer.

Para Thompson, a ideia de abraçar o trabalho como parte de si, como um lugar em que as pessoas podem ser realmente livres e fazer o que fazem de melhor, é a mesma ideia que motiva fiéis a comparecerem às igrejas semanalmente, em busca de uma reconexão do indivíduo consigo mesmo e com o mundo ao redor.

O trabalho enquanto propósito

O autor aponta que um dos indícios do surgimento do trabalhismo como religião é a mudança nas palavras usadas para se referir ao trabalho. Empregos viraram carreiras, e carreiras viraram missões. Para Thompson, a necessidade se tornou status, e o status se tornou sentido.

Para ilustrar a ideia de trabalho como parte central da identidade do indivíduo, Thompson cita um estudo feito em 2018 pelo Pew Research Center, um centro de pesquisas independente, que demonstrou que para 95% dos jovens americanos ter um trabalho ou uma carreira da qual eles gostam é uma de suas prioridades para a vida adulta, à frente de se casar ou ter filhos.

Um estudo de 2016 feito pelo Instituto Gallup apontou que a maior parte dos millennials, nome dado à geração nascida entre 1981 e 1996, enxergam no trabalho um propósito para si mesmos. A partir desse dado, Thompson diz que o trabalhismo é mais evidente nos trabalhadores mais jovens.

“Nós criamos a ideia de que o sentido da vida deve ser encontrado no trabalho”, disse à The Atlantic Oren Cass, advogado e pesquisador do Instituto de Pesquisas Políticas de Manhattan.

“Nós dizemos aos jovens que o trabalho deveria ser a paixão deles. ‘Não desista até achar um trabalho que você ame!’”, afirmou Cass. “‘Você deveria mudar o mundo’ é uma mensagem que aparece tanto em discursos de formatura como na cultura pop.”

Os efeitos do trabalhismo

Derek Thompson aponta que o trabalhismo pode causar a síndrome de burnout em decorrência das longas jornadas de seus adeptos.

Outros efeitos negativos do excesso de trabalho já foram estudados. Uma pesquisa de professores da Universidade de Angers, na França, publicada em junho de 2019, apontou que trabalhar mais de 10 horas diárias por pelo menos 50 dias ao ano é um fator de risco para a ocorrência de acidente vascular cerebral.

Uma pesquisa de 2003, publicada pelo Instituto de Estudos do Emprego do Reino Unido, indicou uma relação entre longas jornadas de trabalho e uma série de problemas de saúde, como o desenvolvimento de tabagismo, distúrbios do sono, doenças cardiovasculares e retardamento no crescimento fetal em grávidas.

Além dos efeitos na saúde, a pesquisa do instituto britânico demonstrou que mais horas de trabalho estão relacionadas à queda de produtividade, decorrente do cansaço físico e mental.

Thompson também cita que muitos “trabalhistas”, incluindo ele mesmo, se sentem realizados e felizes com suas atividades. Ele diz acreditar que os efeitos negativos do fenômeno podem ser reduzidos se o trabalho deixar de ser encarado como uma necessidade.

Para que isso aconteça, Thompson sugere a criação de políticas públicas, citando o exemplo da Renda Básica Universal. Nesse modelo socioeconômico, os trabalhadores recebem mensalmente um valor que cobre todas as suas necessidades básicas. Em 2017, dois projetos-pilotos do gênero foram testados.

O trabalhismo no Brasil

Embora não existam estudos que se debruçam sobre o fenômeno do trabalhismo no Brasil, alguns de seus discursos estão se espalhando em algumas esferas do país.

Uma rápida busca no Google traz resultados de artigos escritos por coaches que difundem a ideia do trabalho enquanto propósito. Um deles foi publicado no blog do Instituto Brasileiro de Coaching, uma das mais importantes instituições do ramo no país.

“Trabalhar por um propósito vai muito além de encontrar um trabalho que vá trazer uma renda satisfatória para você e sua família”, diz o texto.

“A pessoa que encara o trabalho como algo grandioso, como uma oportunidade de transformar coisas, pessoas e situações, com certeza é alguém que enxerga o mundo diferente de muitas outras pessoas, e que busca trabalhar por um propósito centenas de vezes maior do que apenas pagar boletos e sobreviver em sociedade”, acrescenta o autor.

No mercado editorial, nove dos 20 livros mais vendidos na primeira semana de setembro de 2019 eram relacionados a negócios, trabalho e mudanças de comportamento que garantiriam sucesso profissional ou uma vida mais plena.

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