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Como o nacionalismo incita ataques contra imigrantes na África

Saques, mortes, prisões e depredações contra estrangeiros na África do Sul geraram respostas na Nigéria, República Democrática do Congo e outros países do continente

     

    Entre os dias 1º e 5 de setembro, cidades importantes da África do Sul, como Johannesburgo, Cidade do Cabo e Pretória, foram palco de violentos ataques contra imigrantes de outros países africanos.

    As cifras sobre o número de mortos variam entre cinco e dez, de acordo com diferentes fontes. Já o número de detidos passou de 400. No intervalo de cinco dias, dezenas de lojas foram incendiadas, mercados foram saqueados, estradas foram bloqueadas e voos e eventos esportivos foram cancelados por temor da onda de violência que teve início na África do Sul e provocou reflexos em outros países da região.

    Os ataques tiveram como alvo imigrantes de Moçambique, Etiópia, República Democrática do Congo, Zimbábue, Zâmbia, Somália, Nigéria e Gana que buscam melhores condições de vida na África do Sul. O país, que, depois da Nigéria, tem o maior PIB (Produto Interno Bruto) do continente, atrai trabalhadores dos países ao redor, que são tidos como presença indesejada por moradores locais.

    A repulsa a estrangeiros, comum na relação entre cidadãos de países ricos e imigrantes de países pobres, encontrou na África uma dinâmica própria, onde vem sendo reproduzido em escala regional o mesmo problema que ocorre entre o continente e a Europa.  

    A onda de ataques fez com que o presidente sul-africano, Cyril Ramaphosa, fosse à TV pedir calma à população e ordenar que as forças policiais e a Justiça responsabilizassem os culpados pelas ações.

    “Somos um país completamente engajado contra a xenofobia. Nós não autorizamos e não podemos tolerar ataques contra pessoas de outros países”, disse o presidente sul-africano.

     

    Além dos episódios reais de violência, a África do Sul sofreu com uma onda de boatos e de notícias falsas difundidas pelas redes sociais. Esses boatos atribuíam crimes a imigrantes de outras partes da África e aumentavam o clima de perseguição e de pânico nas ruas.

    Ramaphosa pediu que os cidadãos sul-africanos parassem de compartilhar “vídeos, fotos e mensagens falsas que provocam pânico e põem a vida das pessoas em risco”.

    Imigração crescente, tensão crescente

    A África do Sul tem 50 milhões de habitantes. Oficialmente, há 2 milhões de imigrantes no país, o que corresponde a 4% da população. Mas esse percentual é na verdade maior, dada a imigração ilegal, não contabilizada.

    As estimativas informais, dadas por analistas locais e reproduzidas pela imprensa europeia e americana, falam em até 5 milhões de imigrantes no país.

    A África do Sul é um polo de relativa prosperidade no continente, com índices de alfabetização e expectativa de vida superiores aos dos demais países africanos.

    Apesar disso, o país lida com todos os problemas típicos de países em desenvolvimento, como a falta de acesso à água limpa e saneamento, a falta de moradia e especialmente o desemprego, que atinge 29% da população.

    A tensão entre locais e imigrantes provocou ondas de violência semelhantes no passado. Em 2015, pelo menos quatro pessoas foram mortas. Antes disso, em 2008, foram mais de 60 mortos.

    Onda de ataques se espalha pela região

    Desta vez, a onda de ataques a imigrantes foi puxada por um grupo de empregados de empresas de transporte e motoristas autônomos que trabalham com transporte de cargas na África do Sul.

    O grupo bloqueou ruas e rodovias para denunciar a competição ilegal que, segundo eles, é exercida por motoristas vindos de outros países africanos. Como muitos desses motoristas imigrantes não estão legalizados no país, eles acabam aceitando condições piores de trabalho, com longas jornadas e baixa remuneração, o que os torna mais atraentes aos olhos de quem quer contratar o serviço pagando menos.

    Os protestos se espalharam para as zonas urbanas das grandes cidades, onde lojas de proprietários estrangeiros foram incendiadas e saqueadas.

     

    Os ataques também geraram incidentes diplomáticos. Em resposta às agressões contra seus cidadãos, o governo da Nigéria cancelou sua participação na reunião do Fórum Econômico Mundial para a África, realizada nos dias 4, 5 e 6 de setembro na Cidade do Cabo, sede do Parlamento sul-africano.

    Assustados com a onda de violência, um grupo de pelo 600 nigerianos pediram para serem resgatados com urgência da África do Sul. O empresário nigeriano Allen Onyema, dono da companhia aérea local Air Peace, colocou um Boeing 777 para evacuar seus compatriotas.

    Do outro lado, o governo sul-africano fechou suas unidades diplomáticas na Nigéria após receber ameaças. O presidente da Nigéria, Muhammadu Buhari, disse que irá em outubro à África do Sul discutir a situação.

    Em Kinshasa, capital da República Democrática do Congo, supermercados e lojas de proprietários sul-africanos também foram queimadas. O governo congolês ordenou reforço na segurança das unidades diplomáticas sul-africanas no país, e 16 pessoas foram presas.

    Em Lubumbashi, segunda maior cidade da República Democrática do Congo, uma loja da cadeia sul-africana Mr. Price foi incendiada, e o consulado da África do Sul na cidade foi apedrejado.

    Todos os voos da Tanzânia para a África do Sul foram cancelados no dia 5 de setembro e a seleção de futebol de Madagascar cancelou um jogo amistoso que ocorreria no dia 7 na África do Sul.

    Cidadãos de vários países da África deram início a uma campanha de boicote a grandes empresas sul-africanas, como a rede de televisão DSTV, a operadora de televisão a cabo MultiChoise, a rede de supermercado Shoprite e a empresa de telecomunicação MTN.

    Mais que xenofobia, afrofobia

    A onda de ataques na África do Sul não é dirigida a imigrantes em geral, mas apenas àqueles que vêm de outros países do próprio continente africano. Por isso, o fenômeno está sendo chamado de “afrofobia”.

    Foi a própria ministra das Relações Exteriores da África do Sul, Naledi Pandor, quem se referiu com maior destaque à “afrofobia” presente em seu país. O termo “afrofobia” também foi usado em artigos publicados por um grupo de jovens acadêmicos que fazem parte da iniciativa Obama Africa Leaders, um programa ligado ao ex-presidente americano Barack Obama no continente africano.

    “Há ataques dirigidos contra africanos de outras partes da África. Isso é algo que nós não podemos negar”
    “Nós estamos vendo que existe uma afrofobia. Há ressentimento e nós precisamos lidar com isso”

    Naledi Pandor

    ministra das Relações Exteriores da África do Sul, em entrevista no dia 5 de setembro de 2019

    “Xenofobia é o nome dado ao preconceito contra pessoas de outros países. A África do Sul não tem um problema de xenofobia. Digo isso porque há milhares de imigrantes europeus na África do Sul. Esses são, na maioria, brancos. Eles nunca foram atacados no meu país, e provavelmente nunca serão. Os sul-africanos não atacam todos os estrangeiros, mas apenas os pobres, os negros da África. Somos culpados pela afrofobia, não pela xenofobia”, disse a escritora sul-africana e militante dos direitos humanos Suraya Dadoo.

    Políticos sul-africanos incitaram afrofobia

    Assim como em outras partes do mundo, políticos sul-africanos vêm apostando no discurso nacionalista e nativista para ganhar votos. Esse discurso faz o eleitor crer que os problemas que o país enfrenta só podem ser resolvidos por quem nasceu no próprio país e que os estrangeiros são os responsáveis pelo desemprego, pela pobreza e pela criminalidade.  

    Essa retórica nacionalista está presente tanto no discurso de membros do governista CNA (Congresso Nacional Africano) quanto no discurso de políticos do oposicionista DA (Aliança Democrática, na sigla em inglês).

    Herman Mashaba elegeu-se prefeito de Johannesburgo em 2016 pelo DA com o lema “Todos os sul-africanos primeiro” (ou “all the south-africans first”, numa adaptação do lema do presidente americano, Donald Trump, “America first”). O milionário Mashaba se diz “um cruzado do capitalismo”, em referência às cruzadas medievais, e um defensor da “liberdade individual”.

    Do lado do CNA há apelos semelhantes. Bongani Michael Mkong, que chegou a ser eleito deputado 2014 pela ANC, disse em 2017, quando ocupava o cargo de vice-ministro da Polícia, que havia cidades sul-africanas nas quais 80% da população era de imigrantes, o que não é verdade. Mkong disse que, se esse fenômeno não fosse detido, o país estaria em risco.

     

    “Toda a África do Sul pode vir a ser 80% dominada por estrangeiros, e o futuro presidente da África do Sul pode vir a ser um estrangeiro. Como é possível que 80% de uma cidade sul-africana seja 80% dominada por estrangeiros? Isso é perigoso”, disse o então vice-ministro da Polícia.

    João Paulo Charleaux é repórter especial do Nexo e escreve de Paris.

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