Ir direto ao conteúdo

Lula Livre e Direitos Já: como o campo da esquerda se divide

Enquanto PT prioriza a defesa do ex-presidente, demais partidos não conseguem ocupar um espaço de protagonismo na oposição. Ao ‘Nexo’, dois cientistas políticos analisam o papel desse campo no governo Bolsonaro

     

    Após nove meses na Presidência, Jair Bolsonaro tem enfrentado mais obstáculos dentro do próprio governo do que na oposição. Suas declarações sobre meio ambiente e sobre os governadores do Nordeste, por exemplo, foram reprovadas pela maioria da população, segundo pesquisa Datafolha divulgada em setembro.

    Colaboraram para derrubar a popularidade do presidente os atritos criados por seu filho Carlos com membros do próprio governo, a possível indicação de Eduardo Bolsonaro para a Embaixada do Brasil nos Estados Unidos e as suspeitas de desvios de recursos no gabinete do primogênito, Flávio, além das ações de ministros nas áreas de educação e meio ambiente.

    A rejeição a Bolsonaro subiu de 23% em abril para 32% em agosto, mês em que 44% dos entrevistados disseram não confiar nele, ainda de acordo com o Datafolha. A desaprovação ao governo pulou de 33% para 38% no mesmo período, segundo o instituto.

    Ofuscados em meio às sucessivas crises no governo, partidos de oposição têm tentado se organizar, mas ainda enfrentam uma fragmentação no campo da esquerda. De um lado, o PT, dono da maior bancada na Câmara, com 55 deputados, aposta na defesa da libertação do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, preso desde abril de 2018 em Curitiba após condenação na Lava Jato no caso do tríplex.

    A bandeira erguida em torno do petista, porém, não é capaz de unificar a esquerda. As demais forças têm se mobilizado de outra maneira. No início de setembro de 2019, representantes do PDT, PCdoB, PSB, PSDB, Solidariedade e PV lançaram o Fórum Democracia Direitos Já, em São Paulo, na tentativa de fazer uma oposição ampla a Bolsonaro.

    Embora o evento tenha contado com representantes do PT como o vereador Eduardo Suplicy, o candidato do partido nas eleições presidenciais de 2018, Fernando Haddad, que chegou ao segundo turno, não compareceu ao fórum que teve participação de Ciro Gomes e Flávio Dino (governador do Maranhão, pelo PCdoB), o que revelou a dificuldade para construir convergências. A militância petista criticou a iniciativa por não aderir ao “Lula Livre”.

    A campanha Lula Livre

    Presidente da República por duas vezes, Lula mobiliza as discussões políticas desde a redemocratização. O líder operário das grandes greves do ABC Paulista no fim dos anos 1970 e início dos 1980 participou de todas as eleições para presidente de 1989 a 2006. Ao deixar o governo em 2010, sua aprovação era de 83%, o que garantiu a eleição de sua ex-ministra de Minas e Energia e da Casa Civil, Dilma Rousseff, que se reelegeu em 2014, tendo o ex-presidente como cabo eleitoral.

    Mesmo preso, liderava as pesquisas de opinião em 2018 até ser barrado pela Lei da Ficha Limpa. Foi figura central para que Fernando Haddad, seu ex-ministro da Educação, chegasse ao segundo turno. Mas Haddad perdeu a eleição. A derrota se deu, em grande parte, por causa do antipetismo.

    Com Lula fora de cena, o PT tem defendido que sua prisão e condenação foram ações políticas, argumento que ganhou força com a divulgação, pelo site The Intercept Brasil, de mensagens privadas trocadas entre os procuradores da Lava Jato e o ex-juiz Sergio Moro, que deixou a magistratura para se tornar ministro da Justiça de Jair Bolsonaro. As conversas apontam parcialidade na operação.

    Mas o vazamento dos diálogos não teve força para alterar a situação do ex-presidente, que questiona na Justiça sua prisão. O PT também não conseguiu encontrar nomes que possam assumir o lugar de Lula. Apesar de agregar muita gente, a causa Lula Livre sofre rejeição de outros setores da esquerda, o que impede a união de um bloco único de oposição ao governo Bolsonaro.

    O Fórum Democracia Direitos Já

    Algumas movimentações têm sido feitas por políticos de esquerda para tentar servir como alternativa ao presidente, que se elegeu em 2018 devido a uma forte onda conservadora e de rejeição ao PT. Em julho, governadores do Nordeste, região que ainda preserva eleitores e governadores, formaram um consórcio para servir como uma frente com nove estados. Ele foi anunciado dias depois de Bolsonaro se referir ao nordestinos de forma pejorativa como “paraíbas”.

    Em 2 de setembro, nomes do PDT, PCdoB, PSB, PSDB, PV e Solidariedade se uniram em torno do Fórum Democracia Direitos Já, lançado durante um evento na PUC (Pontifícia Universidade Católica) de São Paulo.

    Participam do ato Ciro Gomes (PDT), Flávio Dino (PCdoB), Márcio França (PSB), Luís Felipe D’ávila (PSDB-SP), Paulinho da Força (Solidariedade), Eduardo Jorge (PV) e Marta Suplicy (sem partido). Eduardo Suplicy representou o PT. Haddad foi convidado, mas não compareceu devido à resistência de parte da esquerda em defender a libertação de Lula.

    No ano passado, Ciro, que foi ministro da Integração Nacional de Lula e candidato à presidência em 2018 pelo PDT, fez várias referências à prisão do petista. “Tem coisa mais chata do que um jovem estar num bar defendendo corrupto? Imagina um jovem num bar agora obrigado a defender corrupção, ladroeira, aparelhamento do Estado, fisiologia, formação de quadrilha”, disse, durante a campanha eleitoral.

    “Eu não sou [corrupto] não, eu estou solto, 38 anos de vida pública e nunca respondi por nenhum malfeito. Eu sou limpo! Engole! O Lula está preso, babaca!”

    Ciro Gomes

    ex-governador do Ceará, durante evento em 2018

    O PSB, que quase elegeu Márcio França como o governador em São Paulo, negociou com o PT em 2018 para ficar neutro nas eleições nacionais daquele ano e não apoiar Ciro. Em troca, o PT retirou a candidatura própria para o governo de Pernambuco e passou a apoiar a reeleição de Paulo Câmara no estado. Mas o PSB também não assume a bandeira.

    O impasse acontece porque, sem Lula, os partidos de esquerda não conseguem encontrar um nome forte para brigar pelo Executivo. Ciro ficou atrás de Haddad nas eleições de 2018 e não teve força suficiente para ir ao segundo turno. Já o governador Flávio Dino, embora tenha aparecido como uma antítese de Bolsonaro, pertence a um partido, o PCdoB, que sempre gravitou em torno do PT.

    Duas visões sobre as esquerdas

    O Nexo ouviu dos cientistas políticos sobre o atual papel das esquerdas no governo Bolsonaro.

    • Oswaldo Amaral, professor de ciência política na Unicamp (Universidade Estadual de Campinas)
    • José Luciano Dias, doutor em ciência política pelo Iuperj (Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro)

    Como avalia a situação do PT nos nove meses após a posse de Bolsonaro?

    OSWALDO AMARAL O PT está numa posição bastante tímida. Foi muito impactante a onda de antipetismo no ano passado. E com a manutenção do Lula na prisão, acho que o PT ainda está tentando se reorganizar para ver como vai se dar a correlação de forças na esquerda para tomar posições mais efetivas. Eu acho que o partido deveria se engajar fortemente na formação ou ajudar a liderar uma frente de centro-esquerda que defendesse duas coisas fundamentais para que a esquerda possa se colocar ou aparecer eleitoralmente competitiva em 2022: a defesa de direitos sociais e aceitar pactuar com setores de centro e centro-direita na defesa da democracia. Centrar numa questão de defesa de políticas públicas que foram construídas no período pós-1988, de consolidação de direitos sociais, de tentativa de construção tímida ainda de um estado de bem-estar, e pactuar com toda a esfera democrática para evitar eventual erosão institucional na defesa da democracia.

    Acho que o PT não deverá abrir mão de uma candidatura própria, isso não deve acontecer. Mas tentar construir uma candidatura de esquerda, ampla, e que seja moderada, é fundamental. O que seria difícil para a liderança e até para a militância seria abrir mão dessa cabeça de chapa. Tradicionalmente não é isso que o partido faz e a gente não sabe como as coisas vão evoluir. Tem muitas variáveis que a gente não consegue controlar: o destino do Lula, o destino de outras lideranças de esquerda que não são o PT, os movimentos de Ciro Gomes. Vai emergir uma outra força? A variável chave nessa história toda pode ser a economia. Se a economia crescer nos últimos dois anos da administração Bolsonaro, ele fica muito forte para a reeleição, e isso muda a estratégia. Passa a ser: tudo bem, vamos concorrer em 2022, mas já pensando em 2026.

    O nome natural, assumindo que o Lula vai continuar preso, ou que vai ter impedimentos legais com a Lei da Ficha Limpa, seria o Fernando Haddad, mas o partido resiste e existe uma disputa dentro do próprio partido para quem pode ser a cabeça de chave. O Haddad não é um nome incontestável.               

    JOSÉ LUCIANO DIAS É uma posição muito prejudicada pela associação do partido com o Lula, que está preso e condenado. O partido insiste na libertação do Lula, o que paralisa a capacidade do PT de fazer alianças. Ninguém vai se aliar com uma liderança que não pode ser candidato e que está associado a um grande escândalo de corrupção. Isso tem paralisado o PT. Tanto é assim que uma parte da esquerda votou na reforma da Previdência buscando um outro caminho, buscando uma outra posição no cenário.

    Uma coisa é o capital político do Lula, outra coisa é ele ser elegível. O Lula não é mais elegível ao menos na próxima década. A capacidade que ele tem de fazer um candidato é uma capacidade limitada ao apoio. Assim como ele apoiou o Haddad, pode apoiar um candidato de um outro partido, uma outra equação política. A insistência nesse tipo de abordagem, uma candidatura única, petista, o levou à derrota em 2018 e está levando à divisão da esquerda.    

    Como avalia a oposição feita no período pelo resto da esquerda?

    OSWALDO AMARAL Os outros partidos têm uma atuação muito limitada. Com essa nova Câmara dos Deputados, que está um pouco mais fragmentada, os outros partidos de esquerda ficaram com bancadas muito pequenas. Eles não conseguem ainda, apesar de todos os problemas que o PT teve nas últimas eleições, não conseguem desafiar essa posição de protagonista do PT. Um nome fora do PT só vai efetivamente ter chance de ganhar se o PT estiver junto. É uma situação ainda complicada, de muita incerteza. A gente não sabe o que o governo ainda vai produzir, qual vai ser o posicionamento dos partidos de esquerda no Congresso. Ainda está muito difícil para a esquerda tomar decisões nesse primeiro ano.

    É difícil unir a esquerda, porque são interesses diferentes. Com a saída do Lula de cena há um espaço que todo mundo está querendo ocupar. O Fórum Democracia Direitos Já é uma iniciativa importante, porque uma das formas da esquerda se posicionar e ganhar adesão para 2022 é exatamente fazer uma defesa intransigente da democracia. Nisso ela pode construir uma plataforma comum.       

    JOSÉ LUCIANO DIAS A oposição no Brasil hoje tem um problema evidente. Ela perdeu quase 20% das bancadas na Câmara dos Deputados e mais de 30% no Senado. A oposição não tem número para interromper o processo legislativo. E ao mesmo tempo ela tem uma postura antiga em relação à conjuntura. Nós tivemos aí sete anos de escândalos e a esquerda não adotou uma posição diante do que aconteceu. Nós estamos diante de uma crise fiscal séria, que afeta várias áreas de atuação do governo, e a esquerda adotou uma posição de resistência, de negar a crise fiscal. Eu acho que o principal problema hoje da esquerda, descontando a questão do número, é a incapacidade dela de ter uma resposta atualizada e compatível com a realidade da conjuntura. Acho a bandeira da democracia vazia. Não há nenhuma ameaça para a democracia. Não há ninguém falando em suspender eleições, o Judiciário, as garantias individuais.

    As liberdades, como a de imprensa, estão iguaizinhas como estavam há dez anos. É uma posição antiquada. Essa posição denota à uma posição de 1982, 1983, quando estavam sendo reconstruídas as garantias individuais. A população em geral olha para isso e acha bizarro. Como é que um país com as redes sociais como estão, com as mídias sociais como estão, como dizer que existe uma ameaça à democracia no Brasil? Não há nenhuma ameaça.          

    Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project.

    Já é assinante?

    Entre aqui

    Continue sua leitura

    Para acessar este conteúdo, inscreva-se abaixo no Boletim Coronavírus, uma newsletter diária do Nexo: