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O que inspirou Margaret Atwood a continuar O Conto da Aia

Mais de trinta anos depois de sua publicação original, livro que virou série de sucesso ganha sequência que reflete questões contemporâneas

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    O livro “O conto da aia”, da escritora canadense Margaret Atwood, foi publicado originalmente em 1985. À época, o romance foi um sucesso de público e de crítica e ganhou sete importantes prêmios nos dois anos após seu lançamento.

    A trama, que se passa em um futuro próximo, é ambientada em Gilead, uma república teocrática autoritária que tomou o lugar do que um dia foram os Estados Unidos, em um mundo marcado por altos índices de infertilidade e pela diminuição do número dos nascimentos. A partir disso, Atwood conta a história de Offred, uma aia, nome dado às mulheres de Gilead que ainda conseguem se reproduzir e são obrigadas a carregar os filhos de famílias afluentes do regime.

    Em 2017, “O conto da aia” voltou a ser um best-seller mundial, atingindo mercados que ainda não conheciam o livro por causa do lançamento da série “The handmaid's tale”, produzida pelo serviço de streaming americano Hulu e transmitida no Brasil pelo canal de TV a cabo Paramount e pelo serviço Globoplay.

    Dois anos depois da estreia da série e mais de 30 anos depois da publicação do romance, Atwood está lançando em 2019 “Os testamentos”, a continuação de “O conto da aia”. O livro foi publicado em inglês na terça-feira (10) e será lançado em português no Brasil em novembro.

    Em “Os testamentos”, a escritora apresenta a história de três personagens, com uma trama ambientada 15 anos após o final do primeiro livro.

    As inspirações para a continuação

    Atwood diz ter uma regra para criar seus livros: tudo o que acontece neles surge a partir de um precedente do mundo real. Em “O conto da aia”, a autora se inspirou na conjuntura mundial do século 20. Para “Os testamentos”, ela se inspirou no momento atual, com a ascensão de governos de extrema direita, em especial a presidência de Donald Trump nos EUA.

    Em entrevista ao site inglês The National, a autora disse que antes não desejava escrever uma continuação para o livro. Ela mudou sua visão por conta da situação sociopolítica do mundo, especialmente nos EUA.

    “Conforme o tempo foi passando, nós não nos afastamos de Gilead. Nós caminhamos em direção a Gilead, particularmente nos Estados Unidos. Então eu revi a minha posição [de não escrever uma sequência]”, afirmou.

    Após a eleição de Trump, em 2016, foram organizados nos EUA protestos contra as políticas do governo em relação aos direitos das mulheres, em que as manifestantes apareceram caracterizadas como as aias do livro. Manifestações semelhantes aconteceram em países como a Argentina e o Reino Unido.

    A crítica de “Os testamentos” feita por Michiko Katukani para o jornal The New York Times vê paralelos entre Gilead e os governos Trump, nos EUA, e de Vladimir Putin, na Rússia, “com suas tentativas de redefinir a realidade”.

    Atwood também se inspirou na situação de outros países. No primeiro livro, algumas das decisões mais brutais e cruéis tomadas pelos governantes de Gilead foram inspiradas no nazismo e no governo do ditador Augusto Pinochet, no Chile. Em “Os testamentos”, as ações do Estado Islâmico no Oriente Médio serviram como base para algumas das cenas.

    A autora também incorporou em “Os testamentos” a ascensão de discursos anticientíficos, de acordo com a crítica publicada pela revista americana New Scientist.

    A revista aponta que a sequência de “O conto da aia” traz cenas em que a negação das mudanças climáticas se manifesta no povo de Gilead, bem como a tração de ideias erradas sobre os efeitos da radiação e do lixo tóxico nos seres humanos.

    O sucesso da série

    “The handmaid's tale” se tornou um sucesso global. A série do Hulu adapta os eventos do primeiro livro e, a partir de sua segunda temporada, cria uma nova trama para Offred, interpretada por Elizabeth Moss, e para os rumos de Gilead.

    Desde sua estreia, o seriado tem sido aclamado pelo público e pela crítica. No site Rotten Tomatoes, que agrega críticas dos principais veículos de comunicação do mundo, “The handmaid's tale” tem 88% de aprovação.

    A crítica de TV Lauren Carroll Harris, do jornal The Guardian, afirmou que a série tem uma mensagem importantíssima, apesar de ser angustiante de se assistir. Meghan O’Keefe, do site Decider, categorizou "The handmaid's tale” como uma “grande história de terror”, pela maneira como a trama de Offred é construída.

    O reconhecimento também apareceu em premiações. “The handmaid's tale” ganhou o Emmy de melhor série dramática em 2017 e o Globo de Ouro na mesma categoria em 2018.

    Outras adaptações

    A série “The handmaid's tale” não é a primeira adaptação do livro de Atwood.

    Em 1990, o diretor alemão Volker Schlöndoff dirigiu uma versão cinematográfica de “O conto da aia”, com Natasha Richardson (de “Operação Cupido”) interpretando a protagonista Offred.

    Em 2000, o compositor dinamarquês Poul Ruders escreveu uma ópera baseada em “O conto da aia”, com apresentações na Dinamarca, Inglaterra, Estados Unidos e Canadá.

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