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Por que Trump demitiu seu conselheiro mais linha-dura

Presidente americano tinha visões opostas às de John Bolton, seu principal assessor de segurança sobre Venezuela, Afeganistão, Coreia do Norte e Irã

     

    O presidente dos EUA, Donald Trump, anunciou nesta terça-feira (10), pelo Twitter, a demissão de seu assessor de Segurança Nacional, John Bolton.

    Ao fazer o anúncio, Trump disse que “discordava fortemente” das sugestões que vinham sendo dadas por seu assessor, e prometeu revelar o nome do substituto na próxima semana.

    A queda de Bolton encerra a participação de um dos maiores “falcões” da política externa americana neste governo. O termo “falcão” designa, nos EUA, os adeptos de uma abordagem agressiva da diplomacia, marcada pelo unilateralismo, o intervencionismo e as soluções de força.

    Um assessor mais radical que o chefe

    Desde a pré-campanha presidencial, ainda em 2016, Trump apresentou uma agenda de política externa agressiva, falando em recuperar o poder nuclear americano e tornar “inquestionável” seu “domínio militar” no mundo.

    Bolton demonstrou ser ainda mais agressivo que seu chefe em casos concretos envolvendo o Irã, a Coreia do Norte, a Venezuela e o Afeganistão. Sua abordagem belicosa vinha queimando etapas de negociação diplomática e empurrando os EUA para possíveis conflitos armados nesses contextos.

     

    Ao mesmo tempo em que tem uma retórica agressiva, Trump busca reduzir a presença militar dos EUA nos contextos em que não estejam claros os benefícios imediatos para os americanos. Bolton, ao contrário, primava por ameaçar usar a força militar em situações tão diferentes quanto a Venezuela, que vive uma crise econômica e política, e o Irã, que investe num programa nuclear.

    Desde que foi eleito, o presidente americano dosa a ameaça do uso da força com a promessa de otimizar os gastos militares e de dividir responsabilidades com parceiros europeus e asiáticos, num claro rechaço à ideia dos EUA onipresentes. Bolton, em contraste, via no poder bélico americano a melhor opção.

    Um dos principais colunistas de política externa do jornal americano The Washington Post, Ishaan Tharoor, lembrou que quando Bolton assumiu o cargo, em abril de 2018, ele era tido como um “operador astuto [que] poderia bajular e manipular Trump ao mesmo tempo em que pressionaria o aparato de segurança nacional a executar sua agenda de falcão”.

    A demissão mostra que prevaleceu a postura de uma ala mais moderada do governo, ligada ao atual secretário de Estado americano, Mike Pompeo.

    Longa lista de serviços

    Bolton nasceu em Baltimore, em 1948. A mãe trabalhava em casa. O pai era um veterano do desembarque aliado na Normandia, em 1944, que passou a trabalhar como bombeiro depois do regresso aos EUA.

    Formado em direito, ele passou anos servindo ao Ministério Público antes de ingressar na área internacional. Assessorou políticos republicanos como os ex-presidentes Ronald Reagan (1981-1989), George H. W. Bush (1989-1993) e George W. Bush (2001-2009) antes de embarcar no governo Trump, em abril de 2018.

     

    Um dos episódios mais conhecidos de sua carreira ocorreu em 2002. À época, os EUA queriam atacar o Iraque sob pretexto de que o país do Oriente Médio possuía um arsenal de armas de destruição em massa que ameaçava os americanos e seus aliados no mundo.

    Bolton era então subsecretário de Estado americano para controle de armas e segurança internacional no governo de George W. Bush, cargo que ocupou entre 2001 e 2005. Teve papel ativo na construção do pretexto que motivou a invasão americana e, nessa condição, intercedeu pela saída do brasileiro José Maurício Bustani da diretoria-geral da Opaq (Organização para a Proibição de Armas Químicas).

    Bustani era inconveniente para Bolton, pois sustentava a informação de que o Iraque não possuía armas de destruição em massa. Além disso, o diplomata brasileiro defendia o ingresso do Iraque e da Líbia na Opaq, para que ambos países pudessem ser fiscalizados. Bolton, no entanto, preferia a solução militar, que acabou de fato prevalecendo.

    Bustani deixou o cargo após pressão americana. O ataque da coalizão militar liderada pelos EUA contra o Iraque levou à mudança de regime, mas mais tarde ficou provado que o pretexto para a invasão era falso.

    Em 2002, Bush disse que Irã, Iraque e Coreia do Norte compunham um “eixo do mal”. Retoricamente, Bolton ampliou a lista mais tarde, para incluir Cuba, Líbia e Síria. Em 2003, o governo norte-coreano se referiu a Bolton como “escória humana” e “maníaco por guerra”.

    Mais tarde, entre agosto de 2005 e dezembro de 2006, Bolton foi embaixador dos EUA na ONU (Organização das Nações Unidas). O americano havia deixado claro em 1994 seu desprezo pela organização, dizendo que alguns andares do edifício não fariam falta nenhuma se fossem extintos.

    O ex-assessor da Casa Branca era um crítico das organizações internacionais, que, para ele, minavam a soberania dos países. Um de seus alvos principais era o Tribunal Penal Internacional, responsável por julgar crimes de guerra e crimes contra a humanidade.

    “Os EUA usarão todos os meios necessários para proteger seus cidadãos e seus aliados das perseguições injustas de uma corte ilegítima”, disse ele em 2018, quando o tribunal ameaçou investigar denúncias de crimes cometidos pelos EUA no Afeganistão.

    Depois de recorrer à retórica do “eixo do mal”, Bolton cunhou, já em 2018, as expressões “troika da tirania” e “triângulo do terror” para se referir aos líderes de Cuba (Miguel Díaz-Canel), Nicarágua (Daniel Ortega) e Venezuela (Nicolás Maduro).

    As marcas atuais de Bolton

    Nos últimos meses, Bolton vinha colecionando divergências com Trump em relação aos principais desafios que os americanos enfrentam em política externa e defesa.

    Venezuela

    Bolton pressionava por uma mudança de regime na Venezuela a todo custo. Frequentemente, o assessor da Casa Branca ameaçava depor à força o presidente Nicolás Maduro em favor do opositor Juan Guaidó, mesmo com aliados estratégicos dos EUA na região, como o Brasil, desaconselhando a medida. Trump se arrependeu de ter se deixado levar pela tese de Bolton de que seria fácil derrubar Maduro.

    Coreia do Norte

    Trump encontrou-se com o líder da Coreia do Norte, Kim Jong-un, pela primeira vez, em junho de 2018, em Hanói, capital do Vietnã. Oito meses depois, em fevereiro de 2019, diplomatas americanos e norte-coreanos anunciaram que um segundo encontro entre os dois líderes estava programado para ocorrer nos dias 27 e 28 de fevereiro, também em Hanói. Nesse instante, Bolton sugeriu a Trump que a continuidade do diálogo com Kim fosse condicionado à imposição de uma lista de exigências sobre o programa nuclear norte-coreano. A ideia fez Kim desistir do encontro e a negociação foi frustrada. Os dois presidentes, no entanto, se encontrariam quatro meses depois na Coreia do Norte. 

    Irã

    Em maio de 2018, Trump anunciou que os EUA estavam se retirando do acordo nuclear que havia sido assinado com o Irã durante o governo do democrata Barack Obama, em 2015. A ruptura era o cumprimento de uma promessa de campanha de Trump. O líder republicano afirmava que os iranianos continuavam a desenvolver seu programa nuclear fora das especificações do tratado e que, portanto, o documento já não tinha validade. O governo americano voltou a aplicar uma série de sanções e embargos contra os iranianos, mas Bolton defendia uma abordagem ainda mais radical. Para o assessor da Casa Branca, o Irã planejava atacar navios americanos no Golfo. Além disso, em junho, militares iranianos abateram um avião militar não tripulado dos EUA. Para Bolton, essas eram razões para ir à guerra, mas Trump preferiu esperar.

    Afeganistão

    Trump vinha buscando vias de negociação com os talebã no Afeganistão, onde os EUA mantêm a mais longa presença militar em conflito de sua história. O presidente americano chegou a cogitar um convite a líderes do grupo para uma reunião em Washington, o que contrariava Bolton. O assessor da Casa Branca já não estava participando dos diálogos a esse respeito nos últimos dias, e Trump suspeitava de que seu assessor vinha vazando informações à imprensa.

    A relação com o Brasil

    Bolton tornou-se um interlocutor importante para o governo do presidente brasileiro, Jair Bolsonaro. Foi ele que Trump enviou ao Rio de Janeiro para saudar o brasileiro logo após a eleição presidencial, em novembro de 2018.

    Na ocasião, Bolsonaro recebeu Bolton em sua casa, na Barra da Tijuca. O brasileiro esperou o americano na entrada de casa, e o saudou em posição de sentido, fazendo a saudação militar de continência a Bolton. Em seguida, ambos se sentaram diante de uma mesa informal, acompanhados por assessores.

     

    Embora o governo brasileiro se oponha publicamente à hipótese de uma intervenção militar na Venezuela, como aventada por Bolton, os dois governos têm discurso afinado sobre a necessidade de depor Maduro.

    O próprio Bolton contestou a versão de Trump de que foi demitido. No Twitter, ele disse ter apresentado a própria demissão, na véspera. Jornais americanos também dizem que Bolton procurou jornalistas para difundir sua versão de que foi ele quem decidiu deixar o cargo.

    Essa é a terceira baixa de um ocupante do cargo de assessor de Segurança Nacional dos EUA durante o mandato de Trump. Antes de Bolton, caíram também Michael Flynn e H. R. MacMaster.

    Independentemente do cargo, a  queda de Bolton é a quinta troca no primeiro escalão na política externa e de segurança nos EUA desde o início do atual governo, em janeiro de 2017.

    João Paulo Charleaux é repórter especial do Nexo e escreve de Paris.ESTAVA ERRADO: A versão original desse texto afirmava que John Bolton nasceu em 1918. Na verdade, ele nasceu em 1948. A informação foi corrigida às 14h15 de 11 de setembro de 2019.

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