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Como os filhos de Bolsonaro propagam o discurso armamentista

Deputado federal Eduardo Bolsonaro, que deseja o ocupar o cargo de embaixador do Brasil em Washington, exibiu pistola na cintura ao visitar o pai no hospital, em São Paulo

     

    O deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), filho do presidente Jair Bolsonaro, tem intensificado aparições públicas com uma arma à mostra. Na segunda-feira (9), ao visitar seu pai no Hospital Vila Nova Star, em São Paulo, onde Bolsonaro se recupera de uma cirurgia no abdômen para corrigir uma hérnia no local onde recebeu uma facada em 2018, Eduardo revelou que carregava uma pistola na cintura.

    No dia seguinte, ao participar de um evento com empresários na sede da Firjan (Federação das Indústrias do Rio de Janeiro), na capital fluminense, o deputado também apareceu armado. Segundo o jornal O Globo, ele pediu aos presentes para que não ficassem com medo.

    Em julho de 2019, ele já havia sido fotografado com a arma à mostra ao lado do apresentador Silvio Santos e do irmão Flávio Bolsonaro, depois de gravar um programa no SBT. Uma cena semelhante ocorreu em novembro de 2014, quando ele discursou num carro de som na avenida Paulista, em São Paulo, durante um ato contra a então presidente Dilma Rousseff. Na ocasião, foi flagrado com uma pistola sob a camisa.

     

    Formado em direito, Eduardo é escrivão da Polícia Federal desde 2010, o que o permite portar armas de fogo. Ele está licenciado do cargo. Em 2014, afirmou à revista Veja que sair de casa sem a arma era “o mesmo que esquecer a carteira”. “Tenho o dever de proteger a sociedade e a mim mesmo, já que muitos colegas são atacados também fora de serviço”, disse, na ocasião.

    Eduardo, que deverá ser indicado pelo pai para o posto de embaixador do Brasil em Washington, nos Estados Unidos, é um dos mais aguerridos defensores da flexibilização da posse e do porte de armas no Congresso Nacional. Desde o início de 2019, fez mais de 60 publicações no Twitter sobre o tema. Nas redes sociais, costuma publicar fotos e vídeos em que aparece disparando em clubes de tiro, visitando feiras de armas e munições nos Estados Unidos e reunindo-se com representantes da indústria armamentista.

    Em 16 de abril, ele publicou um vídeo em que aparece treinando. “Comprei uma arma nova e, claro, fui testá-la. Não existe preparo para um tiroteio, existe treinar para reduzir os riscos. Treinamos e gostamos de tiro, talvez você curta outras atividades e você é a melhor pessoa para viver a sua vida e não o Estado te dizendo o que é certo”, disse.

    Desde 2015, quando iniciou seu primeiro mandato como deputado federal, Eduardo já apresentou ao menos nove projetos de lei relacionados às armas. Em 2018, ele propôs que o embarque de pessoas armadas em aeronaves civis fosse autorizado.

    Também já defendeu, em 2015, que o Estado emprestasse uma arma para quem tivesse a própria apreendida pela Justiça após tê-la usada em defesa da própria vida ou da de terceiros. Também defendeu que agentes de segurança recebessem, como doação quando se aposentassem ou entrassem para a ativa, armas das instituições em que atuavam.

    O clube de tiros com Carlos

    Quem também costuma divulgar fotos com armas de fogo é o vereador pelo Rio de Janeiro Carlos Bolsonaro (PSL), conhecido pelas críticas agressivas feitas pelas redes sociais aos opositores e até aos aliados de seu pai. Ele foi o responsável pela demissão do ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Gustavo Bebianno, com menos de dois meses de governo, e já atacou o vice-presidente, Hamilton Mourão.

    Em julho de 2019, Carlos publicou uma foto na Agency Arms, uma “pequena e extremamente moderna estrutura” nos Estados Unidos que se dedica a “acessórios de extrema qualidade”, segundo o vereador.

    “No Brasil ainda enfrentamos uma gigantesca série de obstáculos que precisam ser rompidos para chegar ao nível norte-americano. Entretanto acredito que, com a força e o conhecimento da população, um dia cheguemos perto disso”, afirmou. Para ele, a indústria das armas poderia contribuir com tecnologia e geração de empregos no país.

    Ao lado do irmão Eduardo, Carlos costuma frequentar o Clube e Escola de Tiro .38, na região metropolitana de Florianópolis, em Santa Catarina. Durante um fim de semana, período em que um curso de tiro no local pode custar até R$ 5.950, Carlos chega a disparar até 1.000 tiros, segundo reportagem da revista Época publicada em maio de 2019.

    Todos os decretos do presidente

    Desde o início do mandato, Jair Bolsonaro, cujo símbolo de campanha foi fazer o gesto de arminhas com as mãos, editou sete decretos sobre armas. Apenas três deles estão valendo.

    A seguir, o Nexo lembra o vaivém nos decretos do governo.

    O decreto de janeiro

    No dia 15 daquele mês, o presidente assinou o decreto 9.685, que permitia a compra de até quatro armas e ampliava o direito à posse.

    Os decretos de maio

    Em 7 de maio, foi publicado o decreto 9.785, que revogava o anterior e concedia o direito de porte de arma a cerca de 20 categorias profissionais. O proprietário rural passou a ter o direito de portar a arma em toda a extensão da propriedade. O texto permitiu ainda a compra de um tipo de fuzil de uso exclusivo das forças policiais.

    No dia 21 de maio, por conta da polêmica gerada pela autorização da compra de fuzis e outras armas de grosso calibre, foi publicado o decreto 9.797, para estabelecer que o Exército iria editar, no prazo de 60 dias, uma portaria listando as armas que poderiam ou não ser compradas. O texto manteve os benefícios de porte do decreto anterior.

    Os decretos de junho

    Apenas no dia 25 de junho, Bolsonaro editou mais quatro decretos. O primeiro, 9.844, revogava os anteriores, de maio (que já haviam sido derrubados pelo Senado), mas continuava facilitando a concessão de porte de arma no país, incluindo o direito de compra de fuzil.

    O segundo, 9.845, passou a tratar apenas da posse de arma (direito de manter em casa ou no trabalho), garantindo o benefício aos produtores rurais de circular com a arma em toda a extensão da propriedade.

    O terceiro, 9.846, abordava a questão da compra e registro de armas para caçadores, atiradores profissionais e frequentadores de clubes de tiros, conhecidos pela sigla CACs. Por meio dele, colecionadores podem ter até cinco armas de uso permitido de cada modelo, caçadores são autorizados a possuir até 15 armas, e atiradores, 30 armas. O mesmo limite foi autorizado para armas de uso restrito.

    Já o quarto, 9.847, revogava o primeiro (9.844) editado no mesmo dia, e mantinha a brecha para compra de fuzil. Também excluía a permissão para porte de arma para mais de 20 categorias e dava mais 60 dias de prazo para o Exército definir quais calibres poderão ser de fato comprados como armas de uso permitido. O texto manteve a permissão à importação de armamento mesmo quando há similar fabricado no país.

    O projeto de lei

    Atualmente, apenas os três últimos decretos estão valendo. No fim de junho, o presidente também enviou ao Congresso um projeto de lei para ampliar o direito de posse de arma (poder mantê-la em casa ou no trabalho) para toda a extensão da propriedade. A proposta ainda altera as regras para o porte (poder transportar a arma), estendendo o direito para quem exerce atividade profissional de risco e ampliando as categorias que se enquadram nela. O projeto ainda não foi analisado.

    Uma visão sobre a exibição de armas

    Para analisar a exibição constante de armas pelo deputado federal Eduardo Bolsonaro, o Nexo ouviu a diretora-executiva do Instituto Sou da Paz, Carolina Ricardo.

    Há uma simbologia por trás dessa exibição ostensiva da arma?

    CAROLINA RICARDO Não sei se há uma simbologia, mas há um recado, uma mensagem. Primeiramente, ele [Eduardo Bolsonaro] é uma pessoa que tem porte e pode usar a arma. Pela lei, ele está autorizado a fazer isso. A questão é o passo entre poder ter a arma e andar com ela e exibi-la ostensivamente, falar e mostrar isso. Faz parte do olhar e de um discurso de que arma é positiva, interessante e bacana. A gente sabe que, no Brasil, pelos dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública, quase 75% dos homicídios são praticados com arma de fogo. É um dado muito alto comparado com outros países, em que a média é cerca de 40%. E, de fato, é um problema carregar alma. Talvez ele queira mostrar que está ali e que nada vai acontecer. E talvez nada aconteça com ele, que está com todos os holofotes. Agora, de quantas pessoas armadas que andam por aí, que frequentem hospitais, reuniões fechadas, eventos, festas, como a gente, de fato, garante que nada vai acontecer? Ele está tentando criar uma visão de que estar e andar com arma é tranquilo, o que a gente sabe que não é. A gente sabe o perfil de parte das nossas mortes, a gente tem acompanhado um crescimento de mortes por discussões, por violência doméstica. Talvez tenha uma mensagem que a arma é inofensiva, mas não é.

    Durante evento na Firjan, o Eduardo pediu para que não ficassem com medo. Armas passam sensação de insegurança?

    CAROLINA RICARDO Claro. Uma mãe com uma criança não quer estar do lado de alguém com uma arma. Por maior destreza que essa pessoa tenha para usá-la, por mais controlada que esteja, a presença de uma arma aumenta exponencialmente o risco de um conflito letal. Seja por conta de uma briga direta ou por uma bala perdida. É mentira essa tentativa de mostrar que é inofensiva. Até porque ele [Eduardo Bolsonaro] fala: “Não tenham medo”. Tem um recado que é simbólico nesse sentido e que dialoga com as iniciativas do governo federal de flexibilização do Estatuto do Desarmamento, de facilitação da posse, e agora do porte, de dar facilidade para que caçadores e colecionadores possam adquirir mais armas e munições. É um recado falso.  

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