Como filmes e séries lidam com a imagem das Torres Gêmeas

Após os ataques de 11 de setembro de 2001, indústria do entretenimento passou a discutir a presença do World Trade Center na cultura pop

O dia 11 de setembro de 2001 ficará marcado pelo emblemático ataque ao World Trade Center, em Nova York, em que o grupo terrorista Al-Qaeda lançou dois aviões à estrutura das Torres Gêmeas e causou o colapso dos prédios.

Há uma miríade de filmes e séries ambientados na cidade – e muitos deles incluem as famosas Torres Gêmeas em suas paisagens.

Após o ataque, a indústria do entretenimento passou a discutir a validade dessas imagens, considerando a remoção dos prédios em produções anteriores a 2001 e questionando a representação das torres em projetos realizados desde então.

Cenas cortadas e imagens removidas

O primeiro filme do Homem-Aranha, lançado em 2002, teve como um de seus teasers uma cena em que o herói da Marvel usava suas teias para prender um helicóptero sequestrado entre as duas torres do World Trade Center.

O teaser foi lançado em 23 de agosto de 2001, poucos dias antes dos ataques. Na versão final do filme, a cena foi removida, bem como qualquer imagem do World Trade Center.

A série “Família Soprano”, que estreou na HBO em 1999, trazia em sua sequência de abertura um plano onde o protagonista Tony Soprano via as torres no retrovisor de seu carro. Depois de 11 de setembro de 2001, esse elemento foi removido. O mesmo aconteceu com “Sex and the city”, outra série da HBO que tinham as Torres Gêmeas em sua abertura.

Em “Friends”, o World Trade Center aparecia em sequências de transição de cena e em algumas versões da abertura da sitcom. Essas imagens foram removidas nas últimas três temporadas do seriado.

A comédia “Zoolander”, estrelada por Ben Stiller, estreou em 28 de setembro de 2001, pouco após os ataques. Stiller, que também foi produtor executivo do longa, correu para digitalmente remover as torres do filme antes do lançamento.

O longa “O Articulador”, estrelado por Al Pacino, tinha cenas que mostravam o World Trade Center e que foram removidas antes da estreia, em abril de 2003. Elas ainda podem ser vistas como conteúdo extra do DVD do filme.

Casos em que as torres foram mantidas

Algumas produções que foram gravadas em Nova York antes dos atentados e que estrearam após 11 de setembro de 2001 optaram por manter as torres em suas cenas.

“Glitter - O Brilho de uma estrela”, filme estrelado por Mariah Carey, chegou aos cinemas americanos 10 dias após o ataque. A produção optou por manter o World Trade Center em uma das cenas, que recebeu aplausos do público durante as exibições.

Um ano depois, em setembro de 2002, o longa “O Último Suspeito”, estrelado por Robert De Niro, chegou aos cinemas americanos. Em uma de suas cenas, as Torres Gêmeas aparecem ao fundo, com a produção optando por não removê-las.

Diferentes visões sobre o tema

Após o ocorrido, foram várias as discussões na indústria do entretenimento acerca da decisão de remover ou não as torres de filmes e séries lançados antes dos ataques, e sobre como retratá-las em produções posteriores ao 11 de setembro de 2001.

Em entrevista ao jornal The New York Times, Michael Bay, diretor de “Armageddon” e “Transformers”, afirmou que as torres não devem ser removidas de produções antigas.

“Os filmes são gravados, editados e finalizados para o mundo vê-los”, disse. “Eles não podem ser reeditados por conta das mudanças históricas. Se seguirmos esse caminho, significa que teremos de mudar todos os filmes. Todos os livros, contos e pinturas de Nova York nos últimos 30 anos. Nunca terminaríamos”, completou.

Essa visão é corroborada por Jan Seidler Ramirez, curadora do memorial construído no local onde ficavam as torres. Na mesma reportagem do New York Times, Ramirez afirma que os filmes que trazem o World Trade Center são uma oportunidade para se lidar com a perda e uma chance para que jovens que não chegaram a ver os arranha-céus possam vê-los de alguma forma.

A decisão de remover as Torres Gêmeas da comédia “Zoolander” foi criticada na época. Na revista New York, o crítico de cinema Keith Phipps afirmou que a decisão de Stiller foi equivocada por criar a ilusão de que as torres nunca estiveram lá.

Stiller defendeu sua decisão em outubro de 2001, dizendo que fez o que acreditava que seria o certo dada a conjuntura do país e do mundo após os ataques.

Também ao New York Times, Sam Raimi, diretor do primeiro filme do Homem-Aranha, classificou a discussão como uma das questões centrais na “etiqueta social” americana. Raimi contou que decidiu remover a cena com o World Trade Center por  medo de que familiares das vítimas fossem assistir ao longa em busca de escapismo e saíssem do cinema lembrando de suas perdas.

Ao jornal inglês The Guardian, um porta-voz da HBO disse, em 2002, que a decisão de remover o World Trade Center da abertura de “Família Soprano” foi tomada porque a produção sentia que seria inapropriado mostrar os prédios após o ocorrido.

O americano sente desconforto em relação à presença das torres em produções feitas depois de 2001, segundo a revista Entertainment Weekly. Em 2013, a HBO produziu a série “The Carrie diaries”, um prólogo para a protagonista de “Sex and the city”. À época, a produção optou por não inserir o World Trade Center no horizonte nova iorquino.

“Se um adolescente que perdeu um familiar estivesse vendo a série e isso causasse dor a eles, não teria valido a pena”, disse à revista a produtora executiva Amy B. Harris.

Na visão do New York Times, a presença do World Trade Center em filmes e séries é “um tributo, mas também um lembrete doloroso” do que aconteceu em 11 de setembro de 2001.

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