O que mudou em como moradores de São Paulo se deslocam pela cidade

Edição de 2019 de pesquisa sobre mobilidade urbana revela os meios de transporte mais usados e o tempo médio que habitantes gastam no deslocamento diário

     

    O tempo médio gasto pelos paulistanos em seus deslocamentos diários diminuiu 18 minutos em 2019 em comparação com o ano anterior, segundo os próprios moradores da cidade. Em 2018, eram gastos em média 2h43 no trânsito, levando em conta o total de deslocamentos diários, reduzidos para 2h25 em 2019.

    A informação aparece na edição de 2019 da pesquisa “Viver em São Paulo: mobilidade urbana”, realizada pela organização Rede Nossa São Paulo em parceria com o Ibope (Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatística) e lançada na terça-feira (10).

    De 3 a 19 de agosto de 2019, a pesquisa realizou 800 entrevistas com moradores de São Paulo com 16 anos ou mais, e buscou medir a percepção dos participantes sobre como eles se deslocam na cidade.

    Os entraves da mobilidade urbana na capital paulista ficaram em evidência, ainda mais do que em dias normais, entre 5 e 6 de setembro de 2019, quando funcionários de empresas de ônibus entraram em greve.

    Eles protestavam contra a retirada de veículos da frota e a possível extinção da função de cobrador, duas medidas que provocariam demissões, além de terem reivindicado o pagamento da Participação nos Lucros ou Resultados pelas empresas.

    O serviço de transporte coletivo funcionou parcialmente nesses dias e a paralisação chegou ao fim na sexta-feira (6) após a assinatura, pelo prefeito Bruno Covas (PSDB), de contratos de licitação de ônibus com 15 anos de duração. Devido a um impasse no processo de concessão, o sistema de ônibus de São Paulo vinha funcionando com contratos emergenciais desde 2013.

    No final de agosto de 2019, Covas apagou pelo menos sete ciclovias, o que gerou reações de ciclistas. A CET (Companhia de Engenharia de Tráfego) informou que os trechos seriam apenas reformados. Até o fim de seu mandato, no final de 2020, o prefeito promete entregar 9,4 km de corredores de ônibus, 173 km de infraestrutura cicloviária, além de promover melhorias em 310 km de ciclovias e ciclofaixas já existentes.

    A percepção da mobilidade em 2019

    Ao Nexo a coordenadora da Rede Nossa São Paulo, Carolina Guimarães, destacou a redução do tempo médio diário de deslocamento na cidade revelada pela pesquisa e levantou algumas razões que podem explicá-la.

    Entre elas, estão as novas estações de metrô nas Zonas Sul e Oeste e o funcionamento do monotrilho na Zona Leste. Guimarães também cita políticas públicas de gestões anteriores, como as faixas exclusivas para ônibus criadas por Fernando Haddad (PT), e a diminuição do limite de velocidade (que, ao evitar acidentes, acaba por elevar a velocidade média nas vias), como fatores que também contribuem para um tempo menor de deslocamento para os habitantes.

    A pesquisa também revelou que, entre os respondentes que possuem carro, 39% usou o veículo com menor frequência no último ano, o que pode ter aberto espaço no trânsito.

    Guimarães destaca ainda o aumento nos deslocamentos feitos a pé, que atingiram o maior patamar desde 2015. Ainda que o dado tenha um aspecto positivo, ele pode estar conectado, segundo ela, às mudanças recentes nas políticas de vale-transporte, indicando que mais pessoas têm andado a pé para reduzir custos. Em março de 2019, entrou em vigor a redução de quatro para duas viagens permitidas em um período de até três horas mediante o pagamento de uma só tarifa.

    Cerca de 4 em cada 10 entrevistados (42%) afirmaram ter sido muito afetados pelas mudanças na política de vale-transporte. Entre os usuários dos ônibus municipais, houve crescimento este ano, em relação a 2018 e 2017, do percentual de entrevistados que deixam de ir a consultas médicas e exames por conta do preço da passagem.

    Como os paulistanos usam o transporte

    Assim como nos anos anteriores, o ônibus municipal segue sendo o modal utilizado com mais frequência pelos habitantes da cidade. Ele foi apontado como meio de transporte mais usado por 47% dos entrevistados, seguido por carro próprio (20%), metrô (12%) e a pé (6%). Em quinto lugar (5%) aparece o transporte particular solicitado por aplicativos como Uber, Cabify, 99 Pop e outros.

    48%

    dos entrevistados usa ônibus municipal de uma a cinco vezes por semana

    Com relação a aplicativos de transporte, 60% dos entrevistados os utilizam para solicitar táxi ou transporte particular como o Uber. Esse uso acontece em todas as regiões da cidade, mas a porcentagem de usuários é maior no centro e na Zona Oeste.

    Em segundo lugar, mencionados por 27% dos participantes, vêm aplicativos voltados para o ônibus, como Cadê o ônibus. Eles são usados na consulta do horário de chegada e partida, do itinerário e do tempo de trajeto.

    O Nexo destaca abaixo descobertas da pesquisa relacionadas aos diferentes tipos de transporte:

    Ônibus

    • Usuários de ônibus municipal apontam, nesta ordem, a lotação, o preço da tarifa e a frequência dos ônibus como os problemas que mais precisam ser resolvidos com relação a esse meio de transporte
    • Entre aqueles que não andam de ônibus municipal ou o fazem até duas vezes por semana, as razões mais citadas para evitar esse meio de transporte são a lotação, a demora no trajeto e o uso do carro
    • 20% dos que não usam ou que usam até duas vezes na semana o ônibus citam o preço da tarifa, razão que apresenta uma tendência de crescimento desde 2017

    Automóvel

    • O uso do automóvel com “alguma frequência” se mantém em relação aos últimos dois anos
    • O uso do automóvel todos os dias, quase todos os dias ou de vez em quando é maior quanto maior a classe social, a renda e a escolaridade
    • A predisposição dos usuários frequentes de carro a deixar de usá-lo, no entanto, cresceu: atualmente, 50% deixaria com certeza e 28% provavelmente deixaria caso houvesse uma boa alternativa de transporte público
    • O carro era o meio de transporte usado com mais frequência por 22% dos respondentes em 2017, 24% em 2018 e 20% em 2019

    Mobilidade ativa: bicicleta e caminhada

    • Para os que nunca utilizam bicicleta, mais segurança para os ciclistas é o fator mais mencionado (33%) como o que falta na cidade para que eles adotem o meio de transporte
    • Furtos/roubos e o desrespeito dos motoristas e motociclistas são o que mais impacta a vontade de usar as ciclovias e ciclofaixas na cidade
    • Entre todos os entrevistados, 76% andam a pé todos os dias, quase todos os dias ou de vez em quando
    • Quando circulam como pedestres, 85% dos paulistanos se sentem pouco ou nada seguros.

    Percepção sobre política públicas

    A maioria dos entrevistados é favorável às seguintes políticas:

    • Aplicação de multa para veículos que param em cima da faixa de pedestres ou das calçadas (86%)
    • Construção e ampliação de corredores e faixas exclusivas de ônibus (87%)
    • Construção e ampliação das ciclovias e ciclofaixas (82%)
    • Substituição das vagas para veículos particulares por áreas de uso público como faixas de ônibus, alargamento de calçadas, ciclovias e parklets (65%)
    • Redução das velocidades praticadas nas ruas e avenidas da cidade (56%)

    A aplicação de multa de trânsito para pedestres foi a única medida a que a maioria (47%) dos entrevistados foi contra.

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