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Como Robert Frank capturou um outro lado dos Estados Unidos

Autor de fotolivro paradigmático, com visão aguda sobre as fissuras na prosperidade e otimismo dos EUA do pós-guerra, fotógrafo e cineasta morreu aos 94 anos

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O fotógrafo suíço-americano Robert Frank morreu na segunda-feira (9), aos 94 anos, em uma pequena cidade chamada Inverness, no Canadá. A causa da morte não foi divulgada.

Seu trabalho mais conhecido é o fotolivro “Os americanos”, publicado nos Estados Unidos em 1959. O livro contém 83 fotografias em preto e branco. Ele projeta sobre a sociedade americana um olhar distinto do otimismo e da aparente perfeição que predominavam nas imagens veiculadas em revistas, no cinema e na televisão à época.

“Em um país que não era o seu, Frank assumiu a posição singular de um outsider e voyeur que captou discretamente as tensões da diversidade geográfica, econômica, racial e religiosa dos Estados Unidos”, diz um trecho do perfil do artista no site do MoMA (Museu de Arte Moderna de Nova York).

No livro de Frank há cowboys, carros, bandeiras americanas, jukeboxes, jovens, velhos, negros, brancos, pobres, ricos – por vezes registrados de maneira melancólica e áspera. Abaixo, o Nexo lista aspectos da obra do fotógrafo que o tornaram relevante.

Desafiou a fórmula do fotojornalismo da época

A fotografia jornalística e documental da década de 1950 era, via de regra, nítida, “limpa”, bem iluminada e de composição clássica.

Na juventude, Frank foi um admirador do trabalho de Henri Cartier-Bresson, criador do “instante decisivo” – um momento preciso de dar o clique que estaria por trás das grandes fotografias – e um dos fundadores da Agência Magnum em 1947.

Mais tarde, passou a rejeitar o estilo do fotógrafo francês, tido por ele como a representação da falta de substância do fotojornalismo, que, para Frank, simplificava demais o mundo.

Em “Os americanos”, Robert Frank contrariou em boa medida aquilo que era visto como boa fotografia na época.

“O conjunto era particular: havia e não havia imagens ‘decisivas’; algumas eram ‘simples’ ou faziam ligações contundentes; em outras o foco era deslocado de uma maneira inversa ao usual; umas pareciam ter sido feitas rapidamente por estarem tortas; outras ainda apontavam para a relação que o autor estabelecia com o fotografado; e havia algumas que apresentavam os grãos nas cópias, bem visíveis”, descreve João Luiz Musa, fotógrafo e professor de fotografia no curso de Artes Plásticas da USP, em um texto publicado pelo Instituto Moreira Salles.

 

À época da publicação do fotolivro “Os americanos”, o crítico Arthur Goldsmith, da revista Popular Photography, definiu as imagens por meio de seu “desfoque sem sentido, grão, exposição turva, horizontes bêbados e um desleixo generalizado”.

Divergiu da imagem otimista sobre os EUA

Inspirado pela pintura, Frank produziu imagens de composição “tão  instável quanto o sonho americano”, na comparação feita pelo site Mental Floss, cujas sombras, desfoques e enquadramentos revelavam detalhes que as técnicas tradicionais levavam o espectador a ignorar.

Enquanto muitas imagens nas revistas, na TV e no cinema difundiam o “american way of life”, seu retrato dos Estados Unidos da década de 1950 estava “provocativamente fora de sintonia com o otimismo insistente que com frequência caracterizava a autoestima dos americanos no pós-guerra”, segundo define o MoMA.

Muitas fotos de Frank transmitem um clima sombrio, que remete às tensões de classe e raça do país na década de 1950. Também encontrou beleza em coisas simples e cantos escondidos. Seu retrato beatnik do país fascinou Jack Kerouac, autor de “On the road”, que assinou a introdução de “Os americanos”.

Contribuiu para a popularização de um estilo

O estilo de Frank influenciou uma geração posterior de fotógrafos, como Annie Leibovitz (1949) e Diane Arbus (1923-1971). Ele é apontado pelo jornal The New York Times como um precursor da “snapshot aesthetic” (estética instantânea), que se fortaleceu nos anos 1960 e consiste, grosso modo, em fotos imperfeitas, aparentemente “impulsivas” que tentam capturar algo de autêntico e espontâneo do cotidiano.

A trajetória do fotógrafo

Robert Frank nasceu em Zurique em 1924, filho de mãe suíça e pai alemão e judeu. Chegou aos Estados Unidos em 1947, tornando-se fotógrafo de revistas como Harper’s Bazaar, Fortune e Life.

Viajou pela América Central e do Sul em 1948, conhecendo o Peru dos Andes à Amazônia peruana e passando rapidamente por Manaus, no que foi sua única visita ao Brasil.

Em 1954, o fotógrafo se candidatou para a Bolsa Guggenheim para financiar o projeto que daria origem ao livro “Os americanos”.

Frank obteve o aporte e viajou milhares de quilômetros ao longo de dez meses – em um carro usado, carregado de duas câmeras e centenas de rolos de filme – percorrendo mais de 40 estados americanos e chegando a tirar, de acordo com suas contas, mais de 27 mil fotos, entre as quais selecionaria menos de cem para o livro.

Após a publicação de “Os americanos”, Frank passou a se dedicar a fazer filmes. Seu primeiro, um curta-metragem chamado “Pull my daisy” (1959), adaptação de uma peça de Jack Kerouac, é considerado um marco do cinema de vanguarda americano.

Mas o mais popular de seus filmes é “Cocksucker Blues” (1972), documentário sobre a turnê do álbum “Exile on Main Street”, dos Rolling Stones, que acabou interditado judicialmente pelo vocalista Mick Jagger devido ao registro de Frank do consumo de drogas e do sexo grupal praticados por membros da banda.

Ainda na década de 1970, o artista se instalou no interior do Canadá e voltou a fotografar. Embora o fotolivro de 1959 seja a obra mais aclamada de Frank, o álbum pode ser visto como um primeiro passo na direção do que ele viria a fazer nas décadas seguintes, em que explorou vários formatos, como colagem, fotomontagem e polaroid, e assumiu uma vertente mais autobiográfica.

Frank dirigiu mais de 20 filmes e também publicou outros livros, como “Peru” (1948), “Black White and Things” (1952) e “Seven Stories” (2009).

 

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