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Por que a derrota de Putin, mesmo pequena, é significativa

Após protestos e uma campanha de perseguição a opositores, partido do presidente russo vê encolher bancada no parlamento de Moscou

     

    Partidos de oposição ao presidente russo Vladimir Putin conquistaram, neste domingo (8), 19 dos 45 assentos da Assembleia Legislativa de Moscou. As eleições foram para renovar 19 chefes de Executivos regionais e 13 parlamentos locais.

    O bloco ligado ao partido Rússia Unida, de Putin, perdeu 12 assentos. Antes, tinha 38 e, agora, conseguiu 26. Já o Partido Comunista foi de 5 para 13 assentos, enquanto os pouco expressivos Iaboklo e Rússia Justa ficaram com 3 assentos cada um.

    Objetivamente, não foi uma grande perda para Putin. O partido dele segue tendo maioria no Legislativo da capital, que é um órgão de alcance local, cujas decisões não são transcendentes para a política nacional. Além disso, todos os atuais governadores do Rússia Unida conseguiram manter seus cargos nesta eleição. Na prática, portanto, muito pouco mudou.

    Ainda assim, a oposição comemorou o resultado como se fosse uma grande vitória simbólica. A comemoração se deve ao fato de a Comissão Eleitoral russa ter barrado, em agosto, dezenas de candidaturas de oposição em todo o país, enquanto a polícia reprimiu os que protestavam contra essa decisão.

    A divulgação dos resultados da eleição foi encarada por milhares de russos como um sinal de que é possível construir candidaturas que façam frente a Putin, mesmo num cenário de detenções arbitrárias, cassações de candidaturas e restrições à liberdade de imprensa no país.

    5 mil

    foi o número de eleições locais realizadas neste domingo em toda a Rússia

    Qualquer um, menos Putin

    A estratégia adotada pela oposição russa nesta eleição foi batizada de “voto inteligente” ou “voto útil”. Ela consistia em simplesmente concentrar todos os votos da oposição no candidato que tivesse maiores chances, desde que fosse um candidato que estivesse contra Putin e contra o partido governista Rússia Unida.

    A ideia partiu do maior líder dos protestos de oposição hoje na Rússia, Alexei Navalny. “Esse é um resultado excelente. Nós lutamos muito por ele”, disse Navalny sobre os números.

    Desde 2008, o advogado, blogueiro e ativista já foi preso diversas vezes na Rússia por comandar protestos realizados sem autorização prévia do governo. Ele mesmo disputou a prefeitura de Moscou em 2013, mas acabou com apenas 27,2% dos votos à época. De lá para cá, diversificou as estratégias, até celebrar o resultado deste domingo (8) como ativista, e não mais como candidato.

    O revés para a legenda de Putin atingiu figuras importantes, como Andrej Metelski, líder do partido Rússia Unida em Moscou, que ficou sem mandato. 

    Impopularidade e repressão

    Putin foi reeleito presidente pela quarta vez em 2018 e, pelo menos em tese, deve deixar o cargo em 2024. Na eleição de um ano atrás, ele teve 76% dos votos. Hoje, sua popularidade está em torno de 60%.

    Além de presidente, Putin foi também primeiro-ministro da Rússia por quatro anos. Ele não disputava nenhum cargo nesta eleição. O que estava em jogo era o desempenho de seu partido, de forma mais ampla.

    Mandatos de Putin

    1999-2000

    Como vice, assume a presidência por apenas um ano, após a renúncia do então presidente russo, Boris Yeltsin.

    2000-2008

    É eleito e reeleito presidente. Cumpre, portanto, seu primeiro mandato completo, por quatro anos. E repete o período em seguida.

    2008-2012

    Passa quatro anos como primeiro-ministro da Rússia, enquanto seu apadrinhado político, Dmitri Medvedev, assume a presidência.

    2012-2017

    Volta a eleger-se presidente, desta vez com mandato de seis anos.

    2018-2024

    Vence a eleição presidencial e inicia o que deve ser seu último mandato, caso a Constituição seja respeitada.

    As fissuras abertas na popularidade de Putin são uma novidade. Até 2018, ele vinha mirando numa fórmula que ficou conhecida como 70/70, ou seja, 70% de comparecimento nas urnas (o voto não é obrigatório) e 70% dos votos para si.

    Uma das causas do desgaste é a reforma da Previdência realizada em 2018, que aumentou a idade mínima para a aposentadoria no país. Os homens se aposentavam aos 60. Agora, se aposentam aos 65. As mulheres se aposentavam aos 55. Agora, o fazem aos 60. Além disso, a economia do país cresce abaixo do esperado.

    Outro fator que contribui para a impopularidade do presidente e de seu partido é a onda de repressão contra opositores. Mais de 50 mil pessoas saíram às ruas de Moscou em agosto de 2019, depois da cassação das candidaturas de opositores.

    O órgão eleitoral questionou a validade das assinaturas recolhidas para embasar as candidaturas independentes, mas os manifestantes consideraram a medida uma fraude e uma perseguição a mando de Putin.

    Com a polícia reprimindo as manifestações nas ruas, cresceu a sensação de que o governo está interessado, de fato, em evitar que alguém faça sombra aos setores governistas.

    “As ações duras das forças de segurança impulsionam o protesto e garantem uma alta participação [eleitoral]”, disse o consultor político russo Abbas Gallyamov à agência Deutsch Welle. “O principal fluxo de notícias negativas [para o governo] é fornecido agora pelos oficiais de segurança. São eles que dão emoção aos protestos.”

    João Paulo Charleaux é repórte especial do Nexo e escreve de Paris.

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