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O órgão americano que era dedicado a censurar quadrinhos

Código foi criado nos anos 50 por membros do próprio mercado após a publicação de um livro que relacionava HQs à delinquência juvenil

    O prefeito do Rio de Janeiro, Marcelo Crivella, tentou censurar na sexta-feira (6) uma HQ dos Vingadores na Bienal Internacional do Livro. Depois de um embate jurídico, a medida acabou proibida pelo Supremo Tribunal Federal.

    A censura de quadrinhos já aconteceu nos Estados Unidos. Nos anos 50, o órgão Comics Code Authority (Autoridade do Código dos Quadrinhos) surgiu como uma forma de regular os temas e abordagens das HQs.

    Fredric Wertham e a ‘Sedução dos Inocentes’

    Na década de 50, quando a televisão não era uma grande força cultural nos EUA, quando o cinema era principalmente direcionado ao público adulto e os videogames ainda não existiam, os quadrinhos eram a principal forma de entretenimento das crianças e adolescentes americanos.

    À época, a editora National Comics Publications (atualmente conhecida como DC Comics) já lançava as histórias do Batman, do Superman e da Mulher-Maravilha. A concorrente Atlas Comics (atual Marvel Comics) já tinha o Capitão América em seu catálogo desde 1940.

    Nos primeiros anos da década de 50, as duas editoras vendiam de 5 a 9 milhões de unidades de quadrinhos mensalmente.

    Desde 1948, Fredric Wertham, psiquiatra alemão naturalizado americano, estava em um combate contra os quadrinhos. Naquele ano, publicou um artigo intitulado “A psicopatologia dos quadrinhos”, em que afirmava que as HQs causavam efeitos negativos nas mentes dos jovens.

    A obra mais conhecida de Wertham é o livro “A Sedução dos Inocentes”, publicado originalmente em 1954. No livro, o psiquiatra afirmou que os quadrinhos eram uma das causas da delinquência juvenil, devido ao conteúdo das histórias, que, segundo ele, muitas vezes traziam cenas violentas ou com algum tipo de conotação sexual. Para Wertham, a parceria entre Batman e Robin era um exemplo de conteúdo homossexual oferecido para as crianças.

    A criação do código e sua ascensão

    A publicação de “A Sedução dos Inocentes” causou impacto nos Estados Unidos. Em decorrência do livro de Wertham, o Subcomitê de Delinquência Juvenil do Senado americano convocou figuras importantes da indústria dos quadrinhos para prestar depoimentos sobre o assunto.

    Um dos intimados era William Gaines, da editora EC Comics, que publicava quadrinhos de terror. Durante o depoimento, Gaines foi questionado acerca de uma capa da revista “Histórias de Suspense e de Crime”, que trazia uma mulher decapitada por um machado.

    Um senador perguntou se Gaines acreditava que a capa era de “bom gosto”. O editor afirmou que para uma publicação de terror, sim, a capa era de bom gosto na visão dele.

    A fala repercutiu na mídia nacional, acirrando a opinião pública acerca dos quadrinhos, algo que impactou as vendas de diversas editoras. Nessa época, 15 delas abandonaram o mercado. As remanescentes se movimentaram, buscando uma solução que agradasse os dois lados.

    Em outubro de 1954, essas editoras se uniram, formando a Associação Americana das Revistas em Quadrinhos. O órgão, autorregulatório, então redigiu o Comics Code Authority. Alguns dos artigos presentes no texto eram:

    • Crimes jamais poderão ser apresentados de maneira com que o leitor crie alguma simpatia com o criminoso
    • Cenas com violência extrema são proibidas
    • Os quadrinhos não poderão usar a palavra “horror” ou “terror” em seus títulos
    • O divórcio não pode ser tema de piada, e nem retratado como algo desejável
    • O respeito pela família e pela moral e bons costumes deve ser nutrido
    • Perversões sexuais são proibidas

    Se as editoras cumprissem as diretrizes do código, elas recebiam um selo de aprovação da associação.

    À época, as distribuidoras de quadrinhos, que entregavam as revistas aos pontos de venda, entraram em acordo com a associação para aceitarem distribuir apenas as HQs que contassem com o selo.

    Os títulos publicados pelas principais editoras do mercado passaram a adotar um tom mais infantil e cômico. Um exemplo da mudança está na representação do Coringa, arqui-inimigo do Batman. O vilão, que era um criminoso cruel, se tornou uma figura fundamentada na comédia. A série de TV do herói transmitida a partir de 1966 estava alinhada com o clima das HQs.

    Comics Code Authority e a comunidade LGBTI

    Além de restringir certos temas e abordagens, o Comics Code Authority fez com que a comunidade LGBTI ficasse de fora das páginas de quadrinhos. Personagens homossexuais, bissexuais ou transsexuais se encaixavam na “perversão sexual” prevista no código.

    A primeira aparição de um super-herói LGBTI nos quadrinhos americanos aconteceu em 1979, quando o roteirista John Byrne criou o personagem Estrela Polar, parte do universo dos X-Men.

    Embora a homossexualidade do herói não fosse explícita ao leitor, Byrne dava diversas pistas sobre isso e falava abertamente sobre o tema em convenções de quadrinhos por todo os Estados Unidos.

    Os X-Men, inclusive, sempre estiveram na vanguarda das discussões sociais nos quadrinhos de super-heróis. Os personagens foram criados por Stan Lee em 1963 como uma alegoria ao Movimento dos Direitos Civis dos negros americanos.

    O declínio do código

    Em 1973, Wertham publicou o livro “O Mundo das Fanzines”, onde apontava os aspectos positivos dos quadrinhos independentes, da fantasia e da ficção científica para o desenvolvimento criativo e cognitivo dos jovens.

    Em entrevista ao site Seattle Star, o quadrinista e pesquisador dos quadrinhos Leonard Rifa afirmou que a mudança na visão do psiquiatra aconteceu porque ele passou a ver os quadrinhos independentes como uma forma de expressão que deveria ser aplaudida.

    O Comics Code Authority começou a perder forças nos anos 70 e 80. Os adolescentes que compunham a base demográfica de consumidores de quadrinhos estavam envelhecendo e já não tinham mais tanto interesse nas histórias que se enquadraram nos termos do código.

    Ao mesmo tempo, lojas especializadas em quadrinhos estavam em ascensão, dando espaço para novas editoras e quadrinistas independentes, que ignoravam as diretrizes do Comics Code Authority, criando histórias direcionadas ao público adulto, como Robert Crumb, artista que ficou conhecido por trazer o punk para as HQs.

    Em 1983, a DC Comics deu ao quadrinista britânico Alan Moore carta branca para reimaginar o personagem Monstro do Pântano. Moore apostou em uma abordagem adulta para o herói, sendo um sucesso de crítica e de vendas.

    Três anos depois, a editora incumbiu ao roteirista e desenhista Frank Miller a tarefa de criar uma história sombria e adulta para o Batman. O resultado foi “Batman: O Cavaleiro das Trevas”, minissérie dividida em quatro partes, publicada em 1986, que se tornou uma das HQs mais importantes de todos os tempos.

    As editoras foram aos poucos abandonando as diretrizes do código nas décadas seguintes, fazendo com que ele acabasse oficialmente em 2011.

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