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Discriminação contra mulheres: como relatos viram tirinhas

Série #aconteceucomigohq coleta histórias via formulários que depois são trabalhadas por uma quadrinista amazonense

     

    Experiências reais de mulheres que viveram episódios de racismo, gordofobia, exposição de imagens íntimas, assédio sexual, relacionamento abusivo, gravidez não planejada, que descobriram ter uma sexualidade ou identidade de gênero fora do padrão ou foram diagnosticadas com doenças raras são transformadas em narrativas curtas e ilustradas pela série #aconteceucomigohq.

    Criadas pela quadrinista amazonense Laura Athayde, as tirinhas são publicadas nas redes sociais (Instagram, Facebook, Tumblr e mais recentemente no Twitter) e devem ser reunidas em um livro programado para 2020, quando Athayde tiver chegado a 70 histórias.

     

    A série faz parte da exposição “O Tempo das Coisas”, que acontece no Itaú Cultural, em São Paulo, entre 4 de setembro e 3 de novembro de 2019. O perfil de Athayde no Instagram, principal meio de divulgação da série, conta com cerca de 37 mil seguidores.

     

    A série, que teve início em 2015, é alimentada por um formulário, por meio do qual mulheres compartilham situações discriminatórias de seu cotidiano.

     

    Athayde disse ao Nexo que o projeto passou por uma série de hiatos até ser selecionado pelo edital Rumos, do Itaú Cultural, em 2018. Com o apoio, a artista pôde continuar a produzir e publicou 38 novas histórias. 

    A seleção das histórias

    “No início, o critério principal era ter histórias bem diferentes umas das outras, abordando os temas mais variados possíveis”, disse Athayde sobre a seleção dos relatos recebidos, que ela estima até agora em torno de mil histórias.

    A diversidade dos relatos continua sendo uma preocupação, “mas agora levo em consideração que, se recebo muitos relatos sobre determinado tema, isso indica que a questão afeta muita gente, e é importante que isso se reflita na série. Além do mais, um mesmo tipo de discriminação pode tomar várias formas”, afirmou a quadrinista.

    A clareza do relato também é determinante para que seja escolhido. Como Athayde procura interferir o mínimo possível no texto enviado, é importante que a história tenha começo, meio e fim bem definidos.

    Como surgiu a ideia do projeto

    A #aconteceucomigohq começou, de fato, com histórias do dia a dia da autora. “Muitas delas tinham a ver com a experiência de ser mulher em uma sociedade machista como a brasileira”, disse. Por desejar ampliar os temas abordados, decidiu recorrer às vivências de outras mulheres.

    “Eu tinha muitas respostas de pessoas que se identificavam comigo. As tirinhas também acabavam chamando atenção de quem discordava de mim ou achava que tudo não passava de mimimi, gerando debates muito interessantes entre os leitores nos comentários dos posts. Eu comecei a perceber que os quadrinhos podiam ser uma ferramenta para levantar discussões importantes, não apenas sobre machismo, mas também sobre racismo, capacitismo, gordofobia”, disse.

    Com isso, ainda em 2015, Athayde pediu às leitoras que enviassem seus relatos para serem transformados em quadrinhos.

     

    “Pensei que, se as pessoas pudessem enxergar o mundo através dos olhos dessas mulheres, sentiriam mais empatia. Eu queria abordar temas que achava importantes e que sofriam rejeição de muita gente por serem considerados exagero ou vitimização”, disse Athayde. “As pessoas têm a tendência de acreditar que suas experiências individuais são a regra, mas a forma como a sociedade percebe nossos corpos determina vivências muito diferentes para cada um de nós.”

     

    Quadrinistas mulheres na internet

    Advogada de formação, Laura Athayde começou a divulgar seu trabalho como quadrinista usando as redes sociais, como fazem hoje muitos autores independentes e também consagrados. Com o apoio de um financiamento coletivo, ela publicou em 2018 seu primeiro livro “Histórias tristes e piadas ruins”.

    A autopublicação online é especialmente importante para a projeção de quadrinistas mulheres. Athayde é uma entre muitas autoras de quadrinhos que fazem sucesso na internet hoje. Nas publicações e premiações, no entanto, elas ainda são frequentemente sub-representadas.

    Em um exemplo recente, a exposição Quadrinhos, realizada entre novembro de 2018 e maio de 2019 pelo MIS (Museu da Imagem e do Som) de São Paulo, se propunha a fazer uma “ampla retrospectiva da 9ª Arte”, mas deixou as mulheres de fora. A ausência foi questionada pela campanha #cadeasminasnomis.

    “Os espaços tradicionais dos quadrinhos ainda resistem em receber as mulheres”, disse Athayde. “E nisso as redes sociais desempenharam um papel importantíssimo: cortaram a atuação de gatekeepers e intermediários e permitiram que o público acessasse diretamente o conteúdo produzido pelas artistas.”

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