Ir direto ao conteúdo

Quais referências estão por trás do filme Bacurau

A pedido do ‘Nexo’, dois críticos de cinema falam sobre gêneros e obras evocados pelos diretores

    Temas
     

    Antes mesmo de estrear no Brasil, em 29 de agosto de 2019, o filme “Bacurau” já havia sido assistido por mais de 20 mil pessoas em disputadas pré-estreias. No primeiro fim de semana em cartaz, arrecadou R$ 1,5 milhão de bilheteria e foi visto por mais de 86 mil espectadores.

    O público é equivalente ao alcançado ao longo de cinco meses por “O som ao redor” (2012), também dirigido por Kleber Mendonça Filho, segundo disse o próprio cineasta, no Twitter.

    Em “Bacurau”, Mendonça Filho divide direção e roteiro com Juliano Dornelles. Ambientado “daqui a alguns anos”, o filme se passa em torno do ataque estrangeiro a uma vila sertaneja no oeste de Pernambuco: Bacurau.

    Seus habitantes – um professor, uma médica, bandidos, velhos e crianças – se unem para resistir às investidas sanguinolentas dos invasores, em uma contraofensiva violenta à altura dos ataques. Contestada por alguns críticos de cinema e apreciada por outros, a brutalidade de “Bacurau” tem feito a plateia vibrar nos cinemas, segundo relatos de espectadores.

    “Se, de alguma forma, as pessoas se sentem abstratamente justiçadas ao ver esse filme é porque ele trabalha a ideia de um pessoal que se agrupa e responde às injúrias feitas a eles, e isso ressoa politicamente com o clima no Brasil hoje, sobretudo para quem tem uma leitura de que essa ascensão da direita representa o fim de um pacto republicano”, disse ao Nexo o crítico de cinema Ruy Gardnier.

    O filme tem suscitado leituras políticas associadas ao governo de Jair Bolsonaro, mas começou a ser idealizado em 2009 e teve as filmagens concluídas no primeiro semestre de 2018. Para Gardnier, apesar de tocar em aspectos como a autonomia do povo sobre sua terra, o filme não tem como objetivo primordial falar do Brasil de agora e trata, na verdade, de um embate mais amplo.

    Além de uma profusão de análises sobre seus sentidos políticos, “Bacurau” tem despertado uma busca pelas influências que o compõem. A pedido do Nexo os críticos de cinema Marcelo Miranda, do podcast Saco de Ossos, e Ruy Gardnier destrincharam as referências usadas e reconfiguradas pelo filme:

    Cinema americano da década de 1970

    “Bacurau” se relaciona com o imaginário do cinema de gênero internacional – produções de características bem demarcadas como pertencentes a categorias como horror, suspense, ficção científica –, especialmente o americano.

    Estilizadas e esteticamente bem construídas do ponto de vista da mise-en-scène, dos cortes e do tempo, as sequências de violência do filme brasileiro emulam, segundo Miranda, o tipo de cinema feito na década de 1970 por diretores como Sam Peckinpah, Don Siegel e William Friedkin.

     

    "São cineastas que têm a violência como uma explosão, como algo absolutamente inesperado e surpreendente. Ela aparece no filme de rompante, não dá nem tempo de virar o rosto. Isso está muito bem representado na sequência da cabana em 'Bacurau'”, disse o crítico ao Nexo.

    “Tive a sorte de ver o bom momento do cinema americano popular [na década de 1970]. Na verdade, aprendi, já ali, que é possível ser popular e bom. Você não precisa ser popular e ruim. Autoral e inacessível, que eu acho que é uma distorção que existe no cinema brasileiro. Existe sempre o abismo entre filme popular e filme autoral, que é exatamente a junção que tento fazer nos meus filmes”

    Kleber Mendonça Filho

    Em entrevista à revista Continente

    A obra do diretor John Carpenter

    O tom e a atmosfera de “Bacurau” trazem muito do cinema de John Carpenter (“Assalto à 13ª DP”; “Halloween: A Noite do Terror”), de quem os diretores de “Bacurau” são admiradores confessos.

    De Carpenter, o filme brasileiro empresta o clima de estranhamento criado quando algo fora do normal, uma entidade externa, invade um ambiente ou comunidade já estabelecida, sem que se saiba a princípio se tratar ou não de um fenômeno sobrenatural.

    Há ainda alusões mais explícitas ao diretor, entre elas o nome da escola de “Bacurau”, chamada “João Carpinteiro”, e a presença de uma música composta por Carpenter, “Night”, na trilha sonora de “Bacurau”.

     

    A relação com o faroeste

    A estrutura do longa também vem sendo comparada a um filme de faroeste, gênero caracterizado, no geral, por disputas armadas de território.

    Para Marcelo Miranda, porém, a relação de “Bacurau” se dá mais com o faroeste italiano, chamado de “western spaghetti”, do que com o americano.

    Os faroestes italianos normalmente tematizavam pequenas comunidades do oeste americano. Algum tipo de presença externa alterava a dinâmica da cidade, e o enredo terminava em um confronto sangrento. “Companheiros” (1970), de Sergio Corbucci, foi uma inspiração importante para o filme nacional.

    Foto: Divulgação
    Cartaz do filme 'Companheiros', de Sergio Corbucci
    Cartaz do filme 'Companheiros', de Sergio Corbucci
     

    A vertente italiana do gênero se tornou popular na década de 1960, principalmente a partir dos filmes do diretor Sergio Leone, como “Por um punhado de dólares” (1964).

    A influência do Cinema Novo

    “Bacurau” faz ainda referências visuais ao próprio cinema brasileiro, em especial ao sertão apresentado por Glauber Rocha em filmes como “Deus e o diabo na terra do sol” (1964) e “O dragão da maldade contra o santo guerreiro” (1969).

     

    Esse último é apontado por Miranda e Gardnier como o mais próximo, política e visualmente, do filme de 2019. Nele, uma cidade nordestina isolada também precisa enfrentar elementos vindos de fora.

    “Quando fiz ‘Enjaulado’, que estreou no Cine Ceará em 1997, a primeira crítica que saiu foi de um cara dizendo que era um absurdo um realizador do Nordeste, ‘uma região tão forte em folclore’, fazer um filme de paulista, dentro de um apartamento. Isso era o Cinema Novo ensinando a esse cara a como reagir a um filme brasileiro. (...) Hoje, você vê ‘Divino amor’, ‘Permanência’, ‘País do desejo’, ‘Febre do rato’. Nenhum problema em ser da cidade. Isso acabou. É muito curioso ver que o início da grande produção pernambucana era, de certa forma, inovadora e refrescante, mas ainda obedecia às obrigações do cinema brasileiro da época. (...) Aos poucos, a produção foi mudando. E quando a produção mudou, o que a gente faz? Faz ‘Bacurau’, que é um filme no Sertão e com cangaço”

    Kleber Mendonça Filho

    Em entrevista à revista Continente

    O filme de Juliano Dornelles e Kleber Mendonça Filho remete ainda a “Brasil ano 2000” (1969), de Walter Lima Jr., e contém uma referência explícita ao filme “A hora e a vez de Augusto Matraga” (1965), de Roberto Santos.

    A trilha de “Bacurau” se apropria de “Réquiem para Matraga”, música composta por Geraldo Vandré  para o filme de 1965. A letra, para Gardnier, tem “claras ressonâncias dramáticas” no filme contemporâneo.

     

    Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa Equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project. Saiba mais.

    Mais recentes

    Você ainda tem 2 conteúdos grátis neste mês.

    Informação com clareza, equilíbrio e qualidade.
    Apoie o jornalismo independente. Junte-se ao Nexo!