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O que é o Sínodo da Igreja Católica. E por que ele é criticado

Assembleia realizada pelo Vaticano terá Amazônia como principal tema. Governo de Jair Bolsonaro enxerga influência política na pauta ambiental

 

 

A situação dos povos da Amazônia será o tema principal de discussão da Igreja Católica no Sínodo, uma assembleia que reunirá cerca de 250 bispos no Vaticano, entre 6 a 27 de outubro de 2019. A participação majoritária será de representantes do Brasil, Bolívia, Colômbia, Equador, Peru, Venezuela, Suriname, Guiana e Guiana Francesa, que integram a região pan-amazônica, além de representantes dos povos indígenas e especialistas no tema.

 

O encontro é visto com preocupação pelo governo de Jair Bolsonaro, um temor que cresceu após o aumento de queimadas na Amazônia gerar uma crise internacional. O receio do presidente é que o país se torne um alvo da Igreja durante o Sínodo. Em 31 de agosto, ao ser questionado se a Agência Brasileira de Inteligência faz monitoramentos do Sínodo, o presidente respondeu que a agência monitora todos os grandes grupos e disse que há “muita influência política lá sim”

O monitoramento também não foi negado pelo ex-comandante do Exército e assessor do GSI (Gabinete de Segurança Institucional), general Eduardo Villas Bôas, em entrevista na terça-feira (3) ao jornal O Estado de S.Paulo. Em fevereiro de 2019 o veículo havia revelado que a assembleia estava na pauta do governo, que via os assuntos discutidos no Sínodo como “de esquerda”. Naquela época, o ministro-chefe do GSI, general Augusto Heleno, negou o monitoramento.

Segundo Villas Bôas, a preocupação é com o relatório final e as deliberações do Sínodo. Ele afirmou que interferências em questões internas não serão admitidas e que há “viés político” ao tratar das questões ambientais.

 

O Sínodo também tem sido questionado por setores conservadores da Igreja por causa da pauta ambiental. Em meio aos embates, a CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil) em parceria com a Rede Eclesial Pan-Amazônica, promove nesta semana, de 1º a 5 de setembro, uma campanha em apoio ao Sínodo.

 

Em artigo na Folha de S.Paulo na terça-feira (3), o arcebispo de Belo Horizonte e presidente da CNBB, Walmor Oliveira de Azevedo, escreveu que a motivação fundamental do encontro é “avaliar a atuação e a presença missionária da Igreja na Amazônia para cumprir melhor a sua missão”.

O que é o Sínodo

Instituição permanente da Igreja Católica, consiste em uma assembleia de bispos que representa o episcopado católico junto ao papa. O Sínodo é convocado sempre que há alguma necessidade específica para buscar soluções que possam ser aplicadas pela Igreja no mundo. 

 

Criado pelo papa Paulo VI em 1965, seu intuito é dar continuidade ao processo de colaboração entre bispos de diferentes partes do mundo iniciado pelo Concílio Vaticano II, um conjunto de conferências responsáveis por promover uma mudança histórica na Igreja.

 

A palavra Sínodo remete aos termos gregos “syn”, que significa “juntos”, e hodos, “caminho”. O tema é definido pelo papa, com base em um estudo feito pelo Conselho da Secretaria Geral do Sínodo dos Bispos.

 

Como funciona:

Após a definição do tema, é preparada a “Lineamenta”, o documento de trabalho do Sínodo. Primeiro são definidas as linhas gerais do encontro, aprovadas pelo papa. Depois, o documento recebe a contribuição dos bispos

O Conselho Sinodal é um grupo de estudos composto por bispos, lideranças pastorais e especialistas envolvidos diretamente com o tema, que são nomeados pelo papa

O documento final do Sínodo é chamado “Exortação Apostólica”. Nele, o papa resume e aprova as principais conclusões dos bispos, estabelecendo novas referências para a Igreja. 

 

O Sínodo Amazônico

 

A convocação do Sínodo que terá como tema a Amazônia foi feita pelo papa Francisco no dia 15 de outubro de 2017 e o documento preparatório do encontro foi finalizado em junho de 2018. O material foi elaborado após um amplo processo de consulta às comunidades amazônicas, que incluiu a visita do papa à floresta em Puerto Maldonado, no Peru, em janeiro de 2018.

 

O documento é dividido em três partes: 

 

  • A voz da Amazônia - apresentação do território e de seus povos
  • Ecologia integral - sobre a problemática ecológica e pastoral;
  • Igreja profética na Amazônia - sobre a doutrina da Igreja e a ação pastoral

 

Além do conteúdo religioso, há denúncias contra violações do direito ao território e autodeterminação dos povos originários da Amazônia e contra crimes de corrupção, que o relatório diz acontecerem sem amparo da lei e em decorrência de “uma legislação que atraiçoa o bem comum”.

 

O documento critica a exploração de riquezas da região por grandes empresas. “A corrupção atinge as autoridades políticas, jurídicas, legislativas, sociais e religiosas que recebem benefícios para permitir a ação destas companhias. Cria-se, assim, uma cultura que envenena o Estado e suas instituições, permeando todos os estratos sociais, inclusive as comunidades”, afirma o relatório

 

O material de referência também fala da penalização dos protestos contra a destruição do território e das comunidades. Na seção de testemunhos que faz parte do site de divulgação do Sínodo, há 17 histórias de pessoas que se dedicaram à Amazônia, a maioria mortos em conflitos na região, como a irmã Dorothy Stang, o ambientalista Chico Mendes e o indígena Galdino Jesus dos Santos.

 

No Sínodo, estão previstas plenárias com o papa e grupos de trabalho para articulação de diferentes assuntos. O cardeal e arcebispo aposentado de São Paulo, Cláudio Hummes, presidente Rede Eclesial Pan-Amazônica, foi escolhido relator e será responsável pela síntese dos debates para o documento final.

 

De acordo com Hummes, a participação de políticos com mandato e de militares no Sínodo está vetada. Por meio de diplomatas, o governo brasileiro havia manifestado interesse em ter voz na assembleia.

 

Críticas de conservadores

 

No dia 30 de agosto, um encontro com 120 religiosos, o último realizado antes do Sínodo, divulgou uma carta afirmando que as lideranças da região estão sendo “criminalizadas como inimigos da pátria”. Os bispos e lideranças se manifestaram como “defensores intransigentes” da região e cobraram medidas urgentes para combater o desmatamento.

 

Além das críticas vindas pelo governo, grupos conservadores católicos devem realizar nos dias 4 e 5 de outubro um encontro em Roma em que será questionado o enfoque dado pelo Sínodo à questão ambiental, visto como forma de interferência nas soberanias nacionais. Foram recolhidas 20 mil assinaturas na região amazônica, por grupos como Instituto Plínio Correa de Oliveira e Voz da Família, que se reuniram com representantes do governo para manifestar suas preocupações.  

 

O documento base do Sínodo também é criticado por conservadores por recomendar que seja considerada a ordenação de sacerdotes mais velhos e casados em regiões remotas da Amazônia. O material também cita a possível criação de um ministério oficial para mulheres da região.

 

Os cardeais alemães Gerhald Muller, que é prefeito emérito da Congregação para a Doutrina da Fé, e Walter Brundemuller, disseram que o texto contém “heresia, estupidez e apostasia (abandono da religão)”. Para Brundemuller, o Sínodo queria implementar a abolição do celibato e a introdução do sacerdócio feminino.

 

Em entrevista ao jornal italiano La Stampa, o papa Francisco declarou que tais temas não serão centrais no encontro. O pontífice também cobrou que os governos assumam a responsabilidade pelas práticas que ameaçam a vida das populações nesses territórios.

 

O cardeal Cláudio Hummes afirmou ao Estadão que o papa quer pressionar os governos a agirem em prol da Amazônia. Ele também defendeu, assim como outros integrantes da Igreja Católica, que o Brasil aceitasse recursos internacionais para combater as queimadas na Amazônia e disse não ver desrespeito à soberania na atitude.

 

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