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Como o #MeToo chegou à indústria dos games

Movimento que começou em Hollywood trouxe à tona acusações de assédio sexual contra figuras importantes. Nos EUA, desenvolvedoras de jogos têm se manifestado sobre nomes do setor

Em 2017, o surgimento de acusações de violência sexual contra o produtor de cinema Harvey Weinstein inaugurou o que ficou conhecido como movimento #MeToo. Desde então, mais casos similares vieram à tona em Hollywood e outros setores da sociedade, chegando à mulheres do mundo todo.

Nos últimos dias de agosto de 2019, um movimento similar ao #MeToo começou a aparecer entre as profissionais que desenvolvem videogames nos EUA.

As acusações contra Jeremy Soule

A primeira acusação partiu da desenvolvedora de jogos independentes Nathalie Lawhead. Em seu blog, em 26 de agosto, ela afirmou ter sido estuprada por Jeremy Soule, compositor conhecido pelas trilhas sonoras dos jogos das franquias “Harry Potter” e “The Elder Scrolls”.

No texto, Lawhead diz que o episódio ocorreu após ela ter formado uma forte amizade com Soule. A desenvolvedora, que é americana, se mudou para o Canadá em 2008 para trabalhar em um projeto independente. Na confraternização natalina daquele ano, ela e Soule começaram a conversar.

Lawhead conta que logo os dois formaram um laço. Em determinado momento, ela diz que o compositor passou a tecer comentários de cunho sexual para ela, dizendo que “tocar músicas é algo sexual”, até que finalmente ele tentou começar uma relação romântica com Lawhead.

Segundo a desenvolvedora, o estupro aconteceu depois que ela rejeitou a proposta de Soule. Lawhead disse que, à época, não prestou queixas por medo de ter problemas com seu visto de permanência no Canadá.

No mesmo dia em que Lawhead publicou o texto em seu blog, a cantora Aeralie Brighton, que trabalhou na trilha sonora de jogos como “Minecraft”, disse que, em 2014, foi assediada por Soule.

Em um post no Facebook, Brighton diz que, à época, o compositor enviou à ela um vídeo dele se masturbando. “Quero deixar claro que não fui estuprada, mas fui assediada sexualmente e violada emocionalmente e profissionalmente por esse cretino”, escreveu.

Consultado pelo site especializado em games Kotaku, Soule negou as acusações, categorizando-as como “revoltantes”. Sobre a publicação de Brighton, o compositor disse que “não concorda com o ponto de vista dela”.

O caso de Alec Holowka

Em 2017, o desenvolvedor Alec Holowka lançou o jogo “Night in the Woods”. O título foi aclamado e recebeu quatro prêmios importantes da indústria.

Em 27 de agosto de 2019, um dia após as acusações contra Soule virem à tona, a desenvolvedora Zoe Quinn publicou acusações contra Holowka no Twitter. Quinn foi uma figura central na ascensão do movimento Gamergate, quem em 2014 foi palco de uma série de ataques misóginos contra mulheres do universo dos games.

No texto, que não está mais disponível, Quinn afirma que foi abusada psicologicamente e sexualmente por Holowka. Ela diz que os dois tiveram um breve relacionamento amoroso e que, durante o período, o desenvolvedor começou a apresentar comportamentos abusivos, gritando com ela e isolando-a dos amigos.

Após a publicação de Quinn, os representantes do estúdio Infinite Ammo, co-fundado por Holowka, afirmaram que acreditam nas acusações e que cortaram relações com o desenvolvedor.

Dias depois do surgimento das acusações, em 31 de agosto de 2019, Alec Holowka morreu. A causa de morte não foi divulgada publicamente. No Facebook, Eileen Holowka, irmã do desenvolvedor, escreveu que Alec “era uma vítima de abuso e passou a vida lutando contra distúrbios de humor e personalidade”.

“Não vou fingir que ele não era responsável por causar danos aos outros, mas no fundo, ele era uma pessoa que queria apenas oferecer cuidados e gentilezas. Levou um tempo para ele descobrir como fazer isso”, acrescentou Eileen.

A acusação contra Michael Antonov

Michael Antonov é cofundador da Oculus, uma das principais empresas no desenvolvimento de tecnologia de realidade virtual para games, que integra o conglomerado do Facebook.

Em 27 de agosto, no Twitter, Autumn Rose Taylor, diretora de marketing do estúdio Owlchemy Labs, acusou Antonov de assédio sexual. Ela afirmou que o executivo colocou a mão por dentro de sua saia durante uma demonstração do equipamento de realidade virtual da Oculus.

Andrew Bosworth, vice-presidente das operações de realidade virtual do Facebook, lamentou o ocorrido, também no Twitter, e disse que não tolera esse tipo de comportamento em sua equipe, e que tem como objetivo construir um espaço seguro no trabalho.

Antonov já não atua na Oculus desde maio de 2019. Ele não comentou a acusação de Taylor.

A repercussão das acusações

Anita Sarkeesian é mestre em política pela Universidade de York. Ela também é a idealizadora e principal apresentadora do canal de YouTube Feminist Frequency, espaço onde analisa a representação feminina nos games e na cultura pop.

Ela diz acreditar que as acusações indicam que uma versão do movimento #MeToo chegou ao mundo dos videogames, embora o machismo no meio já venha sendo denunciado há mais tempo. “A toxicidade dos fãs é bem documentada há anos, mas os comportamentos abusivos e predatórios no meio dos desenvolvedores só tinham sido relatados através de segredos passados entre amigos próximos. Estou maravilhada com a coragem daquelas que decidiram contar suas experiências”, Sarkeesian escreveu no Twitter.

A Time’s Up, ONG ligada ao #MeToo que luta pelo fim do assédio sexual nos ambientes de trabalho, se manifestou sobre as acusações. “Esse deve ser um momento de acerto de contas para a indústria. Essa cultura de assédio sexual, manipulação e retaliação não pode continuar”, disse a nota emitida pela organização.

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