A crise da febre suína na China. E seu efeito no Brasil

Doença já reduziu os rebanhos chineses e fez aumentar a importação do produto. País asiático é o que mais produz e consome carne de porco no mundo

     

     

    A produção chinesa de carne suína vive um momento de crise. O país enfrenta uma epidemia de febre suína africana em suas criações de porcos, que está afetando o consumo interno da carne.

     

    Segunda maior economia do mundo, a China é o país que mais produz e consome carne de porco no planeta. Em 2018, os chineses produziram 54,04 milhões de toneladas de carne suína e consumiram 55,40 milhões de toneladas. O segundo colocado, tanto em produção como em consumo, foi a União Europeia, a uma distância significativa: 24,30 milhões de toneladas produzidas e 21,38 milhões de toneladas consumidas.

     

    A preferência da população chinesa pelo porco é notável: cerca de 60% da proteína consumida no país é de origem suína.

     

    A crise pode levar a dois desdobramentos no Brasil: o aumento das exportações de carnes e a queda nas vendas de soja para a China.

     

     

    O que é a febre suína africana

     

    A febre suína africana é um vírus que afeta porcos, resultando em quadros hemorrágicos e levando quase sempre à morte dos animais. A doença é incurável e altamente contagiosa para suínos mas, segundo a Organização Mundial de Saúde Animal, não apresenta riscos para humanos.

     

    O alastramento da febre suína africana está levando a população de porcos na China a cair drasticamente. Segundo o Ministério de Agricultura do país, a redução no número de cabeças entre julho de 2018 e julho de 2019 foi de 32,2%.

     

    A doença também tem se espalhado por rebanhos suínos em outros países asiáticos; entre eles estão Vietnã, Laos e Tailândia. A região de Hong Kong também foi afetada.

     

    O banco holandês Rabobank, especializado em agronegócio, projeta que a epidemia possa reduzir as criações de porco chinesas em até 200 milhões de cabeças. Segundo o banco, a produção de carne suína no país deve cair 25% em 2019.

     

    Já a consultoria INTL FCStone prevê uma queda ainda maior no ano. Para a empresa, a produção de carne suína no país vai cair em cerca de um terço em 2019. Em 2020, a redução deve ser ainda mais acentuada, com a recuperação ocorrendo apenas a partir de 2021.

     

     

    A reação do governo chinês

     

    O governo chinês demonstra preocupação com a situação do mercado de carne no país. Os preços de carne suína aumentaram em 25% entre julho e agosto de 2019, atingindo um patamar historicamente alto. A questão é tratada como um problema de estado que pode afetar negativamente a imagem do governo.

     

    As propostas para ação pública incluem subsídios e incentivos financeiros para criadores de porco, além do estabelecimento de metas de produção para cada província e da liberação de fretes para o transporte de carne suína.

     

    Na cidade de Nanning, na região de Guangxi, o governo começou a vender carne de porco com desconto, estabelecendo um limite de compra de um quilo por pessoa. A medida busca atenuar os efeitos do aumento dos preços sobre a população, sobretudo a mais pobre.

     

     

    Como a situação chinesa afeta o Brasil

     

    O Brasil não registrou nenhum surto de febre suína africana em 2019 – a doença está erradicada em solo brasileiro desde 1984. Em junho de 2019, o Ministério da Agricultura já anunciou o aumento da vigilância para evitar que a doença chegue ao país. A campanha foca em aeroportos, fazendo alertas para passageiros que visitaram fazendas no exterior, estiveram perto de porcos e javalis ou trazem produtos suínos na bagagem.

     

    Ao mesmo tempo em que os surtos da doença ocorrem em alguns dos maiores países consumidores e importadores de carne suína, o Brasil vê suas exportações de carne aumentarem de forma significativa.

     

    A demanda chinesa por proteína estrangeira vem crescendo. No Brasil, isso se reflete no aumento das exportações de produtos suínos e de outras categorias de carne que atuam como substitutas ao porco no mercado chinês.

     

    Em maio de 2019, o volume de exportação de frango brasileiro para a China aumentou 49% em relação ao mesmo mês de 2018. Já o volume de suínos comprados do Brasil pela China aumentou em 51% no mesmo período.

     

    A expectativa no mercado frigorífico brasileiro é de que as exportações para a China sigam aumentando em ritmo acelerado por mais cerca de três anos. A previsão é compatível com o prazo esperado de recuperação total dos rebanhos de porcos na China.

     

    Além de afetar o mercado de carnes do Brasil, a crise da febre suína africana na China também impacta as exportações de soja, grão usado como principal ingrediente na ração animal.

     

    A comparação entre maio de 2018 e maio de 2019 mostra uma redução de mais de 30% no volume de soja brasileira comprado pela China. A queda na demanda chinesa deve continuar por pelo menos mais dois anos, também motivada pelo fator adicional da guerra comercial que o país protagoniza com os EUA.

     

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