O que é a japonização da economia. E qual seu efeito na Europa

Economia europeia mostra sinais de desaceleração. Temor é de replicar o cenário que perdura no Japão há quase 30 anos

     

     

    Há quase três décadas, o Japão vive uma situação econômica única. O país não consegue sustentar períodos de crescimento robusto desde a década de 1980 e vê alguns de seus principais indicadores econômicos se comportando de maneira atípica – e negativa.

     

    Na economia japonesa, quatro fatores atualmente se combinam para criar a sensação de armadilha da qual será muito difícil sair: a evolução lenta do PIB, juros baixos, inflação baixa (ou até deflação) e população envelhecida.

     

    PIB DO JAPÃO

     

     

    Mais do que a marcha lenta em que o país caminha, a maior preocupação é com a perspectiva de estagnação permanente. E a demografia, a inflação e os juros indicam que o caminho para o Japão sair da atual situação não será tranquilo.

     

    Em 2019, o termo ‘japonização’ (em inglês, japanification ou japanisation) entrou na moda entre os economistas. Ele é utilizado para se referir às condições que tornam a economia japonesa peculiar. O termo emergiu no debate sobre o atual andamento da economia europeia.

     

    ZONA DO EURO

     

     

    A discussão é motivada pelo ritmo anêmico de crescimento que se instalou na Europa nos últimos anos. Além do histórico recente, a Alemanha, principal economia do bloco europeu, ainda reconhece a possibilidade de entrar em recessão em 2019.

     

    O argumento utilizado pelos economistas que enxergam riscos de japonização na Europa é de que, para além do avanço lento do PIB, as economias do bloco podem estar trilhando o caminho percorrido pelo Japão nas últimas décadas. Os indicadores econômicos já mostram pontos de semelhança.

    A baixa dos juros

    Desde a década de 1990, o Japão mantém sua taxa básica de juros a níveis baixos – atualmente, estão em 0,3% ao ano. A última vez em que os juros ficaram acima de 1% ao ano foi em 1995. O patamar baixo dos juros, entretanto, não foi suficiente para estimular a economia e acelerar o crescimento do país.

    JUROS JAPONESES

     

     

    Os juros são um dos principais – se não o principal – instrumentos de política monetária à disposição das autoridades monetárias. É comum que Bancos Centrais reduzam a taxa de juros quando querem estimular a economia, uma vez que juros mais baixos teoricamente aumentam o crédito e favorecem o investimento e o consumo.

    Um dos problemas de se manter a taxa de juros tão baixa é que pode-se chegar a um ponto em que cortes nos juros são inefetivos. Isso porque há um momento em que não é possível realizar novos cortes sem deixar os juros negativos. Os juros baixos em uma economia estagnada, portanto, podem neutralizar uma das principais ferramentas da política monetária. É o que economistas chamam de ‘armadilha da liquidez’.

    A Europa parece viver uma situação semelhante desde 2013, quando os juros ficaram abaixo de 1% pela primeira vez.

     

    JUROS EUROPEUS

     

     

    A Europa replica, nos últimos anos, a combinação japonesa de economia lenta e juros baixos. O corte de juros como estímulo econômico após a crise de 2008 foi seguido de novas reduções a partir de 2011, que levaram a taxa ao patamar baixo do qual não saiu.

     

    Se no curto prazo o quadro é de possível armadilha da liquidez, o cenário dos juros de longo prazo também mostra que o bloco europeu segue os passos do Japão.

     

    JUROS DE LONGO PRAZO

     

     

    O retorno para títulos de 10 anos nos dois casos analisados indica que a Europa caminha para o cenário de juros negativos que o Japão experimentou pela primeira vez em 2016.

     

    O movimento é parte do contexto global de juros de longo prazo baixos ou até negativos, mas também é reflexo da política monetária mantida nos dois locais no período analisado – afinal, o patamar dos juros de curto prazo costuma ser referência para os juros de longo prazo.

     

     

    O cenário inflacionário

     

    Além de servirem como estímulo para a atividade econômica, os juros também costumam ser usados pelos Bancos Centrais como arma para combater a inflação. Nos casos japonês e europeu, entretanto, os cortes nos juros não levaram a inflação a crescer.

     

    BAIXA INFLACIONÁRIA

     

     

    A inflação baixa demais pode ser um problema para os países por frear a atividade econômica.

     

    Isso acontece porque em um cenário de inflação muito baixa, as decisões de consumo e investimento podem ser adiadas. Se você pretende comprar um produto mas não há expectativa de que os preços aumentem, não há incentivos para realizar a compra agora.

     

    No caso japonês, a inflação já ficou abaixo de zero, o que configura um cenário de deflação (redução dos preços, ao invés de aumento). O primeiro ano em que o Japão registrou inflação anual negativa foi 1995. Em 12 dos 23 anos registrados desde então, o país teve deflação.

     

    Os efeitos da deflação podem ser ainda mais perigosos que os da inflação baixa, uma vez que o desincentivo ao consumo é potencializado. Nessa situação, quanto mais se segura o dinheiro na mão, mais ele vale, já que o poder de compra aumenta conforme os preços caem. A demanda, desta forma, acaba se limitando aos gastos pontuais e necessários.

     

    Por conta desses riscos, o Banco Central do Japão tem sustentado o objetivo de chegar à inflação anual de 2%. Mas as medidas de estímulo monetário tomadas nos últimos anos não têm surtido efeito, também em decorrência da desaceleração da economia mundial, em especial da China.

     

    Na Zona do Euro, o quadro nos últimos anos não chegou a ficar deflacionário, mas beirou o zero em 2014, 2015 e 2016, quando o aumento dos preços ficou sistematicamente abaixo dos 0,25% ao ano. Ainda assim, a inflação está abaixo de 2% ao ano desde 2013, o que pode ser considerado baixo.

     

     

    A estrutura demográfica

     

    Outra característica do cenário japonês é a composição etária da população. O Japão vive uma situação de inversão da pirâmide etária, o que significa que a proporção de pessoas mais velhas na sociedade está cada vez maior. O país, aliás, é o mais velho do mundo.

     

    POPULAÇÃO JAPONESA

     

     

    É possível argumentar que a inversão da pirâmide é um fenômeno comum aos países mais ricos. No caso japonês, ocorre também uma redução da população como um todo. A expectativa é de que o total de habitantes do Japão caia em cerca de 25% nas próximas quatro décadas.

     

    O cenário causa preocupação não apenas pela situação delicada do sistema previdenciário japonês, mas também pelo potencial de desaceleração aguda da economia em decorrência da redução da população economicamente ativa.

     

    Em países europeus, a estrutura etária da população se assemelha à do Japão. E em alguns casos, o envelhecimento também está sendo acompanhado por redução na população economicamente ativa, fenômeno que ocorre na Zona do Euro desde 2009, e que tem sido atenuado pelos fluxos migratórios.

     

    Na Alemanha, a população total chegou a cair entre 2003 e 2011, mas voltou a subir desde então. Na Itália, o total de habitantes está em queda desde 2015.

     

    POPULAÇÃO ALEMÃ

     

     

     

    POPULAÇÃO ITALIANA

     

     

    Para efeito de comparação, os EUA, que são a maior economia do mundo, ainda não atingiram a inversão da pirâmide etária. O formato da pirâmide americana tem largura homogênea, assemelhando um retângulo, o que significa que a proporção de pessoas mais velhas ainda não ultrapassou a de jovens, apesar de caminhar nesse sentido.

     

     

    As diferenças entre Japão e Europa

     

    Os números apresentados indicam algumas semelhanças entre os cenários econômicos de Japão e Europa, mas há ressalvas e diferenças a serem apontadas.

     

    Em primeiro lugar, a comparação entre um país e um bloco apresenta pontos de fragilidade. O conjunto europeu não é homogêneo; as economias europeias não são todas estruturadas da mesma forma e apresentam discrepâncias consideráveis. A economia alemã, por exemplo, é muito mais sólida que outras que integram o bloco europeu, como Grécia, Itália e Espanha. Ademais, nem todos os fenômenos observados no total do grupo se manifestam da mesma forma em cada um dos países que o compõem. Os preços, por exemplo, não necessariamente têm comportamento igual em diferentes partes do continente, mesmo que a moeda seja a mesma.

     

    Feita esta ressalva, o não-mergulho da Europa na deflação é uma diferença significativa para com o Japão. A dinâmica econômica de um local muda consideravelmente se o marco da inflação negativa é ultrapassado, conforme exposto acima. E no Japão, a deflação é uma realidade (ou possibilidade real) há quase 25 anos.

     

    Outro ponto importante é que a situação da dívida pública japonesa é mais delicada do que na Europa. Em meio aos esforços fiscais para tentar estimular a economia, o governo vem se endividando ano a ano desde o início da década de 1990. Em 2015 e 2016, a dívida pública japonesa quase chegava à marca de 200% do PIB.

     

    Na Zona do Euro, o movimento recente é de redução da dívida. O ápice da relação dívida/PIB ocorreu em 2014, quando a razão ficou um pouco acima dos 90% – patamar atingido pelo Japão em 1999. Desde então, a proporção da dívida em relação ao PIB caiu para cerca de 86% na Europa.

     

    Por fim, as economias japonesa e europeia também apresentam diferenças no patamar de desemprego. No Japão, o desemprego é baixo: ficou em 2,4% em 2018, sendo que não passa de 5% desde 2010, quando ficou em 5,1%. Já na Zona do Euro, o desemprego de 2017 ficou em 9,0%, o mais baixo desde 2009. Em 2013, a taxa de desocupação europeia era de 11,9%.

     

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