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O ataque a um restaurante palestino em São Paulo

Grupo atirou garrafas e spray de pimenta contra porta de entrada de estabelecimento que emprega refugiados e promove debates

     

    Localizado no Bixiga, bairro do centro de São Paulo, o restaurante e centro cultural árabe Al Janiah foi alvo de um ataque na madrugada de domingo (1º). Por volta das 3h30, um grupo de homens atirou garrafas e spray de pimenta contra a porta principal. Segundo uma nota divulgada pela direção do local, eles também portavam uma faca, mas não houve feridos.

    Um vídeo da câmera de segurança do estabelecimento registrou o ocorrido. Administrado pelo brasileiro filho de palestinos Hasan Zarif, o Al Janiah tem uma equipe composta por 35 refugiados, em sua maioria sírios e palestinos. 

    Até o momento, os agressores não foram identificados. Uma testemunha citada pelo portal UOL descreveu-os nas redes sociais como homens brancos, carecas, vestidos de preto e camiseta estampada com a bandeira do estado de São Paulo.

    “Não podemos nos calar diante da motivação desse ato, num contexto de crescente discurso de intolerância e ódio que acomete este país”, declarou a direção do Al Janiah.

    O que o Al Janiah representa

    O estabelecimento se tornou uma referência cultural para a defesa dos direitos dos imigrantes em São Paulo. Além de servir culinária palestina e ser palco de apresentações musicais, o Al Janiah promove debates e outros eventos sobre política e cultura. 

    Ao Nexo o professor de relações internacionais da PUC Reginaldo Nasser explicou, em 2017, que o nome do local é “uma homenagem a um vilarejo palestino chamado Al-Janiah, que foi tomado por Israel na Guerra dos Seis Dias”, onde nasceram os pais de Zarif. 

    Outros incidentes

    Em agosto de 2016, bombas de gás lacrimogêneo foram lançadas na calçada do estabelecimento. A direção do restaurante afirmou que as bombas, que atingiram clientes e funcionários, haviam sido jogadas pela Polícia Militar “em um contexto de repressão a manifestações que ocorriam no centro de SP”, os atos contra o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff (PT). Na rua do Al Janiah, ainda segundo sua direção, não havia nenhum tipo de protesto ou movimentação extraordinária.

    No ano seguinte, em maio de 2017, o dono do local, Hasan Zarif, e um funcionário do restaurante, de nacionalidade palestina, foram detidos durante uma manifestação contrária à Lei de Migração, realizada pelo grupo Direita São Paulo na avenida Paulista. Além deles, outros dois defensores dos direitos de imigrantes, ambos brasileiros, foram detidos na ocasião por se envolverem em uma briga com o grupo de direita.

    Segundo a assessoria do Al Janiah, o ataque da madrugada de domingo (1º) e o de 2016 não podem ser considerados coincidência. “De 2016 pra cá, temos sofrido com uma escalada do ódio e da intolerância, que hoje segue sendo reforçada por nosso presidente. Ser um espaço democrático, com pessoas de diversas partes do mundo, é uma posição não só política, mas de projeto de sociedade.”

    Ataques xenofóbicos no Brasil

    Ao Nexo a professora do curso de relações internacionais da Universidade Federal do ABC, Julia Bertino, afirma ver uma tendência de crescimento de atos discriminatórias contra imigrantes a nível mundial.

    “Isso se relaciona com a ascensão da extrema direita em diversos países do norte global e a discursos políticos contra imigrantes.

    Esses fatores estimulam a eclosão de ataques xenófobos e outras atitudes discriminatórias”, diz Bertino. No contexto brasileiro, ela acredita que o governo de Jair Bolsonaro estimula igualmente esse tipo de ataque por meio de um discurso anti-imigrantes e refugiados no país.

    Em visita aos Estados Unidos em março de 2019, o presidente declarou à emissora Fox News que apoiava a construção de um muro na fronteira do país com o México e que “a maioria dos imigrantes não tem boas intenções”.

    Apesar de não haver dados integrados sobre a violência contra estrangeiros no país, é possível dizer que os episódios são anteriores ao atual governo. Em 2018, o estado de Roraima registrou ataques claramente dirigidos contra imigrantes venezuelanos. Já em 2015, a Secretaria Especial de Direitos Humanos havia anunciado um aumento de 633% dos casos de xenofobia em todo país, em comparação com o ano anterior. Foram 330 denúncias feitas pelo Disque 100, contra 45 registradas em 2014.

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