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As mortes por sarampo em São Paulo. E o risco para os bebês

Grupo de até um ano de idade é considerado o mais vulnerável para a doença no estado. Ministério da Saúde recomenda dose extra de vacina

 

A Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo confirmou na sexta-feira (30) a morte de dois bebês por complicações do sarampo. Com os casos, subiu para três o número de vítimas fatais da doença no estado. Na quarta-feira (28), a secretaria havia confirmado a morte de um homem de 42 anos, que não tinha histórico de vacinação. São as primeiras mortes pela doença registradas no estado desde 1997.

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casos de sarampo foram confirmados no estado de São Paulo em 2019, segundo a Secretaria de Saúde

 

O maior número de pessoas contaminadas está na faixa etária dos 15 aos 29 anos, que soma 1.155 casos. Bebês com menos de um ano, no entanto, são considerados o grupo mais vulnerável à doença. A faixa etária registra 332 casos confirmados e a maior taxa de incidência (54,6) por 100 mil habitantes.

Em 2018, o estado de São Paulo havia registrado apenas cinco casos confirmados de sarampo, e nenhum em 2016 e 2017.

Preocupação maior para crianças

O sarampo é uma doença viral infecciosa transmitida por via oral, considerada muito contagiosa e de alto potencial letal. Seus sintomas envolvem febre, dor de cabeça, tosse, manchas brancas na mucosa bucal, conjuntivite e manchas vermelhas (que se espalham do rosto para o resto do corpo).

No mundo, a doença é uma das maiores responsáveis pela mortalidade infantil. Segundo a Opas (Associação Panamericana da Saúde), a maioria das 110.000 mortes por sarampo registradas globalmente em 2017 foram de crianças com menos de cinco anos de idade.

As mortes dos dois bebês em São Paulo ocorreram no início de agosto de 2019, mas foram confirmadas como decorrente do sarampo pela Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo na sexta-feira (30). Ambos desenvolveram pneumonia, uma complicação comum da doença.

Eles tinham quatro e seis meses, idade inferior à primeira vacina contra sarampo exigida pelo calendário nacional de vacinação, segundo o qual a primeira dose da tríplice viral deve ser tomada aos 12 meses. A tríplice viral também protege contra a caxumba e a rubéola.

O aumento nos casos de sarampo levou o Ministério da Saúde a recomendar, em 20 de agosto, uma dose extra de vacina para bebês a partir dos seis meses de idade, chamada de “dose zero”. Ela não substitui as doses que já fazem parte do calendário nacional de vacinação: além da exigida aos 12 meses, há uma segunda dose aos 15 meses, que faz parte da vacina tetraviral ou tríplice viral associada à varicela.

Na quarta-feira (28), o ministério anunciou o envio de 1,6 milhão de doses extras da tríplice viral para todos os estados brasileiros, para garantir a aplicação da “dose zero” entre bebês.

Na cidade de São Paulo, a campanha de vacinação contra o sarampo terminou no sábado (31), mas a Secretaria Municipal de Saúde vai continuar a vacinar crianças entre seis e 11 meses de idade em postos de saúde, Centros de Educação Infantil e creches até que a meta de cobertura vacinal de 95% seja atingida. Atualmente, 66,21% dos bebês foram vacinados, segundo a prefeitura. A Grande São Paulo concentra a maior parte dos casos confirmados da doença.

O surto de sarampo

No Brasil, segundo boletim do Ministério da Saúde divulgado na quarta-feira (28), foram confirmados 2.331 casos de sarampo nos últimos três meses. O epicentro é o estado de São Paulo, que concentra 98% deles.

O secretário de vigilância em saúde de São Paulo, Wanderson de Oliveira, atribui o surto de sarampo à baixa cobertura vacinal.

Em junho de 2019, uma reportagem da Folha de S.Paulo mostrou que o sete das oito principais vacinas infantis -  entre elas, a tríplice viral - estão com cobertura abaixo da meta no Brasil. Quedas na cobertura vacinal foram registradas nos últimos três anos.

A recomendação da OMS (Organização Mundial de Saúde) é que 95% da população seja imunizada. Segundo o Ministério da Saúde, metade dos municípios brasileiros não atingiu essa meta de vacinação contra sarampo, de acordo com dados preliminares de 2018.

Falsa segurança

A morte dos bebês em São Paulo fez a Secretaria de Saúde reforçar a necessidade de a população como um todo procurar a imunização. A cobertura maior da vacina ajuda a proteger aqueles que não podem tomar as doses, como bebês com menos de seis meses de idade, gestantes e pessoas imunocomprometidas.

Especialistas da área de saúde atribuem a queda na procura por vacinas, em parte, a uma sensação de falsa segurança da população após longos períodos em que as doenças se mostram controladas.

“As últimas gerações de brasileiros não sabem o que são essas doenças, não conhecem ninguém que teve, nunca viram no noticiário. Com isso, relaxam sua percepção de risco e consequentemente a busca pela vacina”, disse Renato Kfouri, presidente do departamento de imunizações da Sociedade Brasileira de Pediatria, em entrevista ao Nexo em julho de 2018.

Ele também cita motivos mais práticos, como o horário de funcionamento restrito de postos de saúde e a potencial falta de vacinas em determinadas regiões do país.

“Vivemos um contexto econômico em que o trabalhador não pode ficar faltando para levar o filho para vacinar com o risco de perder seu emprego. Ele chega lá, não tem vacina, tem que voltar outro dia e os postos não funcionam de fim de semana. O acesso à vacina é muito prejudicado nesse sentido”, afirmou.

O sarampo no mundo e o movimento antivacina

A preocupação com o sarampo é global. Um levantamento da OMS mostrou que o primeiro semestre de 2019 registrou o maior número de casos de sarampo no mundo desde 2006 - foram 364.808, em 182 países.

Na quinta-feira (29), a OMS alertou que o sarampo está crescendo de forma "dramática" na Europa. Foram registrados 89.994 casos de sarampo em 48 países europeus na primeira metade de 2019, mais que o dobro do mesmo período de 2018.

O organização atribui os números à carência nos sistemas de saúde de países do Leste Europeu e à disseminação do movimento antivacina, responsável por circular informações falsas sobre o processo de imunização.

Embora o movimento antivacina não seja tão forte no Brasil, surtos da doença em outros lugares são alertas para brasileiros por causa da importação dos casos. É o que acontece quando um brasileiro viaja para um país onde o vírus está em circulação e retorna, ou ainda quando um estrangeiro contaminado pelo vírus entra no Brasil.

Em São Paulo, é possível que os primeiros casos registrados tenham sido importados de países como Noruega, Israel e Malta, segundo a Secretaria de Estado da Saúde. A ampliação da cobertura vacinal é essencial para barrar a disseminação do vírus que chega de outros lugares.

"Enquanto tivermos esses números na Europa e na África, os casos importados vão continuar aparecendo. Para evitar a reintrodução do sarampo, temos que aumentar a cobertura vacinal", afirmou secretário de vigilância em saúde de São Paulo, Wanderson de Oliveira.

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