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Qual o efeito de escândalos de corrupção nas ações de empresas

Ações do BTG Pactual despencam após denúncia na Lava Jato. Histórico de companhias investigadas, porém, mostra tendência de recuperação

     

     

    Na segunda-feira, 26 de agosto de 2019, as ações do banco BTG Pactual na bolsa de valores caíram 18,4%. Na sexta-feira (23), a queda havia sido de 15,2%. Em duas sessões, portanto, a empresa perdeu quase um terço do valor de mercado. O movimento foi motivado por uma investigação da Operação Lava Jato – a 64ª fase da operação envolveu buscas e apreensões em endereços ligados ao banco.

     

    As ações da polícia foram motivadas por uma denúncia anônima recebida em 2016, que informava a realização de um esquema de lavagem de dinheiro no BTG Pactual. A denúncia também afirmava que o banco possuía um departamento de propinas, similar ao caso da construtora Odebrecht.

     

    O banco negou o envolvimento em atividades criminosas, o que não foi suficiente para evitar o tombo da empresa na bolsa de valores.

     

    O BTG Pactual não é a primeira firma a passar por desvalorizações na bolsa após denúncias na Justiça. Em geral, acusações envolvendo as operações e diretores da empresa levam a quedas de preço das ações no mercado no curto prazo.

     

    Desde 2014, casos como o da Petrobras, do Bradesco e da JBS, três empresas que atuam em setores distintos da economia, ilustram os movimentos pelos quais passam as firmas de capital aberto que são denunciadas ou investigadas. A tendência – documentada também em estudos acadêmicos – é de recuperação após a queda.

     

     

    Petrobras

     

    O caso: O caso da Petrobras é complexo, uma vez que se trata de uma empresa pública que foi denunciada em diversos esquemas de corrupção em diferentes momentos dos últimos anos. Além disso, as ações da petroleira costumam reagir fortemente ao momento político do Brasil. Entre as cinco piores sessões da Petrobras na bolsa na década de 2010, três são da época da greve dos caminhoneiros, em maio e junho de 2018; uma é em 18 de maio de 2017, quando o escândalo envolvendo o empresário Joesley Batista colocou em dúvida a permanência do então presidente Michel Temer no cargo mais alto da república, e a quinta foi no dia seguinte à reeleição de Dilma Rousseff, em outubro de 2014, que desagradou o mercado.

     

    Entre tantos marcos da Petrobras em anos recentes, destaca-se uma data importante para a Operação Lava Jato: a sexta-feira, dia 14 de novembro de 2014. Nessa data, foi deflagrada a sétima fase da Lava Jato, que envolveu as primeiras prisões, buscas e apreensões em empreiteiras, como Odebrecht, Camargo Corrêa, OAS e Queiroz Galvão. Além disso, a data em questão marcou a prisão do ex-diretor da Petrobras, Renato Duque. No final de semana dos dias 15 e 16 de novembro, começaram a ser divulgados detalhes de delações sobre operações ilegais relacionadas à petroleira, envolvendo executivos e membros do PT e do PMDB.

     

    Um dia depois: A sessão do dia 14 de novembro de 2014 observou uma variação negativa de 2,6% no preço das ações ordinárias da Petrobras (PETR3). A queda na segunda-feira, 17 de novembro – quando já haviam sido contabilizados os eventos do final de semana –, foi mais acentuada, ficando em 5,1% no dia.

     

    Um mês depois: No dia 15 de dezembro de 2014 (não houve sessão no dia 14), as ações da Petrobras fecharam a sessão em R$ 8,44, o que representa uma queda de 33,3% em relação a 30 dias antes. No período em questão, a Petrobras teve outras sessões com resultado negativo acentuado, resultantes de outras ações da Lava Jato e do momento político instável antes do início do segundo mandato da então presidente, Dilma Rousseff.

     

    Um ano depois: Em 17 de novembro de 2015, as ações da Petrobras fecharam o dia no patamar de R$ 9,33, o que representa uma queda de 26,3% em relação a um ano antes. Nesse intervalo, o preço da ação passou por grandes oscilações, atingindo o pico no início de maio (R$ 15,51) e o menor valor no final de setembro de 2015 (R$ 7,60).

     

    Como estão agora: Quase cinco anos após as primeiras prisões de funcionários e diretores de empreiteiras envolvidas nos escândalos da Petrobras, as ações da empresa operam em um nível consideravelmente mais alto do que à época. Na sessão de 28 de agosto de 2019, as ações da estatal fecharam o dia ao preço de R$ 27,05. Esse valor representa um aumento de 108,1% em relação ao dia 14 de novembro de 2014. Nesse intervalo de tempo, o patamar das ações da Petrobras esteve mais alto em março de 2019, quando chegou ao pico de R$ 32,86.

     

    PETROBRAS

     

     

     

     

    Bradesco

     

    O caso: Em 31 de maio de 2016, o então presidente do Bradesco, Luiz Trabuco, foi indiciado pela Polícia Federal no âmbito da operação Zelotes, que investigava operações irregulares no Carf (Conselho Administrativo de Recursos Fiscais). O nome de Trabuco foi apontado pela PF por corrupção passiva e ativa, lavagem de dinheiro, organização criminosa e tráfico de influência. Em junho de 2017, o banqueiro foi inocentado pelo quarta turma do Tribunal Regional Federal.

     

    Um dia depois: A notícia do indiciamento do presidente do Bradesco chegou à bolsa na tarde da própria terça-feira, 31 de maio de 2016. As ações ordinárias do banco (BBDC3) chegaram a cair até 5,9%, mas se recuperaram e fecharam o dia com queda de 3,7%. Na sexta-feira da mesma semana, dia 3 de junho de 2016, o preço das ações do banco já estava em R$ 15,68, acima do fechamento da segunda-feira, dia 30, que foi registrado em R$ 15,54.

     

    Um mês depois: Na última sessão de junho de 2016 – um mês após o indiciamento de Luiz Trabuco – a ação do Bradesco fechou o dia valendo R$ 16,62. O aumento nesse período de um mês foi de 11,0% em relação ao fechamento do dia 31 de maio, que foi de R$ 14,97.

     

    Um ano depois: Exatamente um ano após o indiciamento de Trabuco, as ações do Bradesco fecharam o dia em R$ 18,98, o que representa um aumento de 26,8% em relação ao mesmo dia em 2016. A recuperação continuou sem grandes oscilações, exceção feita a um período de baixa no final de 2016.

     

     

    Como estão agora: Desde o indiciamento em 31 de maio de 2016, Luiz Trabuco já foi inocentado e substituído no cargo de presidente do Bradesco. Nesse período, as ações do banco permaneceram em alta, atingindo o pico em julho de 2019. Em 8 de julho de 2019, o preço da ação do banco chegou ao recorde de R$ 34,35 por unidade, o que representa um aumento de 127,1% em relação ao fechamento de 31 de maio de 2016. Do início de julho até o final de agosto de 2019, uma queda foi observada, e a ação passou a ser negociada em torno de R$ 28.

     

    BRADESCO

     

     

     

    JBS

     

    O caso: No início da noite de 17 de maio de 2017, a divulgação do conteúdo de um áudio abalou o país. O então presidente Michel Temer foi gravado em uma conversa com o empresário Joesley Batista, um dos donos da JBS, então maior produtora de proteína animal do mundo. O diálogo tratava do ex-presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, e mencionava uma suposta mesada que garantiria o silêncio do ex-deputado, então preso em Curitiba. No áudio, Temer dizia a frase que instantaneamente ganhou fama: “Tem que manter isso, viu?”. O escândalo levou o então presidente da República a fazer um pronunciamento público, afastando a possibilidade de renúncia.

     

    Um dia depois: No dia seguinte à divulgação do conteúdo da gravação, as ações ordinárias da JBS (JBSS3) despencaram. No pior ponto da quinta-feira, dia 18 de maio de 2017, os papéis da JBS haviam se desvalorizado em 19,7% em relação ao dia anterior. No fechamento da sessão, a queda final registrada foi de “apenas” 9,7%. Mas a pior sessão aconteceu na segunda-feira, 22 de maio de 2017, quando as ações da JBS caíram 31,3%.

     

    Um mês depois: No dia 19 de junho de 2017 (não houve sessão no dia 18), as ações da JBS já apresentavam leve recuperação de parte das perdas dos primeiros dias após o escândalo. Em relação à última sessão antes da divulgação da gravação, a queda acumulada era de 33,1%. Mas em relação ao dia 22 de maio, a pior sessão daquele mês, o preço das ações havia subido 6,2%.

     

    Um ano depois: No dia 17 de maio de 2017, logo antes da eclosão do escândalo, o preço da ação da JBS era de R$ 9,45. Exatamente um ano depois da primeira sessão pós-áudios de Joesley e Temer, o preço da ação da JBS era o mesmo: R$ 9,45. Ou seja, em um ano, o valor das ações da empresa na bolsa estava recuperado.

     

    Como estão agora: As ações da JBS estão em uma alta histórica. Em 21 de agosto de 2019, o preço da ação atingiu seu maior patamar da série, fechando o dia em R$ 29,25. Em relação ao dia 18 de maio de 2017, isso representa um aumento de 242,9%. O valor da empresa na bolsa não apenas se recuperou do escândalo, mas ainda cresceu em ritmo acelerado desde então.

     

    JBS

     

     

     

    O que diz este estudo

     

    Um estudo publicado em 2015 no Journal of Applied Economics por pesquisadores de universidades britânicas e americanas avaliou o impacto de escândalos envolvendo CEOs sobre ações de empresas de capital aberto na bolsa dos Estados Unidos entre 1993 e 2011.

     

    Os 80 casos abordados pelo estudo envolviam firmas investigadas por irregularidades financeiras e não financeiras, variando de fraudes, cartéis e propinas até casos de assédio e mentiras em currículos profissionais. Em outras palavras, a pesquisa aborda qualquer caso que possa ser enquadrado como um escândalo.

     

    O estudo concluiu que, em casos em que o presidente da empresa se envolvia em algum escândalo, as ações da firma tendia a cair entre 6,5% e 9,5% no primeiro mês após o caso ser divulgado publicamente.

     

    Entretanto, o dano se restringia ao curto prazo. No longo prazo, os preços das ações das empresas voltavam à trajetória normal, igualando a performance de outras firmas sem envolvimento em episódios de repercussão negativa. Na amostra, esse movimento de recuperação total ocorreu, em média, em um prazo de aproximadamente três anos.

     

    Em alguns casos, inclusive, o desempenho no mercado não apenas se igualava como superava o de empresas sem retrospecto de escândalos. Isso porque após a eclosão de um evento negativo para a imagem da empresa, as medidas de correção de curso e ampliação da transparência seriam efetivas na obtenção da confiança de investidores, estancando a sangria e beneficiando os detentores de ações.

     

    As 80 firmas investigadas pela pesquisa acabaram melhorando seu desempenho na bolsa nos anos que se seguiram à ocorrência de um escândalo.

     

     

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