Como uma medida de Trump deve aumentar a emissão de gás metano

Governo pretende substituir regras de 2016 do governo Obama que obrigavam empresas a usar tecnologias que detectam vazamento do gás no processo de extração de combustíveis fósseis

 

A Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos divulgou na quinta-feira (29) um plano para suspender parte das regras que têm como objetivo reduzir os vazamentos de gás metano durante a extração de petróleo e gás natural. O metano é um dos principais gases causadores do efeito estufa.

O governo pretende substituir por um dispositivo mais brando a regulamentação implementada em 2016 pela administração do democrata Barack Obama.

A eliminação de regulações federais é uma prioridade do governo do presidente Donald Trump, que já anunciou a intenção de acabar com mais de 80 regras no campo ambiental.

A agência propõe eliminar exigências para que as empresas instalem tecnologia para detectar e reparar vazamentos em poços, encanamento e unidades de armazenamento.

E também propõe voltar a discutir se a própria Agência de Proteção Ambiental tem a autoridade para determinar, legalmente, se o metano é mesmo um poluente. A entidade ressalta que pretende manter regras anteriores às de 2016 sobre o tema, de 2012.

Agora, as propostas ficam abertas para comentário público por um período de 60 dias. Depois disso, poderão ser implementadas, algo que o governo diz pretender fazer até o final de 2019. O líder democrata no Senado, Chuck Schumer, afirma que irá combater a medida. Para tanto, seria necessário apresentar e votar uma resolução para revisão pelo Congresso.

10%

Das emissões de gases estufa dos Estados Unidos são de metano, segundo informações da própria agência ambiental. A maior parte vem das operações de extração de gás natural e da pecuária

US$ 17 milhões

É o valor mínimo que o governo acredita que a indústria de petróleo e gás natural poupará com a medida. O máximo é US$ 19 milhões

US$ 136 bilhões

Foi o faturamento da indústria de petróleo e gás natural americana em 2017

O que é o metano

A molécula de metano é formada por um átomo de carbono e quatro átomos de hidrogênio (CH4). O gás metano não tem cor ou cheiro, e é altamente inflamável. Durante a combustão, interage com o gás oxigênio, formando dióxido de carbono e vapor de água.

O metano está presente no gás natural, e pode ser usado para produzir calor e energia em usinas termelétricas. Também pode ser usado para aquecer diretamente a água do fogão, por exemplo.

Trata-se de um poderoso gás estufa. Em termos de retenção de calor na atmosfera, a liberação de 1 kg de gás metano equivale à liberação de 25 kg de gás carbônico.

Após cerca de uma década na atmosfera, moléculas de metano começam a reagir com moléculas de radicais livres. Essa interação pode resultar em dióxido de carbono, que continua na atmosfera por séculos.

O metano pode ser encontrado em depósitos de combustíveis fósseis submetidos por milhões de anos a temperatura e pressão altas.

O gás natural se tornou um produto abundante nos Estados Unidos, principalmente devido ao desenvolvimento da técnica do fraturamento hidráulico (“fracking”). Ela consiste em usar água em alta pressão para quebrar rochas subterrâneas, em especial o xisto, o que leva à liberação do gás.

O fraturamento hidráulico pode ser também utilizado para explorar o petróleo retido nessas pedras, e foi um das grandes responsáveis pela queda dos preços do combustível a partir de 2008.

As restrições estabelecidas pela gestão Obama em 2016 foram uma reação ao diagnóstico feito então pela própria Agência de Proteção Ambiental de que as emissões estavam aumentando fortemente no país, em decorrência das novas técnicas de extração.

O metano também pode ser produzido em reações químicas a partir da decomposição de matéria orgânica, em pântanos ou matas alagadas, por exemplo. Reservatórios de usinas hidrelétricas, em que amplas extensões de florestas são submersas em água, são grandes produtores de metano.

O gás é também um subproduto da digestão de ruminantes, como as vacas. Estima-se que uma vaca produza entre 70 kg e 120 kg desse gás anualmente. Por isso, rebanhos são grandes produtores de gases estufa.

Qual é o argumento do governo Trump

O governo federal argumenta que as regras de 2012 já são o suficiente para combater vazamentos. E que, como o metano é um gás que pode ser usado para gerar energia, a indústria já teria motivos o suficiente para evitar vazamentos, mesmo sem regulação.

Em uma nota reproduzida pelo jornal americano Washington Post, o administrador da Agência de Proteção Ambiental, Andrew Wheeler, afirmou que o plano “remove medidas regulatórias desnecessárias e duplicadas sobre a indústria de óleo e gás”.

“A administração Trump reconhece que o metano é valioso, e que a indústria tem um incentivo para minimizar vazamentos e maximizar o uso da medida”, escreveu Wheeler.

No documento em que apresenta a proposta, entidade reconhece que a qualidade do ar pode ser afetada. Ela admitiu que a liberação de compostos orgânicos junto ao metano “degradará a qualidade do ar e deve afetar adversamente a saúde e o bem estar”. A entidade afirmou, porém, que é incapaz, atualmente, de quantificar esse impacto.

Em entrevista ao Washington Post, David McCabe, cientista da organização sem fins lucrativos Clean Air Task Force, que combate o aquecimento global, contrariou a alegação de que as restrições seriam supérfluas. “As melhores informações que temos são de que as emissões caíram por causa de regulações”, disse. 

A posição das empresas

Algumas das maiores companhias do setor de combustíveis fósseis, como Exxon, Shell e BP, opuseram-se à proposta de Trump. Em uma nota pública, a presidente da Shell nos EUA, Gretchen Watkins, afirmou que:

“A Shell continua comprometida com sua meta de manter uma intensidade de emissões de metano abaixo de 0,2% até 2025, para todas as unidades operacionais, globalmente. Apesar da proposta da administração de deixar de regular o metano, os ativos da Shell nos EUA continuarão a contribuir para essa meta global”

Gretchen Watkins

Presidente da Shell nos Estados Unidos

Após ser questionada sobre a oposição oferecida pelas grandes empresas, Anne Idsal, assistente do escritório da Agência de Proteção Ambiental para Ar e Radiação dos Estados Unidos, afirmou, em 29 de agosto, que “existem companhias pequenas e de tamanho médio também. E, francamente, elas certamente indicaram que querem isso [as mudanças na regulação]”.

Trump e o clima

Acordo de Paris

Em junho de 2017, Trump anunciou que pretendia retirar os EUA do Acordo de Paris. Assinado em 2016, o documento é a maior iniciativa diplomática do mundo para combater o aquecimento global.

Reservas ambientais

Em dezembro de 2017, o governo reduziu em 8.000 km² o tamanho das reservas ambientais de Bears Ears e de Grand Staircase-Escalante, no estado de Utah. Foi a maior redução de reservas da história americana.

Hidrofluorcarbonos

Em 2018, o governo deixou de exigir a aplicação de regras contrárias à emissão por refrigeradores e ares condicionados de gases causadores do efeito estufa.

Menos controle

Em agosto de 2018, o governo americano suspendeu regras voltadas a controlar a emissão de poluentes por usinas termelétricas a base de carvão mineral. Na época, a Agência de Proteção Ambiental admitiu que a medida poderia resultar em um número adicional de 1.400 mortes prematuras a partir de 2030.

Menos recaptura de metano

Em setembro de 2018, o Departamento do Interior afrouxou as exigências para que novas unidades produtoras de petróleo e gás operando em áreas federais ou sob responsabilidade de povos indígenas instalassem tecnologia para recapturar gás metano liberado. Na época, entidades dedicadas à  proteção ao meio ambiente afirmaram que iriam combater a medida nos tribunais.

Menos eficiência

Em 2018, o governo Trump anunciou planos de congelar as exigências legais sobre carros e caminhões produzidos nos Estados Unidos, que determinam que utilizem tecnologias mais eficientes e menos poluentes. Apesar disso, grandes fabricantes fecharam em julho de 2019 um acordo com o estado da Califórnia em que se comprometem a produzir carros mais eficientes.

 

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