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O que fez o PIB crescer 0,4% no segundo trimestre de 2019

Demanda foi alavancada por investimentos e indústria teve melhor resultado em um ano e meio, mostra IBGE. O 'Nexo' falou com dois especialistas sobre o que os números significam para a economia brasileira

     

     

    O IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) divulgou na quinta-feira (29) que o PIB (Produto Interno Bruto) do Brasil cresceu 0,4% no segundo trimestre de 2019, em relação ao trimestre anterior.

     

    O PIB é o resultado da soma de todos os bens e serviços produzidos no país em certo período. Ele computa os novos bens e serviços que a economia produziu no recorte de tempo escolhido. Em sua metodologia, o IBGE contabiliza apenas os produtos finais, para evitar contagem dupla de valores.

     

    O resultado do PIB no primeiro trimestre de 2019 foi negativo em 0,1%. Até a divulgação dos novos dados, o temor era de que o PIB brasileiro caísse por mais um trimestre, o que poderia configurar um cenário de recessão. Segundo os critérios adotados pelo CODACE (Comitê de Datação de Ciclos Econômicos), o Brasil enfrentou uma recessão entre o segundo trimestre de 2014 e o quarto trimestre de 2016; foram onze períodos consecutivos de quadro recessivo, sequência que foi interrompida no primeiro trimestre de 2017.

     

    PIB

     

     

    O crescimento no segundo trimestre de 2019 foi de 0,4% em relação ao primeiro trimestre, enquanto a variação na comparação com o segundo trimestre de 2018 foi de 1,0%.

     

    Para especialistas consultados pelo Nexo, o atual ritmo de crescimento da economia brasileira é baixo. Segundo os dados do IBGE, a indústria foi o setor que mais cresceu, e a demanda foi alavancada pelos investimentos.

     

     

     

    Indústria

     

    No segundo trimestre de 2019, em comparação ao primeiro trimestre, a indústria cresceu 0,7%, o melhor desempenho desde o último trimestre de 2017, ou seja, em sete trimestres. Foi o setor que mais registrou crescimento.

     

    DESEMPENHO DA INDÚSTRIA

     

     

    O resultado do setor no período foi alavancado pelos desempenhos da construção civil, que cresceu 1,9%, e da indústria de transformação, que elevou sua produção em 2,0%. Já a indústria extrativa caiu 3,8%, muito por conta dos desdobramentos da tragédia de Brumadinho. O segmento que reúne eletricidade, gás, água, esgoto e atividades de gestão de resíduos encolheu 0,7%.

     

    No acumulado dos últimos quatro trimestres, a indústria teve uma variação negativa de 0,1%. Isso significa que o resultado positivo do segundo trimestre de 2019 não foi capaz de compensar plenamente a queda da atividade industrial nos trimestres anteriores.

     

     

    Agropecuária

     

    As atividades em agropecuária apresentaram uma queda de 0,4% no segundo trimestre de 2019. No primeiro trimestre, o setor havia crescido 1,6% após três períodos consecutivos de queda.

     

    DESEMPENHO DA AGROPECUÁRIA

     

     

    O resultado acumulado do setor nos últimos quatro trimestres foi positivo, com variação de 1,1%. Segundo o IBGE, isso se deve a safras de algodão e de milho, que tiveram crescimento significativo.

     

    A soja, por sua vez, principal produto de exportação brasileiro, tem passado por um momento de queda em 2019. O movimento é motivado pela redução da demanda da China pelo grão em meio à desaceleração de sua economia e à guerra comercial com os EUA.

     

     

    Serviços

     

    Assim com a indústria, o setor de serviços também ajudou a elevar o PIB brasileiro no segundo trimestre de 2019. A variação positiva de 0,3% resultou no décimo trimestre consecutivo de crescimento no setor.

     

    DESEMPENHO DOS SERVIÇOS

     

     

    Dentro do conjunto de serviços, os desempenhos mais elevados foram no comércio e nas atividades imobiliárias, que cresceram 0,7% cada um. Já os transportes, armazenagem e correios caíram 0,3%. O grupo formado por saúde, educação pública, seguridade social, administração e defesa apresentou queda de 0,6%.

     

    No acumulado em quatro trimestres, contando a partir do terceiro trimestre de 2018, o setor de serviços cresceu 1,2%.

     

     

    O cenário interno

     

    A economia interna é composta por três frentes: investimentos, consumo das famílias e consumo do governo. No segundo trimestre de 2019, os investimentos (computados pelo IBGE como ‘formação bruta de capital fixo’) e o consumo privado tiveram alta de 3,2% e 0,3%, respectivamente.

     

    O consumo do governo, por sua vez, caiu em 1,0%, o que representa a maior queda desde o primeiro trimestre de 2014, quando a variação trimestral foi de -1,2%.

     

    CENÁRIO INTERNO

     

     

    O investimento, portanto, foi a principal alavanca do crescimento de 0,4% do PIB no segundo trimestre de 2019. No acumulado dos últimos quatro trimestres, os investimentos tiveram alta de 4,3%.

     

    O consumo privado, por sua vez, acumulou um crescimento de 1,5% nos quatro últimos períodos, repetindo o resultado relativo ao primeiro trimestre de 2019.

     

    O consumo do governo acumulou queda de 0,2% em quatro trimestres, mantendo a tendência de baixa que já dura desde o segundo trimestre de 2015. Nos 17 trimestres entre o segundo de 2015 e o segundo de 2019, apenas três não tiveram resultado negativo acumulado em quatro trimestres. Foram eles: o último trimestre de 2016 (0,2%), o terceiro trimestre de 2018 (0,2%) e o quarto período de 2018 (0,0%).

     

     

    O cenário externo

     

    As relações de demanda entre o Brasil e o exterior englobam os resultados de exportação e importação do Brasil. No segundo trimestre de 2019, as exportações encolheram em 1,6%, enquanto as importações subiram 1,0%.

     

    CENÁRIO EXTERNO

     

     

    Isso significa que, nos dois períodos registrados pelo IBGE em 2019, a demanda por produtos brasileiros no exterior caiu, enquanto os brasileiros compraram mais de fora em relação ao trimestre anterior.

     

    No acumulado de quatro trimestres, as exportações subiram 4,3%, e as importações tiveram alta de 5,4%.

     

    Com base nos números divulgados pelo IBGE, o Nexo conversou com dois especialistas sobre o andamento da economia brasileira em 2019 e as perspectivas para o futuro.

     

    • Guilherme Mello, professor de economia da Unicamp
    • Luka Barbosa, economista do Itaú Unibanco

     

    Que diagnóstico pode ser feito a respeito dos números do PIB no segundo trimestre de 2019?

    Guilherme Mello O diagnóstico é que o cenário de fato não é positivo, porque mesmo esse crescimento de 0,4% indica uma trajetória de semi-estagnação da economia, dado que o trimestre passado teve queda do PIB. Desde 2017 o Brasil vem nesse ritmo: cresce um pouquinho mais em um trimestre, um pouquinho menos no outro e no final o resultado é 1,0% ou 0,5% de crescimento anual. É um cenário de estagnação pós-recessão, o que caracteriza uma depressão econômica. Há cinco anos, estamos ou em recessão ou em estagnação. Então, não é um resultado para animar ninguém, nem para ser comemorado.

     

    O lado positivo dessa história é que havia a possibilidade, indicada inclusive pelo dado do IBC-Br, do Banco Central, de que o Brasil tivesse entrado em recessão técnica. No primeiro trimestre já havia ocorrido uma queda de 0,1% e, se no segundo trimestre ocorresse uma queda em relação ao trimestre anterior, estaríamos, tecnicamente, em recessão.

     

    Isso não aconteceu; essa é a boa notícia. E o resultado do PIB, de alguma forma, surpreendeu. Se você pegar a média das expectativas dos analistas, eles esperavam crescimento basicamente de 0,2%. Alguns até falavam 0,0% ou -0,1%, mas a média ficava em torno de 0,2%. E veio 0,4%

     

    Luka Barbosa O crescimento apresentado nos números do IBGE é um crescimento mais alto do que no primeiro trimestre. Nesse sentido, a informação é positiva. Mas lembramos sempre que os dados trimestrais são bastante voláteis. Fazemos uma métrica aqui de crescimento subjacente, que exclui a volatilidade normal que o PIB tem. Pegamos quatro tipos diferentes de dados - confiança do empresário, crédito, criação de emprego formal e difusão de dados -, que são dados de histórico longo e bem medidos, e que achamos que dão pouca volatilidade e sinais falsos. Então fazemos quatro regressões diferentes, colocando o PIB para ser explicado por cada um desses grupos de variáveis, e tiramos a média dessas quatro regressões.

     

    Com essa métrica, vemos uma economia crescendo à taxa anualizada de 1% há mais de dois anos. E não está ocorrendo nenhuma aceleração, nem quando olhamos para essa métrica de crescimento subjacente. Então o que vemos é uma economia crescendo pouco ainda.

     

    Entre os componentes do PIB, chama atenção o setor de construção civil, que teve uma leve alta depois de vários anos de contração. É cedo ainda para dizer que é uma reversão de tendência ou que já está estabilizando a atividade no setor, mas pelo menos é um sinal positivo. Se a atividade de construção parar de cair, já dá algum alívio para a atividade econômica. Acho que esse é o principal destaque na divulgação do IBGE.

     

     

    De que maneira as medidas econômicas do governo Bolsonaro contribuíram para o crescimento de 0,4% no segundo trimestre?

    Guilherme Mello Não acho que a política econômica deste governo tenha influenciado diretamente neste resultado. Como é um resultado fraco, isso indica que a política que vem sendo adotada desde 2016, com o governo Temer (e até antes, com o governo Dilma), está sendo incapaz de recuperar o crescimento brasileiro. O máximo que ocorre são miniciclos, pequenos momentos de crescimento econômico. E isso resulta em um crescimento muito baixo de 1%, mas com alto desemprego e renda baixa.

     

    O governo Bolsonaro começou há 8 meses, então os impactos são limitados. Mas a política econômica não resolveu o dilema do baixo crescimento brasileiro. Continuamos com baixo crescimento, alto desemprego e dependentes desses miniciclos, seja de exportação de commodities ou coisas desse tipo.

    Luka Barbosa As medidas do governo Bolsonaro contribuíram muito pouco. As reformas e medidas que são feitas hoje têm impacto no futuro; o que é feito hoje dificilmente tem impacto já hoje.

     

    Todas as reformas que o governo tem feito, e que já começam na administração anterior, em 2016, tendem a gerar um crescimento mais elevado no longo prazo. São reformas destinadas a aumentar a produtividade, melhorar o ambiente de negócios. Isso vai ter um impacto positivo na economia, mas é mais no longo prazo. É difícil ver esse impacto ocorrendo no curtíssimo prazo.

     

     

    Quais as perspectivas para a economia brasileira no restante de 2019 e para 2020?

    Guilherme Mello Para 2019, parece que o cenário é muito parecido com 2018. Crescimento baixo, em torno de 1% ou um pouco menos, que se dá em cima de um PIB já em um patamar bastante baixo (porque tivemos a recessão de 2015-2016). Então a perspectiva é de baixo crescimento e alto desemprego, porque também esse crescimento tem se mostrado incapaz de gerar bons empregos - empregos com salário e condições de renda razoáveis.

     

    Não enxergo nenhum caminho de recuperação mais robusta do Brasil em 2020, dada a política macroeconômica. Os juros muito provavelmente vão cair, como estão caindo no mundo inteiro. Mas isso não se reverte em investimento porque não existe demanda, nem do resto do mundo, nem daqui de dentro.

     

    O resultado vai depender de vários fatores. Como vai se resolver a questão da guerra comercial, que tem impactos importantes para o Brasil? Como vai estar a Argentina, que é um parceiro comercial importante do Brasil, até lá? Qual vai ser o tamanho da desaceleração global? Está ocorrendo uma desaceleração global, isso é nítido – todos os dados mostram, mas não há clareza do tamanho e de como isso pode impactar em termos de uma nova crise ou coisas do tipo.

     

    Por fim, há um fator interno em 2020, que é como a sociedade brasileira vai reagir a mais um ano de arrocho e eventualmente até de shutdown do governo (que já está acontecendo). Isso pode causar um mal-estar que reverte expectativas e adia decisões de investimento. Então há fatores internos e externos que conspiram para um 2020 que pode ser até mais problemático do que 2019.

    Luka Barbosa Há alguns fatores contribuindo positivamente para o crescimento da economia, como a queda de juros e o crescimento do crédito privado. Por outro lado, há fatores afetando negativamente o crescimento no Brasil. Um deles, muito importante, é a desaceleração da economia global. Vemos EUA e China desacelerando por causa da guerra comercial e isso tem efeito importante na economia brasileira.

     

    Além disso, a crise fiscal também tem seu efeito negativo sobre a atividade. Vemos que os gastos obrigatórios – principalmente com previdência – crescem rapidamente e tiram espaço de outras despesas que o governo tem, sendo a mais importante delas o investimento público. É muito importante que aprofundemos e aceleremos as mudanças de legislação e de gastos obrigatórios para ter mais espaço para o investimento público à frente.

     

    A reforma da previdência é um primeiro passo importante nessa direção, mas ela infelizmente ainda não incluiu os estados e municípios. Então o que provavelmente continuaremos vendo é a contração do investimento público estadual e municipal. Investimento é a despesa mais fácil de cortar, mas a que tem impacto mais negativo sobre a atividade.

     

    Há alguns fatores contribuindo positivamente e outros negativamente. Em meio a esses fatores todos, acreditamos que a economia crescerá 0,8% em 2019 [no acumulado do ano] e 1,7% em 2020.

     

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