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Como esta ópera sobre abuso sexual reinventa o papel das mulheres nos palcos

Compositora e dramaturga de ‘Prism’, que estreia no Theatro Municipal de São Paulo em setembro, falam sobre a repaginação das narrativas contadas pelo gênero teatral

     

    A partir de 4 de setembro de 2019, o Theatro Municipal de São Paulo exibe a ópera contemporânea “Prism”.

    Com composição musical de Ellen Reid e texto de Roxie Perkins, ambas americanas, o espetáculo tem o abuso sexual como tema. E essa não é a única singularidade da peça: após quase três décadas, a casa volta a apresentar uma ópera escrita por uma mulher - a última foi “Fata Morgana” (1990), da musicista Jocy de OIiveira.

    O trama é centrada na superação de um evento traumático por uma mãe e uma filha, Lumee e Bibi, únicas personagens da peça. Trata-se de um abuso sexual, que não se revela imediatamente.

    Ao Nexo Perkins e Reid afirmaram considerar “Prism” uma ópera feminista.

    “Só o fato de eu tê-la escrito já é um ato feminista”, disse a compositora Ellen Reid. A obra é seu trabalho de estreia no campo operístico. “Mas acredito que ela é sobre algo maior e mais universal, não só sobre mulheres. ‘Prism’ é sobre perda e vontade de sobreviver, e esses temas transcendem gênero e época”.

     

    “Prism” foi vencedora do prêmio Pulitzer de música em 2019. A ópera estreou em Los Angeles em novembro de 2018 e foi apresentada também em Nova York em janeiro de 2019 antes de ser trazida a São Paulo, onde fica em cartaz até 14 de setembro deste ano.

    Qual a estrutura da narrativa

    O primeiro ato da peça tem início em um pequeno cômodo, chamado pelas personagens da mãe e da filha de “santuário” – é esse o prisma (“prism”) que dá nome à obra. Bibi é vítima de uma condição que faz com que suas pernas não se movam. Frágil, ela recebe cuidados extremados de sua mãe, que quer impedir que ela deixe aquele espaço. A princípio, não se sabe por quê. No segundo ato, a narrativa recua no tempo para explicar a primeira parte, e, no terceiro e último ato, a história se desenrola no presente.

    Além das duas personagens, um coro e quatro bailarinos entram em cena, se relacionando com as emoções e projeções de Bibi.

     

    Apesar de tratar de um abuso sexual, o personagem do abusador está ausente. Em uma entrevista concedida à Los Angeles Opera, a dramaturga Roxie Perkins declarou que, normalmente, histórias tradicionais se encerram com um evento traumático ou fazem dele seu clímax.

    Em “Prism”, ao contrário, elas estavam interessadas em explorar o trauma secundário de sobreviver a este evento, abordando a maneira como ele afeta a vida, as relações e como vítima enxerga a si mesma.

    A montagem no Brasil

    Na capital paulista, a montagem mantém de sua equipe original a soprano Anna Schubert, que interpreta Bibi, a mezzo soprano Rebecca Jo Loeb, no papel de sua mãe, e James Darrah na direção cênica. O espetáculo conta ainda com acompanhamento da Orquestra Sinfônica Municipal, sob direção musical e regência de Roberto Minczuk, e com a participação do Coral Paulistano, dirigido pela maestrina Naomi Munakata.

    A produção é da Beth Morrison Projects, produtora de óperas contemporâneas fundada em 2006. À Folha de S.Paulo, Beth Morrison, que foi cantora do gênero, afirmou que seu objetivo com a empresa é criar um novo tipo de ópera, mais socialmente relevante e menos convencional, em que vozes jovens falassem de temas do presente.

    Um outro ponto de vista

    Histórias de abuso e violência contra mulheres são abundantes na ópera. O viés misógino de muitas obras canônicas vem sendo apontado há algumas décadas: em 1979, a filósofa francesa Catherine Clément lançou o livro “L'Opéra Ou La Défaite Des Femmes” (“A ópera ou a derrota das mulheres”, em tradução livre), um estudo em que examina como os enredos operísticos tradicionais são frequentemente centrados na destruição física ou psicológica de uma personagem feminina.

    Para Clément, assim como outros produtos culturais, a ópera reflete a dominação masculina e a opressão das mulheres, mas faz isso de maneira mais evidente e sedutora do que qualquer outra forma de arte. O espectador assiste à morte das mulheres, segundo ela, sem nem se perguntar por que, desde que aquela linda voz continue cantando.  

    Em um artigo de 2016 para o jornal The Guardian, a jornalista Charlotte Higgins procura responder a pergunta se “a ópera é a forma de arte mais misógina”. Ao refletir sobre a questão, ela elenca alguns fatores. Um é que o repertório do gênero é pouco atualizado, o que faz com que se continue apresentando até hoje quase sempre as mesmas obras, com enredos em que as mulheres são condenadas à morte ou à loucura. Outro é o fato de se tratar uma forma de arte cara, elitizada e que conta, ainda, com poucas compositoras mulheres.                                                                                

    Apesar de também tematizar o abuso, “Prism” adota o ponto de vista da vítima, que sobrevive e narra sua experiência após o trauma.

    “É imperativo que a ópera comece a contar histórias, especialmente as de abuso, da perspectiva dos sobreviventes e não dos abusadores. É a única maneira de uma obra criar novos diálogos em torno de temas difíceis, inspirar empatia com os sobreviventes e, com sorte, provocar mudanças reais”

    Roxie Perkins

    Em entrevista ao Nexo 

    Outras montagens e obras contemporâneas também têm se proposto a questionar o tratamento dado às personagens femininas.

    Em 2017, sob direção do italiano Leo Muscato, a ópera “Carmen”, de Georges Bizet, foi apresentada no teatro Maggio Musicale, em Florença, com um desfecho diferente do original. Na obra do século 19 a protagonista é assassinada por seu par romântico, Don José. Já na versão de Muscato, é Carmen quem o mata, o que deu ao espetáculo uma conotação de alerta para os feminicídios ocorridos na Itália.

    A pedido do Nexo as autoras de “Prism” enumeraram alguns trabalhos que têm investido nessa abordagem.

    Ellen Reid citou “Breaking the waves”, da compositora americana Missy Mazzoli. Inspirada no filme homônimo de Lars von Trier, a ópera estreou em 2016 nos Estados Unidos. Ela também destaca “Thumbprint”, de Kamala Sankaram e Susan Yankowitz, inspirada nas experiências de Mukhtar Mai, paquistanesa que foi vítima de um estupro coletivo. “Esses dois trabalhos mergulham nas mentes de suas personagens femininas e revelam a complexidade profunda e com nuances de questões relacionadas ao sexo, ao corpo das mulheres e à psicologia”, diz.

    Para a dramaturga Roxie Perkins, as compositoras Du Yun e Paola Prestini estão trazendo “perspectivas novas e cruciais para a mesa”.

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