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Por que o governo dos EUA investiga os cigarros eletrônicos. E a rediscussão no Brasil

Autoridades investigam se uma morte está associada ao hábito, e classificam o fumo do dispositivo como “epidemia” entre jovens. Especialistas dizem que danos à saúde ainda estão sendo compreendidos

 

No dia 23 de agosto, autoridades americanas anunciaram que um homem do estado americano de Illinois morreu de uma doença pulmonar que pode estar ligada ao hábito de fumar cigarros eletrônicos, conhecido popularmente como “vaping”.

Este e outros 193 casos de pessoas com problemas pulmonares e o hábito de fumar cigarros eletrônicos estão sendo estudados pelo Centro de Controle de Doenças, uma entidade do governo americano que tem a função de pesquisar e promover a saúde pública no país.

Em nota, o diretor de Saúde Pública de Illinois, Ngozi Ezike, afirmou que “a gravidade das doenças que as pessoas enfrentam é alarmante, e precisamos divulgar que o uso de cigarros eletrônicos pode ser perigoso”.

Cigarros eletrônicos são usados normalmente para consumir nicotina, uma substância extremamente viciante presente no tabaco.

Propagandeados como uma alternativa menos nociva ao cigarro comum, eles têm ganhado mercado nos Estados Unidos. Jovens com menos de 18 anos, que são proibidos de fumar no país, têm aderido à moda de aparelhos que se parecem com pendrives, ou pequenos brinquedos.

No Brasil, a comercialização, a publicidade e a promoção de cigarros eletrônicos está proibida desde 2009 pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária). O mesmo vale para seus acessórios e refis.

Uma nova avaliação desses aparelhos consta na agenda regulatória da entidade para o período de 2017 a 2020, o que significa que a proibição pode ser reconsiderada.

O órgão vem realizando um ciclo de audiências públicas para debater os cigarros eletrônicos. A terceira audiência, sem poder decisório, foi no dia 27 de agosto, no Rio de Janeiro. Ela contou com companhias tabagistas, entidades médicas e de pesquisa.

A Anvisa fixou um prazo de uma semana a partir do dia 27 para que as entidades interessadas no assunto enviem documentos e subsídios para dar continuidade ao processo. Ainda não foi definida data para deliberar sobre a possibilidade de liberação e regulamentação dos cigarros eletrônicos.

Como funcionam os cigarros eletrônicos

Os primeiros cigarros eletrônicos comerciais foram desenvolvidos pelo farmacêutico chinês Hon Lik, e foram lançados naquele país em 2003. Eles chegaram no mercado americano em 2006.

Enquanto cigarros comuns realizam a combustão de fumo sólido, o cigarro eletrônico utiliza líquidos que, quando aquecidos pelo aparelho, se transformam em um aerossol - uma mistura de gases com partículas sólidas ou líquidas suspensas. Por isso, fala-se em “vaping”, ou vaporização.

A promessa dos cigarros eletrônicos

Originalmente, cigarros eletrônicos foram apresentados como substitutos dos cigarros tradicionais de tabaco. Eles também têm sido apresentados como substitutos do fumo tradicional de maconha, droga que vem sendo legalizada em vários estados americanos.

Os líquidos usados nos cigarros eletrônicos são compostos por substâncias como nicotina, propilenoglicol, flavorizantes, ácido benzoico e aditivos. Óleos a base de maconha, contendo THC, também são comercializados.

Empresas que vendem os cigarros eletrônicos alegam que esse método de fumar seria menos danoso do que o tradicional, por não liberar as mesmas substâncias que são liberadas na combustão. Assim como adesivos de nicotina, por exemplo, o equipamento poderia servir para ajudar fumantes a obterem a substância sem fumar os cigarros tradicionais, aderindo à tecnologia supostamente menos nociva.

O temor em torno dos cigarros eletrônicos

Nos Estados Unidos, a empresa Juul Labs, controlada pela Altria, a mesma fabricante da marca Marlboro, é uma das principais responsáveis por transformar os cigarros eletrônicos em uma indústria bilionária nos últimos anos.

Ela lançou um tipo de cigarro eletrônico com um design minimalista, que se parece com um pendrive.

A companhia afirma reiteradamente que o aparelho não é voltado a novos consumidores, e sim a pessoas que já fumavam e que desejam substituir o cigarro tradicional.

As campanhas publicitárias da novidade focaram em redes sociais, usando modelos jovens e descolados. E há sinais de que, na prática, cigarros eletrônicos têm servido para viciar novos públicos, especialmente jovens, à nicotina.

O Surgeon General, órgão do governo americano que é o principal responsável por informar o público sobre questões de saúde, divulgou um relatório em 2018 no qual classifica a adesão de jovens a cigarros eletrônicos como uma “epidemia”.

20%

Dos alunos do ensino médio americano eram fumantes de cigarros eletrônicos em 2018, segundo informações do governo americano

Como são produtos novos, sabe-se ainda relativamente pouco sobre os riscos à saúde causados pelos cigarros eletrônicos. A ideia de que são um mal menor quando comparados com os cigarros tradicionais não é consenso.

“Há dois anos, eu diria que cigarros eletrônicos representariam 25% do perigo dos cigarros tradicionais. Agora, acho que representam entre 75% e o mesmo grau de risco dos cigarros tradicionais. Apesar de não ter muitas das substâncias geradas ao queimar o tabaco, há outras.”

Stanton Glantz

Pesquisador do Centro para Controle de Tabaco e diretor de educação da Universidade da Califórnia, em entrevista em 2019 à rede CNBC

A rediscussão dos cigarros eletrônicos no Brasil

Ao proibir os cigarros eletrônicos em 2009, a Anvisa avaliou que não havia comprovação científica sobre a eficácia e a segurança desse tipo de produto.

Mesmo com a ilegalidade, há brasileiros importando e utilizando os aparelhos. Mas o “3º Levantamento sobre o uso de drogas pela população brasileira”, encomendado pelo governo e realizada pela Fundação Oswaldo Cruz, indica que eles ainda são relativamente raros. A pesquisa foi feita entre maio e outubro de 2015 com 17 mil brasileiros de idades entre 12 e 64 anos.

0,43%

Das pessoas entrevistadas afirmaram que haviam fumado cigarros eletrônicos nos 12 meses anteriores

A pesquisadora da Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca, ligada à Fundação Oswaldo Cruz, Valeska Figueiredo, esteve presente na audiência pública promovida pela Anvisa no dia 27 de agosto para discutir os riscos dos cigarros eletrônicos. O Nexo conversou com ela sobre esses aparelhos.

O que se sabe sobre os riscos dos cigarros eletrônicos?

Valeska Figueiredo A indústria o defende como um produto que poderia ser usado para parar de fumar, mas não há estudos independentes que comprovem que ele realmente é um bom procedimento. Quando se compara com outras terapias de reposição de nicotina, a taxa de pessoas que param de fumar é a mesma, ou até menor.

Quando se faz estudos toxicológicos, o cigarro eletrônico traz grande risco de exposição à nicotina, em especial. Eles têm grande apelo estético para pessoas muito jovens. E cada vez mais se percebe que estão surgindo jovens gravemente dependentes, inclusive com síndrome de dependência.

O que ainda não se sabe sobre os riscos?

Valeska Figueiredo Estudos de toxicologia a partir de marcadores no sangue mostram que algumas substâncias aparecem em nível mais baixo em comparação com quem usa o cigarro tradicional.

Mas o cigarro eletrônico tem outras substâncias, como o glicerol. E ele tem cristais de nicotina, que não é a forma como ela era consumida. Isso é novo, e pode ser que, com o tempo, se revele um grande problema de saúde pública.

Têm surgido nos Estados Unidos casos de jovens com doenças pulmonares cujo único fator em comum é que fumavam cigarros eletrônicos.

Estamos em um processo de conhecimento, vamos ter que estudar esses aparelhos durante décadas para entender quanto tempo de exposição a cristais de nicotina poderia levar alguém a adoecer.

Qual é a situação desses produtos no Brasil?

Valeska Figueiredo O Brasil tem uma situação vantajosa. Todas as pesquisas desde o final da década de 1980 indicam declínio de pessoas que fumam, entre adultos e jovens.

Ainda podemos adotar novas medidas, como conter o contrabando e cobrar impostos mais robustos, porque o preço mínimo do cigarro é muito baixo no Brasil. 

Você vê muito pouca gente usando esses cigarros eletrônicos, e o grande risco é que haja uma reversão da tendência de diminuição de consumo com a entrada desses produtos de mercado. Eles têm pontos de venda e de propaganda direcionados para o jovem, em festas, com imagens de mulheres bonitas e muito jovens. Podemos ter um retrocesso no campo da saúde pública.

 

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