Ir direto ao conteúdo

O que é o balanço de pagamentos. E o que dizem seus números

Dados do Banco Central mostram a entrada e saída de dinheiro do Brasil até julho de 2019, indicando variações no investimento direto e na balança comercial

     

     

    O Banco Central divulgou na segunda-feira (26) os dados do balanço de pagamentos do Brasil em julho de 2019. O balanço de pagamentos é a contabilidade de todo o dinheiro que entra e sai de um país.

    Ele engloba a balança comercial, que computa as exportações e importações de bens, mas não se restringe a ela. Também inclui movimentações de outras naturezas, como serviços, lucros, investimentos e transações financeiras.

    A partir do balanço de pagamentos, é possível fazer uma análise das transações que um país mantém com o resto do mundo. Em uma economia aberta, como a brasileira, o balanço de pagamentos permite decompor o saldo de divisas (moeda estrangeira) do país, compreendendo a posição do Brasil com relação ao exterior em cada tipo de movimentação de dinheiro. Isso significa que o balanço de pagamentos permite entender onde está entrando e onde está saindo dinheiro e quanto está sendo movimentado em cada conta.

     

    O que faz parte do balanço de pagamentos

     

    O balanço de pagamentos, em termos formais, registra todas as movimentações de dinheiro entre residentes e não residentes de um país.

     

    Na metodologia adotada, são consideradas residentes pessoas físicas e jurídicas que têm no Brasil o seu principal centro de interesse. Isso inclui moradores permanentes, empresas sediadas no local (entre elas, filiais de firmas estrangeiras), o governo e embaixadas e consulados do país no exterior. Não residentes são aqueles não contidos no grupo de residentes. 

     

    As movimentações do balanço de pagamentos são registradas em dólares pelo Banco Central, que classifica as diferentes formas de ingresso e saída de moeda estrangeira a partir de um sistema internacional de diretrizes de contabilidade, definido pelo FMI (Fundo Monetário Internacional).

     

    O balanço de pagamentos, portanto, dá um panorama geral de como o país se relacionou com o resto do mundo durante um determinado período. Ele se divide em contas, que, por sua vez, são subdivididas em algumas partes. As principais contas são:

     

    • Conta de transações correntes
    • Conta capital
    • Conta financeira

     

     

    Conta de transações correntes

     

    Em linhas gerais, a conta de transações computa todas as movimentações não financeiras de um país. Isso inclui importações e exportações, que formam a chamada balança comercial. O saldo da balança se refere à diferença entre exportações e importações. Nos primeiros sete meses de 2019, a balança comercial do Brasil acumulou saldo positivo de US$ 24,3 bilhões, inferior aos US$ 31,2 bilhões registrados no mesmo período de 2018.

     

    IMPORTAÇÕES E EXPORTAÇÕES

     

     

     

    Mas as transações correntes vão além da balança comercial. Elas também englobam a balança de serviços, que inclui gastos de turismo (tanto de brasileiros no exterior como de estrangeiros aqui), pagamento de seguros, fretes, transportes e royalties. A balança de serviços tende a ser deficitária no Brasil, o que significa que, normalmente, mais dinheiro sai do que entra quando se trata desses gastos. Em julho de 2019, o déficit registrado pela balança de serviços foi de quase US$ 3,0 bilhões. No acumulado de 2019, o saldo negativo é da ordem de US$ 19,0 bilhões.

     

    A balança de rendas, que computa as movimentações de lucros, juros e salários, também compõe a de transações correntes. Assim, quando uma subsidiária de empresa brasileira no exterior remete lucros à sede, isso é registrado no Brasil como uma entrada de divisas. Quando uma empresa estrangeira no Brasil manda lucros para a matriz, é computada uma saída de dólares.

     

    A balança de rendas costuma ter resultado negativo no Brasil. No saldo de julho de 2019, US$ 7,9 bilhões saíram do país em forma de lucros, salários e juros. No acumulado dos sete primeiros meses do ano, a saída líquida foi de US$ 28,9 bilhões, o que representa um aumento de 14,7% em relação ao mesmo período de 2018 (US$ 25,2 bilhões).

     

    Além disso, a conta de transações correntes também traz as transferências unilaterais, que são as quantias enviadas entre familiares que moram em diferentes países, e que se somam às doações de caráter internacional.

     

    Somando todas as contas descritas acima, os dados mostram que, em julho de 2019, o saldo de transações correntes foi negativo em US$ 9,0 bilhões, o que representa uma variação de 105,5% para baixo em relação ao mesmo mês em 2018 (US$ 4,4 bilhões).

     

    TRANSAÇÕES CORRENTES

     

     

     

    No acumulado dos primeiros sete meses do ano, o déficit é de US$ 21,7 bilhões; no mesmo período do ano anterior, o valor registrado foi de US$ 12,3 bilhões. Quando se olha para o acumulado em 12 meses, percebe-se que o déficit da conta corrente está aumentando, inclusive como proporção do PIB.

     

    ACUMULADO DE 12 MESES

     

     

     

     

    Conta capital

     

    A conta capital registra as chamadas transferências unilaterais de capitais. Ela computa a transferência de patrimônio de imigrantes e aquisições de bens não financeiros, como patentes e marcas. Portanto, quando uma pessoa se muda de país, levando seu patrimônio, essa entrada ou saída de dinheiro é contabilizada na conta capital.

     

    Esta conta geralmente não é tão expressiva em termos quantitativos. Em julho de 2019, o saldo brasileiro foi positivo em US$ 67 milhões.

     

    Conta financeira

     

    A conta financeira computa os investimentos, financiamentos e empréstimos entre países. Dessa forma, entram em seu saldo as movimentações financeiras realizadas entre residentes e não residentes de um local.

     

    No Brasil, a maior parte da conta financeira é composta por investimentos diretos vindos do exterior. Os investimentos diretos incluem todas as aquisições e vendas de capital produtivo – não envolvem, portanto, os investimentos em ações e outros ativos financeiros. No caso brasileiro, as empresas estrangeiras costumam investir mais no país do que as locais no exterior. O valor do investimento externo direto no Brasil tem crescido nos últimos meses.

     

    ACUMULADO DE 12 MESES

     

     

     

    A conta financeira também engloba os chamados investimentos em carteira, que são as transações de ativos financeiros, como ações na bolsa de valores e títulos públicos.

     

    Os números do Banco Central vão só até julho. Mais recentemente, nas primeiras semanas de agosto, a bolsa de valores de São Paulo registrou fuga de capitais estrangeiros em quantias significativas.

     

    Segundo os dados do Banco Central, o saldo de tudo que entrou e saiu na conta financeira entre janeiro e julho de 2019 foi positivo em US$ 19,5 bilhões. Só em julho, entraram US$ 8,3 bilhões.

     

    CONTA FINANCEIRA

     

     

     

    Pela metodologia BPM6, seguida pelo Banco Central desde 2015, o saldo da conta financeira, subtraído dos saldos das contas capital e de transações correntes, equivale aos erros e omissões da contabilidade do balanço de pagamentos.

     

     

    As reservas do Banco Central

     

    O Banco Central possui reservas em moedas estrangeiras e, por isso, também participa das movimentações de divisas no Brasil. O BC pode usar as reservas para compensar a saída de dólares do Brasil, por exemplo.

     

    Nos primeiros sete meses de 2019, as reservas passaram de US$ 374,7 bilhões para US$ 385,7 bilhões, o que representa um aumento de 2,9%. Quando observado apenas o mês mais recente, julho, houve uma queda de 0,61%. Em junho, o valor observado era de US$ 388,1 bilhões.

     

    RESERVAS DO BC

     

     

    A relação com o câmbio

     

    A entrada e saída de divisas, conforme calculada pelo balanço de pagamentos, dialoga com fatores importantes da economia brasileira. Em especial, o câmbio influencia e é influenciado pela quantidade de moeda estrangeira que entra no país.

     

    Quando a entrada de dólares aumenta, a oferta de divisas fica maior, valorizando a moeda local. Da mesma forma, se um país vê fuga de dólares, a moeda local fica desvalorizada.

     

    O câmbio também tem potencial de alterar as decisões de agentes econômicos sobre colocar ou não seu dinheiro em um país. Isso fica claro no caso de exportações e importações. Se uma moeda está desvalorizada perante o dólar, os produtos do país ficam mais baratos para quem compra, o que estimula que se compre mais desse local e resulta na entrada de mais dólares no país.

    Analogamente, se a moeda de um local está valorizada, suas exportações tendem a cair, o que significa uma entrada menor de divisas. Enquanto isso, as importações ficam mais baratas para os residentes do país, o que estimula a saída de dólares – e isso, por sua vez, pode alterar o câmbio.

    Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project.

    Você ainda tem 2 conteúdos grátis neste mês.

    Informação com clareza, equilíbrio e qualidade.
    Apoie o jornalismo independente. Junte-se ao Nexo!