O impasse do fundo do G7. E o embate entre Bolsonaro e Macron

As críticas públicas entre os presidentes do Brasil e da França em torno da oferta de doação para combater incêndios na Amazônia abriu uma crise diplomática entre os dois países

Jair Bolsonaro disse na manhã desta terça-feira (27) que está disposto a aceitar um fundo de US$ 20 milhões (cerca de R$ 83 milhões) para auxílio no combate a incêndios na Amazônia, mas sob algumas condições.

Esse aporte foi proposto no dia anterior pelos líderes do G7, grupo de países desenvolvidos que abrange Alemanha, Canadá, Estados Unidos, França, Itália, Japão e Reino Unido. Foi o presidente francês, Emmanuel Macron, que tomou a frente do assunto e protagonizou embates verbais com Bolsonaro acerca da Amazônia.

Na terça-feira (27), Bolsonaro afirmou que Macron precisa “retirar os insultos” contra o presidente brasileiro e contra a soberania brasileira na Amazônia. Depois disso, diz Bolsonaro, é que os dois lados podem negociar o recebimento do fundo. No fim da tarde do mesmo dia, o porta-voz da Presidência da República, Otávio Rêgo Barros, disse em conversa com jornalistas que o governo está aberto a receber aportes de outros países desde que a doação esteja condicionada à autonomia do Brasil para decidir o que fazer com os recursos.

O modo de lidar com o aumento de queimadas na Amazônia e a forma como Bolsonaro e Macron se referiram publicamente um ao outro abriram uma crise diplomática entre o Brasil e a França.

A briga entre Brasil e França

Macron aborda o assunto

Na quinta-feira (22), Macron publicou no Twitter que a alta de incêndios na Amazônia representava uma “crise internacional” e fez um apelo para que a reunião de cúpula do G7, que começaria dali a dois dias, discutisse o assunto das queimadas como um dos temas prioritários. A Europa e a França atravessam um momento de alta da pauta ambientalista, tanto na classe política como na sociedade civil. No tuíte, Macron usou a foto de um incêndio tirada por um fotógrafo morto em 2003.

Bolsonaro responde

Ainda na quinta (22), Bolsonaro respondeu. O presidente brasileiro disse no Twitter que Macron usava um “tom sensacionalista” ao se referir à Amazônia, estava interferindo em assuntos internos para ganhos políticos pessoais e usando uma “mentalidade colonialista”. Bolsonaro também criticou Macron por ter usado uma foto antiga da floresta, sem relação com a situação atual.

Acusação de ‘mentiroso’

Na sexta-feira (23), Macron afirmou via comunicado oficial que Bolsonaro “mentiu” sobre compromissos ambientais do governo brasileiro e que na circunstância atual a França deixaria de apoiar o acordo comercial entre Mercosul e União Europeia, firmado em junho de 2019. A Irlanda ficou ao lado da França e também se opôs ao acordo como retaliação à política ambiental do governo brasileiro.

Acusação de ‘ódio contra o Brasil’

Em seguida, Bolsonaro disse na sexta (23) que o presidente francês dissemina “ódio contra o Brasil por mera vaidade”. “Lamento a posição de um chefe de Estado, como o da França, se dirigir ao presidente brasileiro como mentiroso”, afirmou Bolsonaro no Twitter.

Bolsonaro sobre primeira-dama francesa

No sábado (24), Bolsonaro endossou em seu perfil oficial no Facebook um comentário ofensivo contra a primeira-dama francesa, Brigitte Macron. A postagem apoiada por Bolsonaro comparava Brigitte com Michelle Bolsonaro, primeira-dama do Brasil. Diante de fotos das duas, o presidente brasileiro postou: “não humilha, cara”.

Macron retruca

Na segunda-feira (26), Macron, em entrevista coletiva à imprensa ao fim do encontro do G7, afirmou que o comentário de Bolsonaro sobre a primeira-dama da França era “triste” e causava vergonha para as mulheres brasileiras. Macron disse esperar que em breve o Brasil tenha “um presidente que se comporte à altura” do cargo. Na mesma ocasião, Macron anunciou a proposta do fundo de R$ 83 milhões, junto com o presidente do Chile, Sebastián Piñera, que compareceu como convidado à reunião do G7.

Rejeição ao fundo

Na noite de segunda (26), o ministro da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, disse que o governo brasileiro iria rejeitar o fundo, que esse dinheiro deveria ser usado para reflorestar a Europa e que o governo francês queria interferir numa situação interna do Brasil sem nem sequer ter conseguido evitar o incêndio na catedral de Notre-Dame, ocorrido em Paris em abril de 2019.

Novas falas de Bolsonaro

Nesta terça-feira (27), Bolsonaro disse que considera aceitar o fundo, caso Macron peça desculpas, e afirmou que não ofendeu a primeira-dama Brigitte Macron.

Respeito à soberania

Na terça-feira (27), o o porta-voz da Presidência da República, Otávio Rêgo Barros, disse que o governo está aberto a receber fundos de outros países desde que haja respeito à soberania brasileira e que o governo tenha autonomia para decidir o que fazer com os recursos.

 

O que é o fundo

O G7 afirmou que para conceder os R$ 83 milhões, o Brasil precisará se comprometer a usar esse dinheiro na Amazônia atuando junto com ONGs e populações locais. Esse aporte viria sobretudo a partir do envio de aviões canadenses para combater o fogo, junto com um plano de reflorestamento. O governo brasileiro critica recorrentemente ONGs, inclusive da área ambiental, afirmando que são apenas entidades de esquerda interessadas em enriquecer e que trabalham contra o país.

No início de agosto de 2019, o governo Bolsonaro abriu mão do Fundo Amazônia, de preservação ambiental e financiado quase inteiramente pela Alemanha e pela Noruega. Os dois países europeus paralisaram os repasses criticando o aumento do desmatamento e a política ambiental do governo brasileiro. O presidente disse na ocasião que o Brasil não precisava desse dinheiro. Agora, com o fogo na Amazônia repercutindo internacionalmente, Bolsonaro é pressionado a aceitar uma nova fonte de recursos estrangeiros para preservar a floresta.

O que dizem os ministros brasileiros

O ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, apoiou o recebimento do fundo, desde que o Brasil tenha total poder de decisão sobre como usar o dinheiro, sem condições impostas pelo G7.

O ministro da Defesa, general da reserva Fernando Azevedo e Silva, disse que “toda ajuda é bem-vinda”, embora avalie que tenha ocorrido um exagero na repercussão internacional sobre os incêndios recentes na Amazônia.

Diferentemente de Salles e Azevedo e Silva, outros ministros criticaram diretamente a posição de Macron e a proposta do G7. Foi o caso de Ernesto Araújo (Relações Exteriores), Tereza Cristina (Agricultura) e Abraham Weintraub (Educação).

Em reunião com Bolsonaro nesta terça (27), os governadores dos nove estados que conformam a Amazônia Legal pediram ao presidente que aceitasse os recursos.

A busca de uma alternativa

Diante da repercussão mundial negativa às queimadas da Amazônia, Bolsonaro fez um pronunciamento na sexta (23) afirmando ter tolerância zero com desmatamento ilegal e se importar com preservação da floresta. A política ambiental do governo, porém, é alvo frequente de críticas de ambientalistas e de cientistas que estudam a área.

Bolsonaro é pressionado internamente por alguns grupos, como empresários do setor agropecuário, que temem retaliações comerciais como a inviabilização do acordo da União Europeia com o Mercosul, e membros da equipe econômica, que enxergam na crise um possível entrave à entrada do Brasil na OCDE (Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico). A União Europeia é o segundo maior parceiro comercial do Brasil, atrás apenas da China.

O governo brasileiro sinalizou que deve aceitar a promessa do governo britânico, do primeiro-ministro Boris Johnson, de um fundo de 10 milhões de libras (cerca de R$ 51 milhões). Não há detalhes sobre esse repasse.

Como alternativa à França e ao conjunto do G7, Bolsonaro se voltou a seus principais aliados internacionais: o presidente dos EUA, Donald Trump, e o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu. O presidente brasileiro afirmou que Trump se colocou à disposição para ajudar e que Netanyahu enviará uma “aeronave com apoio especializado” para combater o fogo.

Trump disse nesta terça (27) no Twitter reconhecer esforços do governo Bolsonaro no combate às queimadas e que os EUA apoiam totalmente o Brasil.

Além disso, o governo Bolsonaro está dialogando com a Colômbia, que também é um país amazônico e é governada pelo presidente Iván Duque, de direita, para construir uma resposta conjunta de países da região para a situação na floresta.

A visão de Bolsonaro sobre a Amazônia

Bolsonaro defende uma visão tradicional das Forças Armadas brasileiras segundo a qual a Amazônia é uma região que suscita grande interesse internacional e o Brasil precisa agir para garantir a soberania sobre essa porção do território.

Segundo essa visão, expressa no mote da ditadura militar “integrar para não entregar”, é necessário incentivar o povoamento e a exploração econômica na Amazônia a fim de evitar um risco iminente de perda do território — mesmo no caso de atividades nocivas ao meio ambiente, como agropecuária, mineração e construção de usinas hidrelétricas. Nessa lógica, a demarcação de terras indígenas também é vista como um risco à soberania nacional, por conta das garantias legais que vedam atividades econômicas nesses locais.

Essa teoria é compartilhada por Bolsonaro desde antes de ser presidente. Com o posicionamento recente de Macron, Bolsonaro voltou a sugerir que nações estrangeiras desenvolvidas planejam se apossar da Amazônia e usufruir das riquezas naturais da região, sob um falso pretexto de proteção ambiental e como se o Brasil fosse “uma colônia ou uma terra de ninguém”.

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