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Como Sonia Abreu criou espaço para mulheres na discotecagem

Considerada a primeira no Brasil a ocupar a cena masculina da cultura da noite, DJ morreu aos 68 anos

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Na cultura da noite e da discoteca, na década de 1970, era comum que mulheres fossem retratadas em poses sensuais, seminuas, em capas de disco e fotos promocionais. Um exemplo disso é a capa da coletânea “Discoteca Papagaio”, de 1978, em que uma modelo de pernas bronzeadas parece usar apenas uma camiseta.

Há outra mulher envolvida com a coletânea, da qual só se pode ver o nome. É a DJ Sonia Abreu, creditada como produtora executiva do disco. Sonia, consagrada como a primeira discotecária mulher do Brasil, morreu na segunda-feira (26), aos 68 anos. Ela sofria de uma doença degenerativa, esclerose lateral amiotrófica (ELA), e teve uma parada respiratória.

Em um meio marcado por machismo e objetificação feminina, a atuação de Sonia plantou a semente de um futuro distante em que a presença de mulheres na cabine de som seria uma realidade mais corriqueira. Até os anos 2010, a profissão de DJ (seja no techno, hip hop ou funk) e as escalações de clubes e festivais eram território esmagadoramente masculino.

“Ninguém da minha família me apoiava. Imagina, ser músico era 'coisa de vagabundo'”

Sonia Abreu

DJ

Quando Sônia começou a discotecar, no final da década de 1960, a ideia de uma mulher “trabalhar na noite” era encarada com ironia e reprovação. "Ninguém da minha família me apoiava. Imagina, ser músico era 'coisa de vagabundo'", relatou em entrevista ao site da revista Vice. O pai e mãe de Sônia, moradores dos Jardins, ele médico, ela dona de casa, morreram sem saber a verdadeira profissão da filha.

A qualidade de seu trabalho garantiu uma residência na Papagaio Disco Club, badalada casa noturna do empresário Ricardo Amaral, inaugurada em 1976 na avenida Brigadeiro Faria Lima, em São Paulo.

Para além das discotecas, Sônia tinha muitas conexões com o rock e a música brasileira. Era amiga pessoal de Arnaldo Baptista, ex-Mutantes, e ajudou a cuidar do músico depois do acidente que o deixou em coma. Em 1981, ela foi mestre de cerimônias do Festival de Águas Claras, no interior de São Paulo, que contou com Gilberto Gil, Alceu Valença e A Cor do Som entre suas atrações.

Ao longo dos anos 1980, foi uma dedicada promotora de sons fora do eixo anglo-americano da música pop. Era o que se chamava na época de “world music”. Para divulgar essas sonoridades, a DJ montou uma rádio ambulante, em uma Kombi, chamada Ondas Tropicais e formou A Banda do Quarto Mundo, com cerca de 20 integrantes.

"Ela acabou ficando meio esquecida, mas a Sonia foi muito pioneira e revolucionária para sua época. E a música brasileira deve muita coisa à ela”, declarou a jornalista Claudia Assef, co-autora da biografia “Ondas Tropicais”, lançada em 2017, à Vice.

Mulheres na cabine

Até os anos 2000, a música eletrônica e a cena noturna refletiam o machismo estrutural encontrado por todo o meio musical. Havia pouco espaço ou estímulo para mulheres DJs.

Nos anos 2010, houve progressos. Motivadas pelas crescentes discussões a respeito de representatividade e igualdade de gênero, profissionais do meio começaram a questionar a falta de mulheres em escalações de festivais e casas noturnas. Ao mesmo tempo, uma nova geração de DJs e produtoras musicais ganhou projeção global, entre elas a russa Nina Kraviz, a brasileira ANNA e a americana The Black Madonna.

Agências dedicadas a talentos femininos surgiram, como a nova-iorquina Discwoman, que trabalha com 19 mulheres DJs. Em São Paulo, o coletivo de festas Mamba Negra, fundado pela DJ Cashu e pela musicista Laura Diaz, é uma de várias iniciativas na cidade que promovem uma agenda feminista, destacando mulheres em seus eventos.

“Quando a gente começou [em 2013], tinha muito menos minas tocando e produzindo. Quando começam a dar mais visibilidade para mulheres tocando isso faz com que mais mulheres sintam-se à vontade para fazer isso”, afirmou Cashu em 2018, ao site Music Non Stop.

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