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Crise na Amazônia, guerra comercial, Brexit: o que marcou o G7

Reunião teve tentativas de conter as tensões com o Irã e discussões sobre a guerra comercial entre EUA e China. Presidente francês anunciou fundo de US$ 22,2 milhões para projetos na floresta

     

    Terminou nesta segunda-feira (26), na cidade francesa de Biarritz, a 45ª reunião de cúpula do G7, grupo formado por chefes de Estado e de governo de Alemanha, Canadá, Estados Unidos, França, Itália, Japão e Reino Unido.

    Os três dias de reuniões foram marcados por debates sobre meio ambiente, tendo o Brasil como pivô; sobre a guerra comercial em curso entre os EUA e a China; e sobre as tensões nucleares com o Irã. Em menor medida, foram discutidas possibilidades de acordo bilaterais entre americanos e britânicos e entre americanos e japoneses, além da questão da redução das desigualdades no mundo.

    A França é anfitriã e exerce a presidência rotativa do bloco. Em 2018, esse papel foi desempenhado pelo Canadá. Em 2020, será a vez dos EUA. Como o G7 não é um grupo formal, mas apenas um foro de debates, seus resultados não têm o peso de decisões executivas como tal, mas indicam os caminhos que a política das potências deve tomar nos meses seguintes.

    Raio-x do G7

    O que é

    O Grupo dos Sete é um grupo informal de grandes potências econômicas que decidem, por conta própria, realizar cúpulas para discutir assuntos de interesse comum. O G7 não tem existência jurídica formal.

    Quem faz parte

    Teve início em 1975 como G6. Em 1976, incorporou o Canadá. Em 1977, começou a abarcar progressivamente a participação da União Europeia,  que não é um Estado, como os demais, mas participa das discussões num status diferente, como observadora. Em 2014, a Rússia foi afastada do grupo. Seu formato atual é com Alemanha, Canadá, EUA, França, Itália, Japão e Reino Unido, além da União Europeia.

    Os convidados exteriores

    Com o passar dos anos, o G7 foi se abrindo à presença de outros países, que participam circunstancialmente de alguns debates temáticos. Nesta cúpula, de 2019, oito países de fora foram convidados. O Chile, por exemplo, exerceu papel de destaque intermediando iniciativas que envolveram os países amazônicos.

    Qual o tamanho

    Os países membros respondem por 40% do PIB mundial e por 10% da população do planeta. Quando o grupo foi criado, em 1975, seus membros respondiam por 75% do PIB mundial.

    Por que foi criado

    A criação foi proposta pela França em 1975 para que as potências pudessem articular juntas, politicamente, alternativas para a crise mundial do petróleo, quando o preço do produto subiu, em 1973, após a Guerra Árabe-Israelense.

    Brasil, Amazônia e as mudanças climáticas

    A questão ambiental, que roubou a cena do encontro no começo, perdeu força ao longo dos dias, mas ainda pode trazer consequências negativas para as relações bilaterais entre o Brasil e a França.

    Foto: François Mori/Reuters - 24.08.2019
    Merkel_Macron
    Primeira-dama da França, Brigitte Macron (dir) e chanceler alemã, Angela Merkel
     

    Antes do início da cúpula, o presidente francês, Emmanuel Macron, expressou preocupação com as queimadas na Amazônia, colocando pressão sobre o presidente Jair Bolsonaro. O governo brasileiro respondeu acusando o governo francês de adotar uma postura colonialista.

    Na sequência, Macron disse que Bolsonaro “mentiu” quando disse, ao assumir o governo, que se manteria fiel ao compromisso de preservar a floresta. Daí em diante, vários membros do governo brasileiro entraram no debate.

    O próprio Bolsonaro fez comentários depreciativos sobre a aparência da primeira-dama da França, Brigitte Macron, enquanto o ministro da Educação, Abraham Weintraub, chamou o presidente da França de “calhorda oportunista” nas redes sociais, e pediu “ferro” em Macron.

    Questionado sobre as ofensas a si e a sua mulher, Macron respondeu: “É triste. É triste. Mas é triste, antes de mais nada, para os brasileiros. Penso que as mulheres brasileiras devem ter vergonha de ouvir isso do próprio presidente [...] Espero que os brasileiros tenham logo um presidente que se comporte à altura”.

    O governo francês ameaçou retaliar barrando a conclusão de um ambicioso acordo comercial entre a União Europeia e o Mercosul (que precisa ser aprovado pelos Parlamentos dos países envolvidos), mas não foi acompanhado nessa posição de imediato por outros líderes da região.

    Apesar das manifestações negativas de Macron, o acordo é multilateral e ainda há diversas etapas para sua ratificação. O governo alemão, por exemplo, já afirmou que não apoia um boicote ao acordo, por entender que “não se trata de uma resposta apropriada ao que acontece no Brasil atualmente”.

    Macron anunciou ainda a criação de um fundo internacional de US$ 22,2 milhões para projetos na Amazônia. Ele também disse que uma iniciativa mais ampla, de diversos países, será anunciada durante a Assembleia Geral das Nações Unidas em setembro. 

    O líder francês disse ter escolhido o presidente do Chile, Sebastián Piñera, como interlocutor com os nove países que têm soberania sobre a região amazônica - embora o próprio Chile não seja um país amazônico.

    A presença inesperada do Irã

    A tensão nuclear com o Irã era um assunto previsto na pauta do G7, mas a presença em Biarritz do ministro das Relações Exteriores Mohammad Javaf Zarif pareceu surpreender a todos, menos à diplomacia francesa.

    O chanceler do Irã foi pessoalmente à cúpula do G7 tentar amenizar as sanções e embargos que vêm sendo impostos pelo governo Trump a seu país. Sua presença não era prevista, nem havia sido anunciada publicamente, pois o Irã não era um dos nove países convidados externos deste ano (Austrália, Chile, Índia, África do Sul, Egito, Burkina Faso, Senegal e Ruanda).

     

    Irã e EUA vivem o momento mais tenso de suas relações bilaterais desde 2015. Naquele ano, os dois países firmaram um acordo para impedir que o Irã desenvolvesse armas atômicas, mas Trump cancelou a participação americana nesse trato em 2018 e resolveu aplicar uma série de punições econômicas aos iranianos.

    Desde então, as demais potências envolvidas no Acordo de Viena de 2015 (Reino Unido, França, Rússia, China e Alemanha) tentam contornar o impasse instalado entre os governos de Washington e Teerã. 

    A costura é delicada. Pelas palavras de Macron, há consenso entre as potências sobre o diagnóstico da situação iraniana, mas há divergência sobre o melhor remédio a ser aplicado.

    “Nenhum membro do G7 quer que o Irã possa um dia vir a ter armas nucleares, e todos os membros do G7 estão profundamente comprometidos com a paz e a estabilidade na região, de maneira que nenhum dos membros se engajará em ações que possam depor contra isso. Posto isso, nós propomos diferentes iniciativas”

    Emmanuel Macron

    Presidente da França, em declaração dada no dia 25 de agosto, durante o encontro do G7 em Biarritz

    Mesmo com toda a linguagem diplomática, é possível perceber que cada um dos membros do G7 seguirá lidando de maneira bilateral com o Irã. “O G7 é um clube informal [...], portanto, as iniciativas [sobre o caso do Irã] continuarão sendo tomadas por uns membros e outros [de maneira independente], levando em conta esses dois objetivos [de evitar que o Irã tenha armas nucleares e de evitar uma desestabilização da região]”, disse Macron.

    Entre as muitas interpretações disponíveis para o rumo das articulações com o Irã, pelo menos uma, do jornal americano The Washington Post, considera que “a presença do ministro iraniano em Biarritz - a convite do presidente francês numa cúpula na qual Zarif é muito bem conhecido - foi uma lembrança de como o governo Trump está isolado em sua abordagem com o Irã”.

    Guerra comercial China x EUA

    Além da tensão com o Irã, os EUA são pivôs também de uma intensa disputa comercial com a China. As duas maiores potências econômicas do mundo estão engajadas numa batalha de taxações mútuas que ameaça arrastar a economia global para baixo.

    Segundo o jornal francês Le Monde, os demais membros do G7 “expressaram desaprovação sobre o uso que Trump faz das tarifas numa guerra comercial potencialmente desastrosa com a China”. Ao Washington Post, um assessor não identificado da Casa Branca comentou que Trump só “lamenta não poder subir ainda mais as tarifas”.

    Quem falou abertamente sobre a batalha entre americanos e chineses foi o premiê do Reino Unido, Boris Johnson. “Somos a favor da paz comercial em geral. É preciso acalmar isso, se pudermos”, disse ele.

    A guerra comercial entre China e EUA é um dos fatores a fazer com que as principais economias do mundo apresentem sinais de desaceleração, fazendo crescer o temor de uma recessão global.

    A guerra teve início em 2018, quando Trump anunciou as primeiras taxações sobre produtos chineses. Em 2019, veio uma nova rodada de taxas, até que a China retaliou com ameaças de dar início a uma guerra cambial e de tarifação de produtos americanos.

    Rússia e Brexit correndo por fora

    A Rússia fez parte do G7 - chamado, então, de G8 - até 2014, quando foi excluída do grupo após anexar a região ucraniana da Crimeia, sob condenação internacional.

    Há um esforço paralelo para integrar novamente os russos ao G7, mas as informações sobre como andam as tratativas e sobre como os países se alinham em relação a isso são escassas.

    O que há de informação pública a esse respeito é o fato de Macron ter recebido o presidente russo Vladimir Putin em Brégançon, na França, no dia 19 de agosto. Portanto, apenas cinco dias antes do encontro do G7.

    Ao fim do encontro em Brégançon, Macron anunciou que se reunirá com líderes da Rússia, Alemanha e Ucrânia “nas próximas semanas” para buscar uma “verdadeira mudança” no impasse na região da Crimeia e do Donbass,o que poderia alterar de alguma maneira as condições que fizeram os russos serem expulsos do G7. Entretanto, sequer está claro se este é um objetivo central dessa movimentação liderada pela França.

    No dia seguinte ao diálogo entre Macron e Putin em Brégançon, Trump disse achar “apropriado” que a Rússia possa voltar ao grupo.

     

    Outro país que compôs os assuntos paralelos à cúpula de Biarritz é o Reino Unido, que tenta minimizar de todas as formas as perdas decorrentes de sua retirada da União Europeia, o que deve ocorrer até 31 de outubro.

    Trump ofereceu um acordo pós-Brexit a Boris Johnson. O presidente americano disse que conseguiria “rapidamente [...] um fantástico acordo comercial muito grande, o maior que ele [Boris Johnson] já viu”. Trump comparou a situação atual dos britânicos com a União Europeia a “uma âncora no tornozelo”. Mas o próprio premiê britânico mostrou-se prudente e disse que ainda haverá um longo caminho de negociação com os EUA adiante.

    As relações no encontro de 2019

    O clima dos encontros do G7 se tornou um assunto politicamente relevante desde que Donald Trump assumiu a Casa Branca, em janeiro de 2017, por causa de suas reações intempestivas, seus tuítes agressivos e seu pouco apreço pelo protocolo.

    Na reunião anterior, por exemplo, em 2018, ficou famosa a foto na qual Trump aparece de braços cruzados e isolado na frente de todos os demais líderes, que parecem tentar convencê-lo de algo.

     

    Naquele encontro realizado em Charlevoix, no Canadá, Trump resolveu retirar sua assinatura da declaração final. A decisão foi tomada depois que ele já havia deixado a cidade, e foi comunicada por telefone aos participantes.

    Trump fez isso porque ficou irritado com declarações à imprensa do anfitrião do encontro, o premiê canadense, Justin Trudeau. Ao apresentar o documento final, Trudeau lamentou a decisão americana de impor barreiras à compra de aço e alumínio, o que impactou diretamente a economia dos canadenses.

    Um ano depois, em contraste, o presidente americano demonstrou estar mais integrado em Biarritz.  Ele disse que sua delegação “foi tratada lindamente” e elogiou “vibrações positivas” do encontro.

    A situação mais harmoniosa pode ter sido influenciada pela estratégia de simplesmente não produzir uma declaração final comum após a conclusão do encontro.

    João Paulo Charleaux é repórter especial do Nexo e escreve de Paris.

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