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O que é o som do diabo. E por que ele foi proibido por anos

Evocando tensão e medo, o trítono ganhou o apelido por soar desarmonioso, algo repelido pela Igreja Católica

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Durante a história, houve momentos em que determinadas canções foram censuradas por governos. Porém, por alguns séculos, as restrições chegaram a atingir especificamente um tipo de acorde musical: o trítono, banido pela Igreja Católica.

O trítono é o intervalo de três tons inteiros entre duas notas. Durante a Idade Média e a Renascença, o trítono foi considerado um som maldito, sendo comumente chamado de “o som do diabo”. Quando tocado, o trítono produz um som dissonante e pouco harmônico, que evoca tensão e medo.

“É um som que pode ser muito assustador, dependendo da forma com que é orquestrado”, disse à BBC o professor de música e musicólogo John Deathridge, do King’s College de Londres. “Na teologia medieval, era necessário uma forma de se apresentar o diabo. Na Igreja Católica Apostólica Romana, o trítono foi usado algumas vezes para representar a crucificação”, acrescentou.

O trítono acabou sendo proibido, mas não da maneira tradicional. Seu uso foi banido a partir do século 6, quando o filósofo romano Boécio compilou o livro De institutione musica, obra que concentra as principais teorias musicais da antiguidade, que teve grande influência na música medieval.

Com o livro de Boécio, a Igreja Católica formulou uma série de regras rígidas para a composição musical com fins religiosos e, nelas, o trítono era proibido. “Eles eram ensinados a não tocar esse intervalo. Você pode ver isso como uma proibição teológica disfarçada de proibição técnica”, disse Deathridge. O uso do trítono na música ficou banido até meados do século 18.

A explicação matemática

A harmonia musical surge a partir da razão matemática entre as frequências das notas tocadas.

Em seu blog, Ethan Hein, professor de produção musical na Universidade de Nova York, diz que a dissonância causada pelo trítono surge do fato de que a razão matemática entre as frequências resultam em um número irracional. O conjunto dos números irracionais é formado por números decimais infinitos, como o caso do valor de Pi.

Para se saber se um intervalo ou acorde soa harmonioso, é necessário se calcular a razão entre as frequências das notas presentes naquele som, dividindo o maior valor pelo menor.

O trítono clássico é o intervalo entre o Dó Maior e o Fá Sustenido. O Dó Maior apresenta frequência de 261,63 Hz. O Fá Sustenido traz frequência de 369,99 Hz. Calculando a razão entre as frequências, o valor obtido é de 1,41421, um número irracional, também conhecido como a raiz quadrada de dois. Por ser um número decimal infinito, o som resultante será desarmonioso para os padrões da música ocidental.

Se você clicar aqui, você conseguirá tocar o som do trítono ao apertar, no seu teclado, as teclas "Q" e "5", simultaneamente ou em sequência.

Hein explica que, na música ocidental, os acordes considerados harmônicos apresentam uma razão matemática de números inteiros. O trítono, por trazer um número irracional em sua razão, acaba causando desconforto no ouvinte.

O trítono na música moderna

A mítica em torno do trítono fez com que ele se tornasse um recurso comum na música moderna. A banda inglesa Black Sabbath tem um trítono como o primeiro acorde de “Black Sabbath”, uma de suas principais músicas.

 

A música “Enter Sandman”, do Metallica, também apresenta um trítono, em seu riff de abertura.

 

Na cultura pop, o trítono também aparece em alguns momentos, com usos diversos.  Ele está presente na música “Maria”, do filme “Amor, sublime amor” e no tema de abertura da animação “Os Simpsons”.

 
 

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