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A Amazônia na pauta do G7. E qual seu peso na agenda das potências

Países-membro dão prioridade ao ‘meio ambiente’ em vez da ‘desigualdade’ depois de queimadas e de atrito com Bolsonaro

     

    Desde 1975, os países-membros do G7 escolhem um tema prioritário para suas cúpulas anuais. O tema escolhido reflete o que os líderes das sete potências que conformam o grupo (Alemanha, Canadá, EUA, França, Itália, Japão e Reino Unido) acreditam ser a prioridade política e econômica do mundo naquele instante.

    Assim, a 45ª cúpula, que acontece em Biarritz, no sul da França, de sábado (24) a segunda-feira (26), foi pensada para discutir “a luta contra a desigualdade”. Para participar das discussões, foram convidados também líderes alheios ao G7, vindos de países africanos e asiáticos, além de um sul-americano, o Chile.

    Entretanto, dois dias antes de os chefes de Estado e de governo começarem a desembarcar no aeroporto do balneário francês, um elemento surpresa roubou a cena: a Amazônia.

    Embora não estivesse objetivamente na pauta do G7, o assunto ganhou destaque repentino, por causa do aumento no número de queimadas desde janeiro, quando teve início o governo do presidente Jair Bolsonaro.

    O Brasil abriga 60% da floresta amazônica, que se estende por outros oito países, incluindo a Guiana, que pertence à França, anfitriã da cúpula e presidente de turno do Grupo dos Sete.

    82%

    Foi o crescimento das queimadas na Amazônia de janeiro a agosto, na comparação com o mesmo período de 2018, de acordo com o Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais)

    “Nossa casa queima. Literalmente. A Amazônia, pulmão do nosso planeta, que produz 20% do nosso oxigênio, está em chamas. Essa é uma crise internacional. Membros do G7, vamos tratar dessa urgência em nosso encontro que terá início dentro de dois dias”, escreveu o presidente francês, Emmanuel Macron, em sua conta no Twitter, nesta quinta-feira (22).

    A mensagem do presidente da França foi republicada em seguida pelo primeiro-ministro do Canadá, Justin Trudeau, com apoio total: “Eu não poderia concordar mais, Macron.”

    A chanceler alemã, Angela Merkel, assim como o primeiro-ministro do Reino Unido, Boris Johnson, e o presidente dos EUA, Donald Trump, também tocaram, cada um a seu modo, no assunto, que passou a fazer convergir a atenção dos participantes do G7, muito mais que a questão da “luta contra a desigualdade”, prevista inicialmente.

    “A presidência francesa do G7 fez da luta contra as desigualdades sua prioridade”

    Emmanuel Macron

    Presidente da França, no dossiê formal preparado para a imprensa imprensa na cúpula do G7

    “Membros do G7, vamos tratar dessa urgência em nosso encontro que terá início dentro de dois dias”

    Emmanuel Macron

    Presidente da França, em sua conta no Twitter, no dia 22 de agosto, sobre as queimadas na Amazônia

    Raio-x do G7

    O que é

    O Grupo dos Sete é um grupo informal de países que decidem, por conta própria, realizar cúpulas para discutir assuntos de interesse comum. O G7 não tem existência jurídica formal.

    Quem faz parte

    Teve início em 1975 como G6. Em 1976, incorporou o Canadá. Em 1977, incorporou a União Europeia. Em 2014, a Rússia foi afastada do grupo. Seu formato atual é com Alemanha, Canadá, EUA, França, Itália, Japão e Reino Unido, além da União Europeia.

    Qual o tamanho

    Os países membros respondem por 40% do PIB mundial e por 10% da população do planeta. Quando o grupo foi criado, em 1975, seus membros respondiam por 75% do PIB mundial.

    Por que foi criado

    A criação foi proposta pela França em 1975 para que as potências pudessem articular juntas, politicamente, alternativas para a crise mundial do petróleo, quando o preço do produto subiu, em 1973, após a Guerra Árabe-Israelense.

    Agendas internas e agendas externas

    A agenda internacional nunca foi e não é dissociada da agenda interna dos países participantes. Cada um dos líderes que participa da cúpula em Biarritz fala, ao mesmo tempo, para uma audiência estrangeira e para uma audiência doméstica, que lhe dá votos e legitimidade para estar ali.

    Portanto, quando Macron, Trudeau, Merkel, Johnson e Trump falam das queimadas na Amazônia, eles, como políticos, respondem a pressões dessa dupla agenda.

     

    No caso dos países europeus, a pressão doméstica pode ser medida pelo salto que os partidos verdes, ligados a causas ecológicas, tiveram na eleição para o Parlamento Europeu, realizada em maio de 2019. Macron, Merkel e Johnson sabem do valor desse nicho, além de saberem da importância da pauta ambiental em si mesma.

    Além do voto, os verdes mobilizam protestos de rua com enorme adesão e poder de destruição. Macron teme os “coletes amarelos”, que surgiram em novembro de 2018 na França, protestando exatamente contra um aumento no preço da gasolina, com o qual o governo pretendia gerar recursos adicionais para pesquisar e desenvolver energia limpa. Com o tempo, a pauta do movimento tornou-se difusa e passou a abarcar até mesmo pedidos de renúncia do presidente.

    Donald Trump na Casa Branca
     

    Essa disputa de interesses, entre as agendas econômica e ambiental, é um exemplo agudo do tipo de equilíbrio que os governantes atuais e futuros terão de buscar para cumprir com os objetivos do Acordo do Clima.

    No Reino Unido, membros do coletivo ambientalista Extinction Rebellion vêm promovendo manifestações de rua cada vez numerosas, e impondo um custo cada vez mais elevado a qualquer político que negue o papel das emissões de carbono nas mudanças climáticas em curso.

    O mesmo ocorre nos EUA, onde a pauta ambiental também é forte. No entanto, o movimento ambientalista vive um refluxo desde que Trump chegou à Casa Branca, em janeiro de 2017. O presidente americano retirou seu país do Acordo do Clima de Paris, que estabelecia metas para a redução de gases do efeito estufa na atmosfera, e questiona a própria existência do aquecimento global.

    Esses matizes na política doméstica de cada país ajudam a explicar a razão pela qual Macron, por exemplo, é mais agressivo que Trump ao falar das queimadas na Amazônia. O presidente francês chegou a dizer que “Bolsonaro mentiu” quando disse que se manteria fiel ao Acordo do Clima. Já Trump, que saiu do Acordo do Clima e com quem Bolsonaro se esforça para estar alinhado em todas as agendas possíveis, ofereceu ajuda para apagar as chamas na Amazônia sem responsabilizar Bolsonaro pela situação.

    O Brasil nas discussões

    Em pronunciamento à televisão francesa na manhã neste sábado (24), Macron evocou a condição da França de “país amazônico” (por causa da Guiana Francesa) para convocar uma “mobilização” dos países do G7 “em parceria com os países da Amazônia, para lutar contra esses incêndios e investir em reflorestamento”.

    Na quinta-feira (22), ao reagir à primeira manifestação do presidente francês sobre as queimadas, Bolsonaro havia postado uma mensagem no Twitter afirmando que “a sugestão do presidente francês, de que assuntos amazônicos sejam discutidos no G7 sem a participação dos países da região, evoca mentalidade colonialista descabida no século XXI”.

     

    Na sexta-feira (23), houve uma escalada na questão. Ao afirmar que Bolsonaro “mentiu” sobre compromissos ambientais do governo brasileiro, Macron afirmou que a França não irá mais apoiar o acordo comercial entre Mercosul e União Europeia, firmado em junho de 2019. A posição foi seguida pelo governo da Irlanda, país que não participa do G7.

    Além da questão ambiental, Macron enfrenta muita resistência interna ao acordo por parte de produtores rurais de setores que competem com os países sul-americanos.

    Em Biarritz, o polonês Donald Tusk, presidente do Conselho Europeu, pôs em dúvida a ratificação do acordo entre os blocos com a crise ambiental.

    “Apoiamos o acordo UE-Mercosul, que também implica a proteção do clima, mas é difícil imaginar uma ratificação harmoniosa pelos países europeus enquanto o presidente brasileiro permite a destruição dos espaços verdes do planeta”

    Donald Tusk

    Presidente do Conselho Europeu, em entrevista na chegada a Biarritz, em 24 de agosto de 2019

    Uma das etapas para o acordo comercial começar a valer é a aprovação no Conselho Europeu, órgão que representa o comando político do bloco e é formado por chefes de Estado ou de governo dos 28 países-membro da União Europeia.

    Apesar das manifestações negativas de Macron, que é participante do conselho, o acordo é multilateral e ainda há diversas etapas para sua ratificação.

    O governo alemão, por exemplo, já afirmou que não apoia um boicote ao acordo, por entender que “não se trata de uma resposta apropriada ao que acontece no Brasil atualmente”.

    Em reportagem na sexta-feira (23), o jornal O Globo relatou que o governo Bolsonaro aposta em Donald Trump como porta-voz do Brasil em Biarritz. Além disso, acredita que contará com o apoio de Japão, Reino Unido e Itália.

    No Twitter, o presidente americano afirmou que as perspectivas de comércio entre Brasil e EUA são animadoras. Outro país que acompanha o desenrolar da crise entre o Brasil e os países europeus é a China. Na sexta-feira, ainda segundo O Globo, um representante da embaixada chinesa em Brasília elogiou a política ambiental brasileira e disse que seu país teria interesse em negociar um acordo de livre comércio com o Brasil.

    A agenda ambiental atropelada pelo Brasil

    Antes de o caso brasileiro ter sido alçado inesperadamente ao topo da agenda em Biarritz, a questão ambiental já estava presente na pauta original do G7, ainda que de maneira mais discreta. A França, anfitriã, relembrou o compromisso de “neutralizar o carbono até 2050”

    Macron também fez referência à Carta pela Biodiversidade. Ela foi assinada por todos os ministros do Meio Ambiente dos países-membros do G7 e reforça o apoio aos documentos da ONU que vinculam as causas humanas às mudanças climáticas, e é apresentada como “ferramenta indispensável de mobilização das finanças em favor do clima”. Macron propôs a realização de uma conferência específica para tratar do tema “no outono”, que, no hemisfério norte, vai dos últimos dias de setembro aos últimos dias de dezembro.

     

    O presidente francês havia dito também que o transporte marítimo representa 3% das emissões de gases do efeito estufa, e que as pegadas de carbono do setor (quantidade de carbono emitido ao longo de toda a cadeia produtiva de um determinado bem de consumo) podem chegar a 17% até 2050. Por essa razão, ele disse que trabalharia com os demais países com a intenção de obter novos compromissos estatais e com empresas privadas da área.

    Outro ponto destacado por Macron é o que ele chamou de “Pacto Fashion”, para reduzir o impacto ambiental das indústrias têxteis. De acordo com ele, a indústria da moda é responsável por 8% das emissões de gases do efeito estufa, o que dá mais que as emissões da aviação e dos serviços marítimos somados. O setor é responsável também por 17% da poluição da água e por 35% da poluição de plástico nos oceanos.

    A pauta do G7 fala, portanto, de questões ambientais, mas não falava das queimadas na Amazônia, nem do Brasil, especificamente. Além das questões ambientais, há ainda temas de desigualdade de gênero, internet e democracia, inteligência artificial e liberdade de expressão.

    Por fim, mesmo não constando no menu oficial do encontro, existe a chance de que se discuta um possível regresso da Rússia ao G7. Dias antes de ir para Biarritz, Macron recebeu o presidente russo, Vladimir Putin, em Brégançon.

    Os russos foram suspensos há cinco anos, depois de terem tomado para si a Península da Crimeia, que pertencia à Ucrânia. Macron vem tentando costurar uma reaproximação com Moscou.

    No dia 20 de agosto, Trump disse achar “apropriado” que a Rússia possa voltar ao grupo, que passaria a se chamar G8, como ocorria até 2014.

    É sempre difícil prever o resultado de uma cúpula como essa, mas esse jogo de adivinhação tornou-se praticamente impossível desde que Trump assumiu a presidência dos EUA. Em junho de 2018, ele pediu a retirada de sua assinatura da declaração final da cúpula do G7, realizada no Canadá. A ordem foi dada depois que ele já havia deixado o local, a bordo do avião presidencial. O presidente americano irritou-se com declarações dadas à imprensa por Trudeau, que, na ocasião, foi chamado de “fraco e desonesto” por Trump.

    João Paulo Charleaux é repórter especial do Nexo e escreve de Paris.

    ESTAVA ERRADO: A versão original deste texto informava que o presidente do Conselho Europeu, Donald Tusk, era britânico. Na verdade, ele é polonês A informação foi corrigida às 12h32 de 27 de agosto de 2019.

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