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Os protestos pela Amazônia nas embaixadas do Brasil na Europa

Após líderes mundiais criticarem política ambiental brasileira, manifestantes de vários países se reúnem diante de representações do país

     

    Grupos de manifestantes se reuniram nesta sexta-feira (23) na porta de embaixadas e consulados brasileiros em várias partes do mundo para protestar contra a política ambiental do presidente Jair Bolsonaro.

    Ao Nexo o Itamaraty informou ter tomado “medidas de reforço de segurança” ao longo do dia, para prevenir episódios como o de 13 de agosto, quando manifestantes picharam palavras de ordem e atiraram tinta vermelha contra a fachada da embaixada do Brasil em Londres.

    A mobilização internacional cresceu depois de líderes como o presidente da França, Emmanuel Macron; o premiê do Canadá, Justin Trudeau; do Reino Unido, Boris Johnson; e o secretário geral das Nações Unidas, António Guterres, terem publicado mensagens no Twitter condenando a destruição da Amazônia.

    Assim como os políticos, astros do cinema, da música e dos esportes também publicaram mensagens em suas redes sociais, aumentando o alcance de campanhas virtuais como #prayforAmazon (reze pela Amazônia) e #actforAmazon (aja pela Amazônia).

    Os posts de líderes estrangeiros e celebridades (alguns usando fotos antigas de queimadas), além das manifestações de rua pelo mundo, começaram um dia depois que o céu de São Paulo escureceu no meio da tarde de segunda-feira (19). A chegada de uma frente fria se juntou à fumaça de queimadas no Brasil e em países vizinhos, algo que fez o dia virar noite na maior cidade do país.

    As imagens do céu negro da capital paulista foram reproduzidas à exaustão em sites de notícias e nas redes sociais, ilustrando de forma explícita dados que mostram o aumento dos focos de incêndio no Brasil como um todo.

    A floresta como vítima. E Bolsonaro como alvo

    As políticas de Bolsonaro - que, desde que assumiu o governo, em janeiro de 2019, contesta dados oficiais sobre a destruição da floresta, perde recursos de cooperação internacional e anuncia o congelamento de demarcação de terras indígenas - são vistas internacionalmente como uma ameaça para a humanidade, por seu efeito sobre as mudanças climáticas.

    O presidente brasileiro tem sido referido em importantes jornais da Europa como um líder de extrema direita truculento, inimigo dos direitos humanos e dos povos indígenas, além de admirador da ditadura militar e de torturadores.

    O alcance dos protestos contra Bolsonaro pode ser medido tanto pelo número de cidades nas quais eles ocorreram e pelo número de pessoas envolvidas, quanto pela repercussão obtida nas redes e na imprensa mundial. A onda de críticas à política ambiental em curso representa o maior desgaste na imagem pública brasileira desde que o atual governo teve início.

    Estrangeiros nas ruas de capitais europeias

    Paris, Londres, Amsterdã, Genebra, Dublin, Madri e Barcelona tiveram protestos nesta sexta-feira (23). Algumas dessas manifestações foram convocadas e protagonizadas por membros do movimento Extinction Rebellion (rebelião contra a extinção).

    O Nexo acompanhou a manifestação realizada na frente da embaixada do Brasil em Paris. Por volta das 14h30 no horário local (9h30 em Brasília), cerca de 200 pessoas erguiam cartazes, batiam palmas e gritavam palavras de ordem na frente do edifício, interrompendo uma das faixas da movimentada avenida que fica na lateral do Rio Sena.

    Foto: Charles Patiau/Reuters - 23.08.2019
    Cartaz_Paris
    'Amazônia fica, Bolsonaro sai', diz cartaz em Paris
     

    “Estamos aqui para fazer pressão sobre o governo brasileiro. O fato de a Amazônia estar em chamas é um assunto que diz respeito a toda a humanidade. O presidente brasileiro não entendeu a importância que a floresta tem”, disse ao Nexo o francês Enric Trochun, que é militante do coletivo ambientalista Extinction Rebellion.

    Em Londres, os manifestantes se reuniram, como dez dias atrás, na frente da embaixada brasileira, assim como em Berlim. Em Amsterdã, os protestos ocorreram em espaços públicos, com manifestantes deitando no chão em silêncio. Na Suíça, foram registrados protestos nas ruas de Berna e de Genebra.

    Cidades europeias são frequentemente palco de manifestações de comunidades de imigrantes. Em Paris, Londres, Berlim e Genebra (sede de órgãos importantes das Nações Unidas), são comuns as marchas de cingaleses protestando contra a perseguição étnica em Sri Lanka ou argelinos pedindo eleições livres na Argélia.

    Os protestos pela Amazônia foram diferentes, nesse sentido. Em Paris, por exemplo, quase não havia brasileiros. A maioria dos manifestantes eram franceses. As palavras de ordem gritadas também eram em francês. Em Berlim, manifestantes gritaram slogans em espanhol

    Esses detalhes mostram que a pauta ambiental recebe atenção de cidadãos de várias partes do mundo, o que cria um cruzamento político desafiador para o governo brasileiro, entre políticas domésticas e política externa.

    Isso ocorre no momento em que os partidos chamados de “verdes” experimentam crescimento no número de votos, como na eleição para o Parlamento Europeu, em maio. Essa realidade pode forçar políticos tradicionais - como Angela Merkel, da Alemanha, e Emmanuel Macron, da França - a defenderem com cada vez mais força a questão ambiental diante de seu eleitorado interno.

    A reunião do G7 na França

    Organizadores dizem que mais manifestações são esperadas para este sábado (24), em Nova York. Essas marchas coincidirão com a abertura da reunião do G7 em Biarritz, na França, onde estarão reunidos os presidentes de França, Alemanha, Canadá, Itália, Japão, Reino Unido e EUA, além de representantes da União Europeia, enquanto bloco.

    Líderes como Trudeau (Canadá), Macron (França) e a chanceler alemã, Angela Merkel, defendem que o G7 ponha em sua agenda de discussões as queimadas na Amazônia.

    O Brasil não foi convidado para o encontro, embora o Chile, presidido por Sebastian Piñera, esteja presente, assim como os líderes de países que são do porte do Brasil, como a África do Sul e a Índia, ambas potências médias que compõem o Brics (Brasil, Rússia, Índia, China e África dos Sul).

    As reações brasileiras

    Sem apresentar provas, Bolsonaro chegou a culpar ONGs que combatem o desmatamento pelo fogo na região amazônica. Seu ministro da Casa Civil, Onix Lorenzoni, afirmou que trata-se de uma campanha da Europa com o objetivo de criar dificuldades comerciais para o Brasil.

    Os integrantes do governo, assim como seus apoiadores, dizem, no geral, que o país é vítima de uma campanha internacional de difamação, movida por interesses escusos em riquezas da Amazônia.

     

    Para o chanceler brasileiro, Ernesto Araújo, a “crise ambiental” (ele usa aspas para questionar sua real existência) é “a última arma que resta no arsenal de mentiras da esquerda para abafar” o fato de que a verdadeira intenção é atacar Bolsonaro, um presidente que “está reerguendo o país”.

    Um dos filhos de Bolsonaro, o deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), que postula vaga de embaixador do Brasil em Washington, compartilhou em suas redes um vídeo de terceiros no qual Macron é chamado de “idiota”.

    O general Eduardo Villas Boas, ex-comandante do Exército e ex-comandante militar da Amazônia, hoje assessor do Gabinete de Segurança Institucional de Bolsonaro, atribuiu à França “ameaças de emprego de poder militar contra o Brasil”.  

     

    Nenhuma manifestação oficial francesa fez referência a ameaça de uso da força militar, como disse Villas Boas. Além disso, o presidente francês foi eleito em maio de 2017 por um partido de centro-direita, não de esquerda, como sugeriu o chanceler brasileiro. Os candidatos das esquerdas francesas não passaram sequer ao segundo turno naquela eleição.

    Na Bolívia, o presidente Evo Morales também foi cobrado pelos incêndios na Amazônia boliviana. Evo disse que está havendo "muita exploração midiática" dos incêndios. Ainda assim, aceitou ajuda de países como o Chile para combater as chamas.

    João Paulo Charleaux é repórter especial do Nexo e escreve de Paris.

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