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O que a fumaça no Centro-Sul ensina sobre o alcance da Amazônia

Transportados pelo vento na direção do resto do país, os chamados rios aéreos têm origem na floresta e são responsáveis por parte da chuva no Sul

     

    No meio da tarde de 19 de agosto, um “rio de fumaça” escureceu a cidade de São Paulo e assustou a população. Nesse dia, brasileiros descobriram que a presença da nuvem escura se devia, em parte, a queimadas de vegetação na região da floresta amazônica e em outros locais a estados de distância, como a Bolívia e o Paraguai.

    Segundo especialistas, a massa de fumaça foi desencadeada pelo encontro de uma frente fria vinda do leste de São Paulo com ventos quentes carregados de aerossóis gerados pelas queimadas. Em 14 de agosto, o jornal Folha de S.Paulo havia noticiado um “dia do fogo” organizado por fazendeiros da região Norte, no qual foram promovidas queimadas em massa na floresta com a intenção de abrir área para pastagem.

    A fumaça que chegou até São Paulo fez o mesmo caminho de outro fenômeno meteorológico vindo da Amazônia: os chamados rios aéreos, que todo ano levam chuva para o Centro-Sul brasileiro e a outros países sul-americanos.

    Pode ser difícil imaginar que parte da chuva que cai em cidades como São Paulo e Rio de Janeiro tem origem a milhares de quilômetros de distância e é transportada até o Sul do país em massas de vapor de água formadas na região Norte. Essa conexão entre a Amazônia e o resto do Brasil representa um dos exemplos de por que é importante proteger a floresta.

    O que são os rios aéreos

    São chamados de rios voadores (ou rios aéreos) os cursos de água atmosféricos que carregam a umidade da Amazônia para o Centro-Oeste, o Sudeste e o Sul, além de países fronteiriços, como Uruguai, Paraguai e Argentina. Eles são formados por massas de ar carregadas de vapor de água e geralmente acompanham nuvens.

    Quando há condições meteorológicas propícias (como uma frente fria), a umidade trazida pelos ventos se transforma em chuva quando chega ao Sul do país. A água ajuda a irrigar lavouras e enche rios terrestres e represas de água são usadas na geração de energia. Por causa desses rios o clima no Centro-Sul tem características tropicais — o que contraria a tendência para a aridez, como em outras áreas similares do hemisfério.

    É como se a Amazônia fosse uma bomba d’água, explica o projeto de educação ambiental Rios Voadores. Primeiro, a floresta retém a umidade evaporada pelo Atlântico, que cai sobre a mata na forma de chuva. Por meio de um processo chamado evapotranspiração, que engloba a evaporação com origem em árvores e no solo, a floresta então envia a água de volta para a atmosfera na forma do vapor que depois percorre o país.

    20 bilhões

    de itros de água são produzidos todos os dias pelas árvores da Amazônia, segundo estimativa do cientista Antonio Nobre, especializado em rios aéreos

    Além da ação da floresta, contribui para a formação dos rios aéreos um acidente geográfico de fora do Brasil — a cordilheira dos Andes. Antes de chegarem ao Centro-Sul, os ventos que carregam a umidade caminham para oeste. A barreira formada pela cordilheira, no entanto, faz com que as massas de ar deem a curva rumo ao Sul brasileiro.

    Nem toda chuva no Centro-Sul, contudo, ocorre devido aos rios aéreos, dizem especialistas. As frentes frias do Sul, por exemplo, também têm papel na precipitação, assim como a evaporação em regiões do Centro-Oeste e do Pantanal. Um dos desafios atuais de cientistas é quantificar a contribuição dos rios aéreos para esse quadro.

    Como o desmate afeta os rios aéreos

     

    Ainda não se sabe qual o efeito exato do desmatamento na Amazônia para a dinâmica dos rios aéreos, disse o climatologista José Marengo, um dos maiores especialistas na floresta, em entrevista à BBC Brasil.

    Uma das possibilidades, segundo ele, é que os ventos que carregam os rios e os “jatos” de água que os acompanham fiquem mais fortes. “São as conclusões das projeções dos modelos climáticos”, disse Marengo à BBC. Se ocorrer, o fenômeno resultará em chuvas mais intensas.

    Com o aumento das chuvas, aumentam as possibilidades de inundações, deslizamentos de terra e outros desastres naturais associados à água, completa Marengo.

    O cientista Antonio Nobre, ao jornal O Globo, disse que o desmate é “o calcanhar de aquiles da mata”. Se chegar a um ponto alto, é possível que a floresta não seja mais capaz de se regenerar, transformando-se em uma savana, um tipo de vegetação mais seca. Sem floresta tropical, é possível que os rios voadores deixem de existir.

    25%

    é o máximo da floresta que o desmatamento pode atingir antes que a Amazônia chegue ao ponto de ruptura, estimam cientistas

    20%

    da floresta original já foi desmatada na Amazônia brasileira; na internacional, foram 17%

    A Amazônia é o centro de uma crise aberta no governo federal desde julho de 2019. Naquele mês, dados preliminares do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), órgão vinculado ao Ministério da Ciência, apontaram alta do desmatamento na floresta em relação ao mesmo mês no ano anterior. O presidente Jair Bolsonaro (PSL) questionou os números e demitiu o antigo diretor do instituto, o físico Ricardo Galvão.

    Em agosto, as queimadas na Amazônia chamaram a atenção da população em todo o país após a fumaça vinda do Norte ter chegado ao Centro-Sul. Houve manifestações de figuras e líderes internacionais em tom de comoção e crítica ao Brasil. O Inpe registrou em 2019 o maior número de focos de queimada dos últimos cinco anos.

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